Quinta-feira, 30 de Julho de 2009

Terra Alta

Isto é prosa da boa.

Mesmo muito boa.

Surripiada ao "tempo contado", ao José Rentes de Carvalho, escritor de primeiríssima água.

A gente lê e fica basbaque, cheio de inveja (saudável inveja!) de quem assim tão bem escreve.

"- E isso foi?

- Em 94. Tinha feito uns biscates para a Reuters, e assim sem mais nem menos recebo um convite para uma série de reportagens. Maryland, Maine, New Hampshire… Criadores de cavalos de raça, gente de dinheiro.

Cheguei a Baltimore um domingo de manhã. Dezembro. Neve como nunca tinha visto. Metros. A impressão que me deu foi de uma cidade abandonada. No hotel tinha uma mensagem do fotógrafo. Telefonei. Esperava um gajo e aparece-me uma despachada, eficiente, com tendência a segurar as rédeas, tipo Charlie's Angels. Lembras-te?

- Lembro.

- Erika. Sangue alemão. Boa profissional. Fingia um bocadinho demais de Farrah Fawcett, e o caso é que não simpatizámos. O único ponto de acordo foi que ela conduziria, porque carro sem mudanças não é comigo. Sete da manhã. Levou-nos mais de cinco horas para fazer quase trezentas milhas até … Não vais acreditar!
- Quantos quilómetros?
- Uns quatrocentos e vinte, trinta. Demorou por causa da neve. Mas como ia dizer, não vais acreditar. Está a gente em cascos de rolha nas Américas e chega aonde? A um buraco chamado Terra Alta!
- Portugueses?
- Nem um. Só o raio do nome. Fomos ao senhor dos cavalos, tomei as minhas notas, ela achou que tinha fotografias bastantes e despedimo-nos. Aí começou a encrenca. Um blizzard de meter medo. Furacão. Neve. Escuro como de noite e às tantas a polícia a barrar a estrada. Não sei quanto tempo demorou a encontrarmos um motel. Diz ela assim:
- Enquanto estaciono pergunta se têm dois quartos. Se não tiverem, então um com duas camas. Se for só uma cama durmo eu nela e tu no chão.

Palavras não dissemos muitas e ceamos o que havia: um cartucho de M&Ms, um pacote de bolachas, duas coca-colas.

Às tantas desaparece no banheiro. Sento-me no sofá, mal disposto, a perguntar-me no que estou metido, e dali a pouco aparece com uma tanguinha de nada, soutien, e salta para a cama.

- Apagas a luz?

Apaguei a luz. A ventania era terrível, o pisca-pisca vermelho do anúncio do hotel começava a mexer-me com os nervos. Teria passado uma meia hora vejo-a sentar-se. Tira o soutien e diz toda natural:

- Quando é que te vens deitar?

Durou dois anos. Depois casou e perdemo-nos de vista.

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Uma história mete de tudo: realidade, ficção, pitada disto, dois dedos daquilo. Pode ser contada de muitos modos, ter enredos de sobra. Mas por fim, o que realmente conta é o que o leitor faz com ela. Se der para sonhar, quem a escreveu acha recompensa bastante.
José Rentes de Carvalho."

Foto de Baltimore.

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publicado por weber às 15:42
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