Domingo, 7 de Junho de 2009

Que gostaria de fazer antes de morrer?

A Sofia Loureiro dos Santos, do "Defender o Quadrado", de quem eu aprecio o livre pensamento, a assertividade da escrita, a delicada poesia e a cidadania opinativa, cuidadosa, elegante e de recorte literário, muita das vezes, insuperável, fez-me uma pergunta.

A pergunta é: "Que gostaria de fazer antes de morrer?"

Duas dificuldades, numa só pergunta, é obra!

Defina-se "antes".

Cinco minutos antes do coração parar de bater?

Um ano antes, depois de se ter declarado o cancro maligno e devastador, que  permite preparamo-nos, tomar as disposições, destinar os pertences, organizar a comemoração, ou amesendação do sétimo dia, após o passamento?

Pensar-se que se é "imortal" e tentar ser bondoso, tolerante, solidário, probo, sábio, porque se quer saber cada vez mais, escrever com frontalidade, sem ofender, cultuar, em cada dia, a amizade, sem ter a preocupação, nem da morte, nem do instante, do tal "antes" de morrer?

Esta é, para mim, a maior dificuldade.

Porque, a outra, o poeta, o nosso poeta, o enorme Fernando Pessoa, já a resolveu faz tempo: "Morrer é a curva da estrada, é só deixar de ser visto".

Portanto, aqui, o antes, é só mesmo contornar a curva da estrada, ultrapassá-la...e já está!

Agora, num esforço de concisão, positivista, pragmático, vou tentar  responder directamente  à pergunta da Sofia.

Se houvesse um "antes de morrer", que eu pudesse cingir nos meus braços, o que queria mesmo, mesmo muito fazer, era como a poeta alentejana, que mourejou poeticamente em Matosinhos, Florbela Espanca, tão magistralmente versejou, naquele seu:

"Amar

 

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

 

Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar"

 

É neste verso final da poeta de Vila Viçosa, que eu encontro a síntese possível da resposta à pergunta da Sofia, que eu queria dar, mas nunca o saberia fazer tão bem como a poeta da campina alentejana. J.A.

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publicado por weber às 02:44
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