Segunda-feira, 29 de Novembro de 2010

A crise era prevísivel?

 

Era e foi.

Um economista canadiano e um colega seu alertaram, faz muito tempo, o então presidente da FED americana, o insondável Greenspan.

Pessoa amiga enviou-me esta interessante entrevista dada aquando uma conferência que veio fazer ao BCE.

Impressionante:

«William White 
"Todos os desequilíbrios que levaram à crise mantêm-se" 
 
William White, ex-economista-chefe do BIS, atreveu-se a desafiar Greenspan e avisou para os riscos que corria. Foi ouvido quando já era tarde demais.
Um sistema financeiro "inerentemente pró-ciclico" que promove bolhas de crédito. Este tipo de desequilíbrios deve ser monitorizado "através da análise dos crescimentos do crédito e dos preços dos activos", sendo recomendável que "as taxas de juro subam quando a expansão de crédito cresce demasiado depressa, e que os bancos sejam forçados a criar almofadas financeiras maiores nos tempos de crescimento".

Face aos riscos que se estão a acumular, "se o pior cenário se materializar, os bancos centrais terão de trazer as taxas de juro para zero e recorrer a medidas menos convencionais, cuja eficácia é menos certa". "Nesse caso, os mercados poderão entrar em stress e a liquidez desaparecer" dos mercados.

Esta não é uma lição sobre a actual crise. São excertos da intervenção de William White e Claudio Borio na importante conferência anual de Jackson Hole nos EUA, em 2003. Tratou-se de uma tentativa derradeira dos dois economistas do Banco de Pagamentos Internacionais (BIS) para convencerem Alan Greenspan dos erros que estava a cometer, e dos riscos em que incorria por manter as taxas de juro demasiado baixas.

"O maestro", que poucos ousavam desafiar, muito menos publicamente e no circuito dos banqueiros centrais, limitou-se a comentar: "nunca houve uma situação, de que eu tenha conhecimento, de que [actuar preventivamente] tenha tido sucesso". White continuou os seus avisos nos anos seguintes, até que, em 2007, tudo rebentou. Na semana passada esteve em Frankfurt, na conferência bianual organizada pelo BCE, para debater política monetária: continua a avisar para o excesso de optimismo dos banqueiros. Na entrevista publicada hoje, (25 de Novembro de 2010), na edição em papel explica porquê.

 

Os decisores de política e os banqueiros centrais estão demasiado optimistas face a estes riscos?

 

Não tenho a certeza de que os decisores de política e os analistas de mercado estejam a dar a atenção devida ao lado real da economia Por exemplo, a taxa de poupança das famílias nos EUA subiu nos últimos anos, mas não muito - quando comparada com crises anteriores ou com o nível de riqueza que foi destruído.

 

Que outros desequilíbrios permanecem?

 

Na China por exemplo, o investimento está a disparar, e já equivale a 50% do PIB. Nunca vimos nada como isto fora da União Soviética.

 

Diria que os desequilíbrios que conduziram à crise ainda se mantêm?

 

Absolutamente. As pessoas que apontam para os sinais de recuperação, particularmente nos mercados emergentes, estão a ser demasiado optimistas. Eu diria que todos os desequilíbrios que caracterizaram o início da crise, e que levaram a ela, ainda estão aí. As taxas de poupança das famílias continuam muito baixas nos países onde eram baixas; as taxas de investimento na China estão demasiado elevadas, os preços dos activos estão muito elevados, nas obrigações os "spreads" estão muito baixos.

 

É cedo para declarar vitória?

 

Sem dúvida E usar mais e mais estímulos macro, particularmente os estímulos monetários, quando foi o excesso de crédito e alavancagem que nos colocou neste problema, é de duvidar. Os estímulos macroeconómicos, claramente, atingiram o limite da sua utilidade. Temos de pôr muito mais ênfase em duas coisas: reformas que melhorem o funcionamento da economia e promovam o crescimento; e reduções de divida. Há muitas dificuldades políticas e legais neste campo, mas a redução de divida dos que estão soterrados em endividamento deveria receber mais atenção.Fala em redução de dívida, nomeadamente para as famílias nos EUA, mas na Zona Euro a questão no momento é a redução de dívida dos próprios Estados.

 

Acha que uma redução de divida é inevitável em alguns países?

 

Não tenho a certeza de que o excesso de endividamento na Europa seja grande o suficiente para que uma reestruturação faça uma diferença significativa para a comunidade.Que balanço faz dos últimos dois anos?Já se fez muito. Por exemplo, toda a gente já comprou a história que eu e o Cláudio defendemos durante anos, e que levava o crédito e os riscos para a economia de forma séria

 

Quão preocupante é a actual descoordenação internacional?

 

Teme uma guerra cambial ou proteccionismo?O problema fundamental é que as economias emergentes deveriam ter moedas mais fortes. Ou seja, os países credores deveriam ter moedas mais fortes face aos devedores: essa é parte essencial do ajustamento global. Se não tivermos isso, então o ajustamento terá lugar de formas muito menos agradáveis.

 

E como?

 

Em lugares como a China, que estão importar a política monetária norte-americana eles acabarão com mais inflação, mais desequilíbrios, e bolhas especulativas em vários activos. Nos EUA será um processo de estagnação contínua pois as forças domésticas de crescimento não estarão lá. Não haverá investimento, nem consumo interno suficiente.

 

Podemos chegar ao proteccionismo?

 

Será muito provável se não houver um ajustamento adequado.

 

Isso prejudicará toda a gente.Como avalia a política norte-americana de compra de activos ("quantitative easing")?

 

Não sou um crítico do ponto de vista interno dos EUA Mas alguém deveria estar a pensar acerca das consequências sobre o dólar quando se faz este tipo de operações. Por outro lado, dada a falta de vontade dos chineses de deixarem a sua moeda apreciar, a queda do dólar faz com que outros países e regiões, como a Zona Euro, venham a sofrer. Finalmente há um outro ponto que me parece importante: as taxas de juro muito baixas, ou o "quantitative easing", não são um almoço grátis.

 

Como assim?

 

Há todo um conjunto de danos colaterais associados, como bolhas especulativas noutras partes do mundo: por exemplo que os preços das casas em todas as economias avançadas que não têm problemas no sistema bancário estejam em níveis recorde e continuem a crescer.

 

Podemos estar a alimentar um "crash" imobiliário em economias poupadas nesta crise?

 

Sim. O fenómeno é generalizado: Nova Zelândia, Austrália Canadá, Noruega, Suécia. Alguém citou, na conferência, Donald Rumsfeld sobre os riscos que nascem das coisas que não sabemos que não sabemos.

 

Como explica a cegueira dos últimos dez anos relativamente aos riscos que se estavam a formar?

 

A citação de Rumsfeld é verdade: as coisas que não sabemos, não sabemos. Isso é o que chamo de erro tipo I. O erro tipo II, que é muito diferente, é mais associado a Mark Twain: o que nos apanha não são as coisas que não sabemos mas, sim, as coisas de que temos a certeza, e que não são verdade. Penso que na crise as pessoas não olharam para variáveis que não se conheciam porque achavam que sabiam tudo o que havia para saber. Tratou-se de uma arrogância intelectual e ideológica E talvez seja ainda mais fundo: desde o início dos tempos, a tendência para extrapolar os bons momentos fez parte da natureza humana. E com isso que temos de lidar.

 


Ainda há muita confusão com regras para banca. Avisa que "se se der um centímetro ao sistema financeiro, eles tentarão levar um quilómetro". O que deve ser feito para controlar o sistema financeiro e qual a avaliação que faz das regras de Basileia III?

 

As novas regras são úteis. Os reguladores estão a pedir mais e melhor capital, por melhor gestão de liquidez e de risco. Tudo isso é bom. O que é menos bom, mas talvez ainda se possa melhorar, é a parte relativa às almofadas de capital contracíclicas que se mantém um pouco confusa. Ainda mais confuso está a parte que lida com as instituições com importância sistémica e como minimizar esse risco.

 

Acha que não deveria haver uma lista das instituições com importância sistémica?

 

Não creio que devamos ter uma lista de bancos com importância sistémica. O que deveríamos ter é uma medida da contribuição que os diferentes bancos dão para a vulnerabilidade sistémico do sistema, e não uma lista finita de bancos. Com base nesse medida, seria pedido mais capital às instituições que dão uma contribuição maior para o risco do sistema. Creio que também seria importante avançar com rácios de alavancagem não ponderados pelo risco. Os suíços avançaram com essa ideia e creio que ela deveria ser considerada.

 

Como é que os bancos centrais dependem tanto das agências de "rating" na sua gestão de risco?

 

Há uns dias, Sheila Bair, a presidente da FDIC [agência federal de seguros de depósitos nos EUA], tocou nesse ponto de forma que me parece acertada: se não houvessem as "agência de rating", como é que os pequenos investidores conseguiriam ter acesso a avaliações de risco de todas as empresas e soberanos?

 

A minha questão é porque é que os bancos centrais dependem tanto das agências para medir risco, por exemplo nos rácios de capital?

 

Penso que as agências de "rating" estão a ser criticadas em excesso. Se olharmos para o seu desempenho histórico os "ratings" não são maus. O que fizeram foi um erro calamitoso nestes produtos estruturados: aí colocaram em sérias duvidas a sua reputação; a moralidade do que fizeram é questionável, dada a forma como as comissões estavam estruturadas; mas, mais importante, parece-me que a avaliação de risco destes produtos é estatisticamente impossível de fazer.

 

Defende que a a estabilidade financeira e a estabilidade de preços são as duas faces da mesma moeda. A Fed terá a monitorização da estabilidade financeira na sua alçada, o BCE não, apenas contribuiu para o conselho europeu de risco sistémica.  Qual o modelo mais apropriado?

 

Não há dúvida de que a estabilidade financeira tem que estar mais integrada nos bancos centrais. Quanto ao modelo, a separação por que optou a Europa, pode ser mais apropriada: é que ao ter tudo sob a mesma responsabilidade, significa que quando houver um erro num dos lados, ele poderá contaminar o outro lado. O essencial será sempre que a decisão e a comunicação seja altamente articulada.

 
PERFIL: QUATRO DÉCADAS EM BANCOS CENTRAIS William White é conhecido como o homem dentro do sistema internacional de bancos centrais que previu a crise antes de ela acontecer, mas que ninguém quis ouvir. Canadiano, com 67 anos, White começou a sua carreira na banca central, quando tinha 26 anos, no Banco de Inglaterra, e manteve-a durante 39 anos, passando pelo banco do Canadá e chegando ao Banco de Pagamentos Internacionais (BIS) em 1994. Quatro anos depois era conselheiro e economista-chefe da instituição, acabando por se reformar em 2008, um ano após o início da crise para que tantas vezes avisou. White integra agora o comité que avalia as políticas económicas dos países membros da OCDE.

Rui Peres Jorge, Jornal de Negócios »
 


publicado por weber às 12:00
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