Quinta-feira, 6 de Janeiro de 2011

"O Estado sem Estado: O porquê da importância da Bélgica" II

Retomemos o fio onde deixamos a meada.

O pós guerra, em 1945, deitou para o lixo da história uma geração de flamengos autonomistas, em que se misturaram, de forma explosiva,  colaboradores com o ocupante germânico, condenações em justiça e a abdicação do Rei Leopoldo III que, em referendo nacional, obteve 58% de votos favoráveis à sua continuação no trono e, na Flandres, obteve 72% de votos favoráveis.

Março de 1970 marcou de forma impressiva o ressentimento dos flamengos.

Malgrado os resultados, e devido à fúria de gigantescas manifestações, em Bruxelles e na Valónia, o rei abdicou mesmo para o seu filho Balduíno.

Mas, o que marcou, e condenou, a unidade nacional foi a reviravolta na fortuna económica.

A partir de 1950 vamos assistir ao declínio das industrias tradicionais da Valónia e motor até então da economia belga: o carvão (em 1961 ainda se produzia 21 milhões/anos; hoje não chega aos 2 milhões/ano), a lousa, a metalurgia e os têxteis.

Hoje, a taxa de desemprego na Valónia é brutal.

Na zona de Charleroi, capital do carvão (...)" o desemprego afecta 28% da população activa. A taxa de desemprego da Valónia é de 15,9% e da região de Bruxelas é de 11,2%, valores muito mais altos que os da Flandres, mais rica, com uma taxa de apenas 5%."

Enquanto isso, a Flandres está a prosperar.

Antuérpia e Ghent florescem com o crescimento da tecnologia e a comercialização de serviços. A proximidade do mar e dos portos, também.

Em 1947 mais de 20% da mão-de-obra flamenga estava na agricultura. Hoje, são menos de 3%.

Este poderio económico em relação à Valónia tem vindo a marcar o discurso flamengo e a conquistar terreno na arquitectura do Estado e linguístico.

Actualmente, as exigências dos flamengos vão ao ponto de quererem para si poderes de tributação, de segurança social e de justiça, competências que ainda se encontram no Estado Federal.

Se tal lhes for entregue...o Estado belga será enterrado.

Depois, bem, depois, temos a tradição político-ideológica.

Os democratas-cristãos dominam a politica flamenga; os socialistas continuam a "tronar" na Valónia, e os liberais são proeminentes em Bruxelles.

Os francófonos sofreram, no domínio do simbólico, uma tremenda derrota quando em finais de 60 foram corridos da Universidade de Lovaina, sedeada dentro do Vlaams-Brabant aos gritos dos estudantes flamengos «Walen buiten!» (Fora com os valões!).

Os valões "refugiaram-se" então num novo campus, construído no Brabante-Valónia, hoje Louvain-la-Neuve.

Isto significou um prejuízo cultural para uma das mais prestigiadas e antigas Universidades europeias, pois dividiram bens, património e acervo documental e diplomático...

Os flamengos, no plano do simbólico, têm, também, um tremendo capital de queixa.

Ainda hoje comemoram, no dia 29 de Agosto, em Diksmuide, na Flandres Ocidental, para celebrar os mortos flamengos na 1ª Guerra Mundial, que combatiam sob as ordens de oficiais francófonas cujas ordens não conseguiam perceber. Na torre memorial que aí encontrámos pode ler-se a inscrição:«Alles voor Vlaanderen-Vlaanderen voor Kristus».

Todo um programa nacionalista que aqui se inscreveu:«Todos pela Flandres-Todos por Cristo».

O feriado nacional belga é no dia 21 de Julho, que comemora a subida ao trono de Leopoldo I, em 1831.

Os flamengos preferem comemorar o 11 de Julho, decidido pelas autoridades da Flandres em 1973, para celebrarem as vitórias das cidades flamengas sobre Filipe, o Belo, na Batalha das Esporas Douradas (Kortijk) em 1302.

As concessões feitas aos flamengos criou um sistema deveras complexo, pois que tudo tem de respeitar o "equilíbrio" linguístico e das diferentes comunidades, em todo o território, e em todas as províncias.

Os exemplos do despesismo a que isto obriga é quase surreal.

Um comboio que atravessa a Bélgica, em cada território linguístico tem de "mudar" toda a informação que transporta e, quando chega a Bruxelles, tem de se "exprimir" nas duas línguas.

Complicado? Nem por isso. Desperdício, isso, sim.

O preço que tem vindo a ser pago para aplacar os separatistas e federalistas linguisticos e regionais é muito elevado.

Não é por acaso que a Bélgica, no concerto das Nações da Europa Ocidental é o país que tem a divida pública mais elevada em relação ao produto interno bruto.

Isto permite uma corrupção generalizada.

Baudelaire dizia: "La Bélgique est sans vie, mais non sans corruption."

O célebre processo  da compra de 46 helis à empresa Agusta, italiana e o contrato celebrado com a francesa Dassault, para reparar os F16 da FA belga deu um sururu dos antigos.

No concurso para ambas as situações TODOS os outros concorrentes foram excluídos.

O Partido Socialista estava então no governo em 1988.

Vários dirigentes seus estavam comprometidos em subornos até à medula. Fala-se que terão recebido cerca de 50 milhões de francos só para dar inicio ao negócio Agusta...

As consequências foram devastadoras.

André Cools, dirigente da ala esquerda do PSB, foi encontrado morto num parque de estacionamento em Liége, em 1991...por que sabia demais.

Étienne Mange, dirigente do PSB, foi preso em 1995 e, em 1998 o próprio Willy Claes foi acusado e condenado por aceitar subornos.

Em 1995 Jacques Lefebvre, um antigo general do exército, muito envolvido no caso, morreu em circunstâncias misteriosas.

Este caso revelou a promiscuidade entre politicos, governo, negócios, corrupção e crime organizado.

Isto já vinha a manifestar-se nas décadas de 80 e 90, com uma série de assassinatos e raptos.

Sobreveio então, em finais dos anos 90, o dantesco e sórdido processo de Marc Dutroux, figura que se encontrava no centro de uma rede de pedofilia internacional e que se dedicava ao "tráfico de escravos brancos", capturando jovens dos dois sexos para satisfazer uma clientela poderosa, na Bélgica e nos estrangeiro.

Este processo revelou o estado em que o Estado belga se encontrava.

Os aparelhos policiais e da judicatura minados, enfraquecidos e podres.

O envolvimento dos Partidos, do Governo e da própria Igreja Católica...notório.

O caso Dutroux é significativo a vários títulos.

Por exemplo, o Procurador do Ministério Público de Liége, que já chefiara a investigação do assassinato de André Cools, com a titulatura da investigação dos crimes deste monstro, apareceu, misteriosamente, morto...vitima de suicídio.

Este caldo levou a uma perda de prestigio dos partidos clássicos, socialistas e democratas-cristãos e à subida dos liberais e dos regionalistas.

Citemos o historiador Tony Judt:"A Bélgica hoje mantém-se unida por pouco mais do que o rei, a moeda, a dívida pública - e um opressivo sentimento geral de que as coisas não podem continuar com até aqui. (...)Se a Bélgica desaparecesse, é possível que muitos belgas nem reparassem. (...) Até o sistema de transportes tem uma característica  curiosamente descentrada e envergonhada. Importante entroncamento da rede transeuropeia, Bruxelles tem três estações ferroviárias; mas nenhuma delas é um terminal - os comboios para Bruxelles  passam pelas três estações. A «Estação Central» é sintomaticamente a menor - obscura, disforme, enterrada no subsolo por baixo de um monte de betão. Tais estações, tal cidade."

Mas o historiador deixa uma espécie de prognóstico para o futuro, que se está a revelar muito certeiro.

Ouçam-no: "No dealbar do século XXI, e numa época de incerteza em que emprego, segurança, e o núcleo cívico e cultural das nações serão expostos a pressões inéditas e não reguladas, que transcendem o controlo local, a vantagem penderá seguramente para os países com governos que possam proporcionar algumas garantias de protecção e um sentido de coesão e objectivos comuns compatíveis com a preservação das liberdades civis e políticas. Portanto, a Bélgica importa, e não só para os belgas. Longe de ser um modelo, pode ser um aviso: todos sabemos, no final do século XX, que se pode ter Estado a mais. Mas talvez a Bélgica seja uma lembrança útil de que também se pode ter a menos."

Nada mais importa dizer.

Foto - "Bandeira" da Flandres.


publicado por weber às 12:00
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