Segunda-feira, 26 de Setembro de 2011

Touros

Não sou apologista, nem de touradas, nem de touros.

Vi uma única vez uma tourada. Em Montijo. Tiveram a "amabilidade" de me meter atrás das trincheiras, junto ao Grupo de Forcados do Aposento da Moita. O que se pode ver daquele lugar, quase à lupa, é chocante.

Os bandarilheiros, a preparem o toiro para a lide do "diestro", do "matador", do "toureiro", espetando com "valentia" os ferros das bandarilhas adornadas de enfeites, no cachaço da besta e o sangue a espichar aos borbotões...inconveniente.

E nem me vou meter pelas teses da ética de Singer e dos animais, sofrentes, entendidos como "persona".

Foi a única vez que pisei aqueles tablados.

Bom, mas nem queria falar desta minha experiência pessoal.

Queria partilhar uma "coisa" que roubei ao Val, no seu "Aspirina B".

Como por aqui se sabe, sou adicto daquele blog e deste escritor, em particular, mesmo quando dele discordo.

Hoje, como todos os dias o faço, qual religião militante, lá fui e encontrei esta pérola do príncipe da crónica jornalística, já falecido, Victor Cunha Rego.

E que pode saborear já:

"O que é tourear?

Na modorra do meio da tarde, numa fazenda do interior, um amigo desperta de sua vaga sonolência e pergunta-me o que significa tourear. Sei que a pergunta implica um desafio porque para ele uma corrida de touros se resume à morte de quem não devia morrer e à luta desigual de um homem devidamente preparado contra um animal indefeso. Meu primeiro impulso é de desânimo: há coisas que não se pode e nem devem explicar a quem não compreende logo de entrada. Uma corrida de touro não se explica, sentimo-la ou não. Explicá-la é cometer uma heresia. Além disso como será possível condensar numa frase, toda a psicologia do povo mais difícil do Ocidente, o povo espanhol? Como será possível explicar a necessidade que atrai o homem para a gratuidade da aventura? (…) Ao procurar falar muito e claro, dei por mim balbuciando timidamente e perguntando a mim mesmo: O que é tourear?O que é tourear? Pepe Hillo escreveu, ou mandou que escrevessem, a primeira “Tauromaquia ou Arte de Tourear” em que expunha todos os seus pensamentos fundados na “sábia experiência que é a mãe legítima dos conhecimentos”. Um touro matou-o. Joselito não escreveu nada mas toureava sem esquecer uma única das regras tauromáquicas: sabia não só o que ia fazer mas como iriam reagir os touros. Joselito teve como talvez nenhum outro toureiro a noção do seu terreno e a noção do terreno do inimigo. Um touro matou-o. Pepe Hillo, o da sábia experiência, e Joselito “O Sábio”, que toureavam sem enganos, ambos mortos nas hastes de touros! E o Manolete, “O Monstro de Cordoba”, o sábio do post-guerra, não diziam que jamais morreria tal o seu conhecimento das regras e das reses? E Juan Belmonte? Quando apareceu diziam os sevilhanos: “Você viu o Belmonte? Não? Pois apresse-se que, da forma como toureia, não vai viver muito”. Juan Belmonte ainda vive nos dias que correm.(…) Mas o que é tourear? O toureio tem a sua explicação matemática no movimento geométrico de uma linha vertical, que é o homem, e de uma linha horizontal, que é o touro. Enquanto a linha vertical usufrui da vantagem de girar sobre si mesma, sobre o mesmo ponto de apoio, a horizontal é obrigada a deslocar-se com maior ou menos amplidão. A possibilidade de tourear reside exatamente na forma como for aproveitando esse tempo que o touro leva a investir contra o homem, e depois, a voltar-se para carregar todo de novo. Todas as outras regras falharão se esta não for levada em conta. (…) olhar para um touro e saber qual a sua bravura, qual o seu poder, qual a sua rapidez, para que lado investe melhor e como investe; depois saber o que fazer com ele. Muito simples. (…) O que é tourear? A lide de um touro começa no momento em que ele entra na arena; a sorte de matar principia no primeiro lanço de capote. Ver como um toureiro, que é um homem, se comporta em face destes dois postulados. Pode dar ao espectador momentos de altíssima alegria ou de raivoso desapontamento, mas nunca deixará de comovê-lo. O toureiro a pisar uma praça de touros tem de dominar dois inimigos: o medo e o touro. O primeiro é bem mais importante que o segundo. (…) Por que Bombila no ocaso de sua carreira nunca recusou o risco de competir com Joselito, jovem naquela época? Por que Guerrita nunca voltou a cara a Espartero ou a Reverte? Por que Manolete, naquela tarde em Liñares, foi morrer na cabeça de um touro? Não o havia avisado o seu peão de confiança que o inimigo investia mal daquele lado? E quem respondeu: “Yo lo sé, pero hay que matarlo”? (…) Gregorio Corrochano, um dos mayores críticos de touros vivos, escreveu um livro admirável em cujo último capítulo se podem ler as seguintes palavras: “O que é tourear? Eu não sei. Acreditava que Joselito soubesse e vi como foi morto por um touro”.(…) O que é tourear?"

Quadro: "A morte do toureiro", de Pablo Picasso

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publicado por weber às 10:45
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