Quarta-feira, 5 de Janeiro de 2011

"O Estado sem Estado: O porquê da importância da Bélgica" I

Este é o titulo de um artigo do historiador Tony Judt, publicado em 1999 na New York Review of Books e recolhido agora na antologia  "O século XX esquecido" publicado pelas Edições 70 em 2010.

Em tempos discuti com o jornalista Pedro Correia a pretexto de um incompetente texto que aquele tinha bolçado no blog "corta fitas".

A leitura deste artigo rigoroso e competente de Judt, veio colocar a Bélgica no seu contexto rigoroso e na sua importância mais do que relativo, no concerto dos muitos desafios que a Europa enfrenta, actualmente.

Copiando o historiador:"Fala-se mal da Bélgica. Pequeno país, do tamanho de Gales, com uma população de apenas dez milhões de habitantes, raramente atrai a atenção do estrangeiro; quando o faz, o sentimento que desperta é geralmente desdém, por vezes aversão."

Baudelaire dedicou 152 páginas nas suas Obras Completas em meditações mal humoradas sobre este país e sobre os seus habitantes.

Vivi seis anos na Bélgica. Dos anos mais exaltantes da minha existência. Tenho imensas saudades daquela terra e das suas gentes. Tive muitos amigos, algumas amantes e sempre me trataram com deferência. Lá conheci gente muito boa e seres desprezíveis. Tal facto não tem nada que ver com nacionalidades, mas sim com individualidades.

Contudo o historiador destaca uma qualidade emergente deste país: (...)"o exemplo que o país pode fornecer dos actuais perigos que por toda a parte enfrentam os Estados."

Refere ele, que na década de 90 do século passado aquele país foi varrido por escândalos monstruosos:o envenamento maciço da cadeia alimentar pela dispersão de dioxinas na alimentação de galinhas e porcos;mas, antes deste, tinha sido vergastada pela lavagem de dinheiro em grande escala, corrupção e subornos no vértice do poder, assassínios políticos, raptos, pedofilia, homicídio de crianças, incompetência policial, e corrupção administrativa generalizada.

Diz o historiador: "Tudo isto aconteceu numa região minúscula, próspera, do Noroeste europeu, cuja capital é também o quartel-general da «Europa». Mas metade da população do país, os flamengos de língua neerlandesa, dividiram-no até à sua quase extinção (...);não surpreende ter-se já sugerido que a Bélgica faria melhor em dissipar-se. Será que teria importância? Quem se preocuparia?"

O país nasceu em 1831 com o apoio da França, da Inglaterra e da Prússia. Com o quadro actual, poderíamos dizer que o trio condutor da UE (UK, França e Alemanha) são os pais deste pequeno país.

Sublinha o historiador, e acertadamente:"A partir do século XIII, as vilas flamengas haviam-se unido para combater as pretensões fiscais e territoriais de fidalgos, reis e imperadores. Mesmo hoje a Bélgica é o único país da Europa onde a identificação com a localidade mais próxima supera a pertença regional ou nacional na imaginação popular."

Isto é válido para a Flandres... como para a Valónia.

O então primeiro-ministro belga, Guy Verhofstadt, em medos dos anos 80, terá afirmado: "A Bélgica é pouco mais do que uma cleptocracia partidária."

A Bélgica actual foi desenhada a partir da falha linguística. No Norte do país (a «Flandres», que integra Antuérpia, o Limburgo, parte do Brabante e ainda a região à volta de Bruxelles) fala-se o neerlandês; e o francês é falado na metade sul (a «Valónia», que se estende do Hainaut a oeste, até ao Luxemburgo, a leste).

Bruxelles é "bilingue", mas em boa verdade corresponde a um enclave francófono no sector de língua neerlandesa.

Hoje, essas divisões são imutáveis, e correspondem a uma antiga linha divisória de comunidades que ficaram sobre domínio francês ou holandês.

O dominio do francês, da lingua, faz-se por via da corte e das élites da monarquia dos Habsburgos no século XVIII. Este processo sedimenta-se nas investidas napoleónicas.

Ela tem terreno fértil no seio dos flamengos por via da religião. Os católicos flamengos desconfiavam dos protestantes holandeses, mau grado a "língua" comum. Por isso, também, acolhem razoavelmente a ideia de uma Estado independente.

A francofonia vai dominar o novel Estado, por via da língua, mas sobretudo por intermédio da liderança industrial, sustentada pelo carvão e pelas industrias textéis, industrias estas, todas, sedeadas na Valónia.

O francês não era imposto pelo direito, mas era a língua do Estado, do direito e da judicatura.

Naturalmente, que os flamengos se sentiam em desvantagem. Os ressentimentos destes decorrem do estatuto da sua "língua" e do proteccionismo económico que o estado outorgava à Valónia.

Entretanto o estatuto de cidadania do "flamengo" vai fazendo o seu caminho. Em 1913 o neerlandês é aprovado para uso nas escolas e na administração da Flandres. Em 1932 é a única língua a ser utilizada nas escolas flamengas.

Contudo pesa um estigma sobre os flamengos.

Sempre tentaram, na 1.ª como na 2ª Guerra Mundial, alavancar a sua autonomia aquando das ocupações alemãs. Das duas vezes a derrota germânica fê-los recuar.

 

(...)continua.

 

Foto - "Bandeira" da Valónia.


publicado por weber às 14:52
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