Sábado, 5 de Fevereiro de 2011

Da traição

O Houaiss, referência e paradigma da lexografia portuguesa, diz várias coisas sobre este espantoso étimo: traição.

A mim interessa-me, para o enfoque que escolhi, este:Etim.lat. traditio, ônis 'acção de dar, de entregar; entrega, traição.

Nas relações interpessoais, no comércio amoroso, nas plataformas empresariais, nos projectos culturais, artísticos ou nos negócios, este sentido que se atribui a traição tem múltiplas facetas e podia ser ilustrado com milhões de casos.

Na politica, no sentido da militância partidária, dos sistemas de alianças que se estabelecem entre camaradas para obter determinado objectivo, a traição nesta acepção, também pode ser ilustrada por milhões de exemplos.

Há gente, sobretudo juvenis epígonos, que sustentam sem pestanejar: "em politica não há amigos, nem amizades."

Admito, com alguma repugnância, mas aceito-o, que em politica é necessário ser-se frio nas análises, não confundir análise politica com afectos da ordem da amizade, ou, mesmo e até...

Passemos adiante.

O que não é de todo entendível, menos ainda aceitável é a traição, a entrega, o entregar o amigo...para obter vantagens junto de quem se entrega.

O exercício da politica é livre e feito por homens e mulheres livres.

Em democracia é assim.

Na nossa deve ser assim.

As circunstâncias são mutáveis.

As respostas e as posições devem acolher essa volatilidade. Admito-o.

O poder é, sempre, o exercício de uma delegação e é efémero.

Muitas vezes tem prazo de validade: por que não nos podemos recandidatar ou porque o eleitor não nos deu mandato para o exercer.

De uma e outra situação devemos inferir ilações.

Os processos, em politica, são dinâmicos e mutantes.

Ontem, eramos visitas do principe. Hoje, nem nos atende o telefone.

Há dois meses tínhamos poder para fazer e desfazer, hoje temos de pedir por favor para...dizer meia palavra.

Ontem, Manuel Alegre era putativo "Presidente da República" de quem todos os jornalistas queriam saber a opinião sobre a divida soberana.

Hoje, o poeta de Águeda deve estar a escrever...poemas.

É a vida.

Mas, em politica, não pode valer tudo.

Eu emito uma opinião, numa roda restrita. Tecemos várias considerações e elaboramos diversas especulações. No dia a seguir, um dos circunstantes, "entrega-nos" a quem pode interessar estas nossas divagações.

Menoridade. Falta de grandeza.

Pior. O putativo interessado a quem, aparentemente, interessava a traição, decide, em público confrontar os circunstantes (menos o traidor que não estava...) com o que na conversa se tinha vertido...

Os traidores não prestam e, como diziam os antigos: "Roma não paga aos traidores."*

Quem, na vida, na politica, nos negócios, não perceber isto...está morto.

*«... o herói lusitano Viriato colocou em grandes apuros os soldados romanos destinados à península ibérica, graças à sua táctica de guerrilha e de emboscadas.
Em 139 a.C., quis negociar a paz para a região e enviou três dos seus homens de maior confiança (Aulaco, Ditalco e Miminuro) para a negociar com o cônsul romano.
Este não só recusou a proposta como convenceu os três homens a matarem o seu líder em troco de uma substanciosa recompensa.
O trio aceitou e assassinou o líder lusitano.
Quando os três homens regressaram para cobrar a recompensa prometida, receberam como resposta «Roma não paga a traidores». Foram imediatamente executados

Quadro com a morte de César, no Senado, às mãos de Brutus e dos seus cúmplices.


publicado por weber às 10:59
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