Segunda-feira, 13 de Dezembro de 2010

Prenda I

No sábado, que passou, recebi várias prendas.

Não gosto de prendas consumistas, que revelam o "bonzismo" natalício, mas comovo-me com os ditames da amizade.

Esta, que convosco partilho, foi-me ofertada por amigo do peito, irmão em muitos lances da minha vida, poeta de rara acuidade.

 

«Quando o Natal chegar...

 

Quando o Natal chegar

liberta o pirilampo e liberta a luz

arruma a ternura e arruma a casa.

E areja o sótão da tua infância.

Quando o Natal chegar

dá música aos surdos

e palavra aos mudos

afaga laranjas nas mãos frias

e figos secos ao luar

e amêndoas de Agosto a quem chegar

e limões, e ácidos limões, em teu lugar.

 

Quando o Natal chegar

à beira do rio olha a outra margem

cheia de sombras, pedras e perdas

e abre os braços, colunas e pontes

e começa a tocar a alma qual piano

na translúcida mágoa de nada tocar.

 

Quando o Natal chegar

Jesus já passou sem passar

na barca do tempo, entre margens

sem rio, mas à beira de naufragar.

Quando o Natal chegar

não leves granadas para casa

nem bombas para qualquer lugar.

Caça pombas ao anoitecer, morcegos

da tristeza e olhares cegos de vazios.

 

Quando o Natal chegar

olha os filhos como se só então nascessem

e os dias fossem cristais

partindo grãos de romã,

tão sensíveis ao ouvido

mas sem pena nem sentido.

 

Quando o Natal chegar

adormece à beira dos violinos

com a loucura dos deuses

e a tristeza do Mozart.

Que os deuses devem estar loucos

porque a lareira está-se a apagar.

 

Quando o Natal chegar

cuida das prendas e ofertas

aos que nunca mais vão chegar.

Entre pedras e perdas

guarda o amor de guardar

que a face da mãe ondeia

e o pai adormece a lacrimejar.

 

Quando o Natal chegar

a nordeste de tudo, mais vale

encher o saco de Nada

e percorrer a noite, até ao abrigo

dos campos da quimera calcinada.

Com o saco cheio de Nada

visita o Iraque e o Afeganistão.

Toca às portas da Palestina

e canta dor às portas da prisão.

 

Quando o Natal chegar

enche o saco de Nada.

Pode ser que por tanto Nada

algo te queiram dar:

um filho, um sorriso, talvez luar.

 

Quando o natal chegar

talvez amor e amar.

Dádiva por dádiva,

aceita, é de aceitar.

 

Rogério Rodrigues» 

 


publicado por weber às 11:31
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