Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2012

Um episódio da luta contra o fascismo lusitano

Comemorou-se faz pouco os 50 anos da Revolta de Beja, tentativa malograda de controlar o quartel da cidade de Beja em 1961.

Um movimento civico entendeu por bem reunir os sobreviventes da intentona e convidar dois historiadores para tratarem o episódio.

A professora Irene Pimentel produziu, na ocasião relevante intervenção que, cuidadosamente, publicou no seu blog pessoal e fez link no colectivo "jugular" onde tem presença activa.

Pode ler o texto aqui: no 50º aniversário da revolta de Beja.

Na foto que aqui se publica, da mesa que presidiu ao acontecimento destaca-se, da esquerda para a direita, em segunda lugar o historiador António Louçã e, na mesma ordem, em quarto lugar, Irene Pimentel.

Pela sua importância destaco uma parte, a final, do discurso da Professora, Prémio Pessoa em 2007:

"O papel do PCP

 

A acção revolucionária de Beja teve alguma semelhança com o chamado «golpe da Sé», de 1959, desde logo, devido à participação destacada nas duas operações de Manuel Serra e de alguns dos seus amigos, de alguns católicos, e até sacerdotes, bem como alguns militares. Também não houve, em 1959, a participação do PCP, tal como esta não existiu em Beja, por razões explicáveis, pois não era um tipo de acção que se enquadrasse na estratégia de levantamento nacional. No entanto, em 1961, alguns elementos comunistas tiveram em Beja um papel inicial, mas a nível individual. Segundo o relatório do processo-crime da PIDE, pertenciam ao PCP o empregado fabril Francisco Lobo e o ferroviário Germano Madeira, que se haviam prontificado a colaborar no golpe, embora provavelmente à revelia do seu partido. Segundo o testemunho de alguém próximo do PCP, Manuel Serra teria conseguido a adesão afectiva de comunistas da margem do Sul do Tejo, para o seu «plano de sublevação militar». O respectivo controleiro do PCP ficara de saber a opinião sobre essa participação da parte do CC, cuja resposta taxativa foi a de que este partido não participava «em aventuras, mas a título individual cada qual decide». Depois, ao ser finalmente decidida a data para a eclosão do movimento, «muitos aderentes da primeira tentativa já não alinharam», o que não impediria a repressão da PIDE de se abater sobre cerca de vinte pessoas na Baixa da Banheira, no Barreiro e Alhos Vedros.

 

A repressão

 

Ao todo foram detidas centenas de pessoas, tivessem ou não participado directa ou indirectamente na revolta de Beja e, no final de Junho de 1962, estavam presas perto de uma centena de pessoas, havendo outras que se refugiaram em embaixadas latino-americanas Várias pessoas colaboraram na fuga de outros elementos da «intentona de Beja». Ao contrário do que se passou com outras tentativas de golpe integradas por militares, a PIDE conseguiu que os sublevados de Beja lhes fossem entregues. Para isso, foram expulsos do Exército, por simples decisão administrativa, e como já não eram militares, ficaram “legalmente” debaixo da alçada da PIDE. No julgamento no Tribunal Plenário, que decorreu entre 28 de Janeiro e 29 de Julho de 1964, onde, pela primeira vez foram julgados tanto os civis como os militares, num total de 82 arguidos, 49 foram condenados a pena maior, 16 a prisão correccional e 17 foram absolvidos.Entre as penas mais altas, contaram-se as atribuídas a Manuel Serra, João Varela Gomes, Edmundo Pedro e Eugénio de Oliveira, respectivamente condenado a dez, seis, três anos e oito meses (acrescido de um ano mais) e três anos (aumentados para quatro e meio). O regime português ter-se-á assustado muito com o «golpe de Beja», mas o susto também se espalhou ao governo espanhol, que, seis horas após a operação, ordenou o avanço de tanques espanhóis de Mérida para Badajoz. Por seu lado, a CIA «confirmou que o generalíssimo Francisco Franco planeava invadir Lisboa, Porto e Coimbra, usando a 11ª Divisão do Exército, caso Salazar fosse derrubado pela esquerda».

 

Observações finais

 

Para já tem de se falar do acaso e dos múltiplos factores imponderáveis, que surgem sempre e que podiam ter ocorrido de outra forma: se não tivesse havido desencontros iniciais, se não tivesse havido o desencontro com Humberto Delgado, se o segundo comandante não tivesse estado no quartel, se ele não tivesse disparado e ferido gravemente o capitão Varela Gomes… cá estão muitos «se», que se juntam a muitos outros. De novo, quero lembrar que a posteriori, com todo o conhecimento de todo os dados e sabendo para onde caiu a situação, é fácil enumerar os vários factores que contribuíram para o fracasso da revolta de Beja, desde o facto de a operação ter contado com um diminuto número dos participantes, escassamente preparados e armados, movidos apenas por uma generosidade voluntariosa e desejosa de contribuir para o derrube do regime, Negativa, parece ter sido também a falta de sincronia e de entre civis e militares. Há, no entanto, um factor que hoje me parece relevante: o de que, além das condições objectivas, as chamadas condições subjectivas de uma insurreição popular, em que se verificariam a adesão de outras unidades militares e sobretudo das populações – o que acontece na realidade, em 25 de Abril de 1974, depois de uma vastíssima operação apenas militar – não existiam. O ano de 1961 era de contexto bastante desfavorável para uma revolta de militares, talvez a mais desfavorável desde que Salazar tinha “saneado” e domesticado a instituição militar, em 1937. Lembre-se, por outro lado, que no ano de 1958, das eleições de Delgado, Salazar tinha contado com os tanques militares que saíram à rua para preservar o regime. Mas 1961 – annus horribilis par ao regime – foi de qualquer forma um ano dramático para a oposição ao regime. Lembre-se que, nesse ano de início da guerra em Angola e da perda do Estado da Índia, mesmo os militares descontentes no seio do regime foram derrotados na sequência do golpe palaciano do ministro da Defesa, Júlio Botelho Moniz, em Abril de 1961 e que, devido a essa situação, e à decisão tomada da «ida em força para Angola», Salazar assumiu então essa pasta crucial. Por outro lado, o começo da guerra colonial deu a oportunidade a Salazar de colocar os militares perante a falta de alternativas -servir ou trair a Pátria -, tornando difícil o sucesso de qualquer tentativa revolucionária militar e obrigando a que se esperasse mais 12 anos pela libertação. Além disso, a propaganda do regime – expressa nas manifestações contra o que se tinha passado em Março em Angola, à chegada do navio Santa Maria a Lisboa e a perda do chamado Estado da Índia – estava ao rubro e não deixava de ter alguma eficácia no seio de uma população passiva e amedrontada. Mas, já que falamos em factores subjectivos, quero destacar dois muito importantes, para cujo reforço a revolta de Beja contribuiu a curto, médio e longo prazo.

 

1) - Por um lado, dado que, a par da passividade instilada, o medo espalhado pelo aparelho repressivo salazarista foi muito importante para sua manutenção, um grupo de revolucionários que tudo arriscava para tentar derrubar esse regime, tornava-se uma lição viva de resistência e uma poderosa pedra na engrenagem da Ditadura.

 

2 - Ainda entre os factores subjectivos, deve-se lembrar a importância da revolta de Beja no seio da oposição ao regime ditatorial, mesmo se ela foi à época criticada por grande parte dos outros oposicionistas: contribuiu seguramente para revelar que a PIDE não sabia nem dominava tudo e, mais importante, demonstrou que haveria outras formas e estratégias de actuação para derrubar o regime, que poderiam aliás competir positivamente com as formas tradicionais. Deu assim expressão à vontade que muitos – especialmente mais jovens – tinham de actuar de forma mais radical contra um regime que, como se viu, não terminaria pacificamente."

publicado por weber às 12:50
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