Quinta-feira, 3 de Março de 2011

Ontem, José Sócrates jantou com Angela Merkel

 

Muito, e muita gente, têm escrito, dito e tresdito sobre o significado e os "resultados" deste jantar.

Muitas vezes o óbvio, o que está em frente do nosso nariz é o mais difícil a entender e de descodificar.

A aventura da "construção" da Europa começou em cima dos cadáveres e dos destroços provocados pela 2-ª guerra mundial.

Os pais fundadores, Robert Schuman, Adenauer, Paul Henri Spaak, Jean Monnet, nomeadamente, começaram com a CECA, que evoluiu para CEE e desaguou na actual UE, com países improváveis no inicio desta construção, os anteriores membros da "cortina de ferro".

Veja-se a noticia sobre a união europeia na wikipédia, que nos dá os momentos chave do processo europeu.

Esta realização é, do meu ponto de vista, uma pequena maravilha da politica da Europa herdeira das civilizações grega, romana, dos bárbaros, dos judeus, dos árabes, do império otomano e devedora do latim e do cristianismo que se disseminou por toda ela a partir do século III e culminou no século V/VI.

No seu caldo cultural, linguístico e identitário, além das geografias, a Europa tinha "todas" as condições para ser o que é, na actualidade uma União Europeia. Há 66 anos que não temos uma guerra generalizada. Lidamos mal com a implosão da Jugoslávia, mas não estamos a lidar mal com a implosão do comunismo europeu.

A espuma dos dias fala-nos de uma globalização desenfreada, que nos atacou, de modo sistémico o sistema financeiro, que nos empurrou para patamares de "riqueza" fictícia, volátil. Deixamos que a produção de bens transaccionáveis fossem, quase todos, para o extremo-oriente, para a américa-latina, as matérias-primas estão fora da Europa (exceptuando um ou outro produtor de petróleo no mar do norte...) o que nos aguçou a voracidade financeira.

Esta história é conhecida.

Estamos, como disse ontem o nosso primeiro-ministro perante uma crise sistémica e, acrescento eu, de sistema, que é preciso controlar...para sairmos mais fortes como União, hoje económica, politica e monetária.

Aqui é que bate o ponto.

Os comunistas, os esquerdistas, os conservadores nacionalistas, andam a tentar cavalgar esta crise, para colocarem a UE em cheque, para a questionar. Já há quem fale em acabar com o Euro, em sairmos da zona Euro!...

Esta gentinha, como os miúdos pequenos, que cavalgam cavalos de madeira, e querem voltar à barriga da mãe, só dizem insanidades.

A UE ou se aperfeiçoa, reforça e se defende, ou teremos, ao invés, não uma crise passageira, mas uma catástrofe de dimensões que não se consegue imaginar.

Este arrazoado todo a pretexto do jantar de Merkel e Sócrates?

Sim. Claro que sim.

Porquê?

Simples.

A locomotiva da construção europeia, desde os primórdios da CECA, a França e a Alemanha, fautora e perdedora da guerra mundial. Estranho? Nem por isso.

Hoje, a saída da crise passa por todos os países, por cada um de per si, mas passa pela Alemanha, França e Inglaterra.

Se um qualquer destes três países se "desligar", se "afastar" da defesa da UE, do Euro..."morremos" todos. E, como já disse uma vez Paul Valery "agora sabemos que as civilizações também morrem".

Quem se instalou na chicana a pretexto do jantar de Sócrates com a chancelerina Angela Merkel deveria ser obrigado a uma penitência: ler 100 vezes o Tratado de Lisboa, que é a coisa mais indigesta, que alguma vez eu tive de ler.

O Expresso, edição comemorativa das suas 2 000 edições trouxe dados relevantes.

Vejam apenas estes.

Em 1973 o número de visitantes de museu, por mil habitantes, era de 323,3; hoje, é de 897,7.

Em 1975, nas primeiras eleições livres, a abstenção foi de 8,34%; nas últimas, presidenciais, a abstenção foi de 53,48%

Em 1973, em Euros, o valor do PIB per capita era de 2 051; hoje é de 17 141.

Em 1973, a população activa era de 3 910 100; hoje é de 5 582 700.

Em 1973, o número de veículos automóveis, ligeiros e pesados, era de 766 000; hoje é de 5 809 500.

Em 1973 o número de horas de emissões televisivas era de 7 170; hoje é de 151 655.

Em 1973 o número de militares era de 236 455; hoje é de 41 592.

Em 1973 a taxa de analfabetismo era de 21%; hoje está abaixo dos 9%.

Em 1973 o número de estudantes no ensino superior era de 58 605; hoje é de 383 627.

Isto são só alguns indicadores de desenvolvimento.

É assim uma espécie de esqueleto, de radiografia. Faltam as carnes, a chicha, para termos o "corpus" portucalenses em 3D.

Mas estes chegam e sobram para percebermos duas coisas.

A democracia, as liberdades, assim como a adesão à CEE, hoje UE, foram coisas boas, que nos aconteceram, como portugueses e a Portugal.

E era, pois, esta tese, que vem em lugar de síntese, que eu quis demonstrar.

E demonstrado está.

Foto de Robert Schuman, co-fundador da CECA, nascido no Luxemburgo, fez os seus estudos superiores de direito na Alemanha e teve uma carreira politica brilhante em França.


publicado por weber às 15:23
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