Quinta-feira, 26 de Maio de 2011

Espantação

 

Rentes de Carvalho é bom d'escrita, já por aqui se disse vezes sem conta.

Mas tem um "cisma", que eu ainda não consegui interpretar, que é o de se "distanciar" dos portugueses e atribuir-lhe "qualidades" excêntricas.

Tem a síndrome do "taxista", que eu já uma vez aqui contei.

Acha ele, o escritor de Estevais, que os portugueses são isto, aquilo e aqueloutro.

Escreveu um interessante e reconhecido livro sobre os holandeses, onde detalha qualidades e defeitos, circunstanciais, dos neerlandeses.

Eu que vivi em França, Paris, em Bruxelles, em Harlem, em Moscovo, em Damasco, aprendi uma coisa.

Quanto mais nos aproximámos do microcosmo, mais longe ficámos da generalização.

Eu vou tentar explicar.

Quando nós, lusos, estamos em terra estrangeira, perguntando-nos a nacionalidade, naturalidade, afirmámos, sem pestanejar, portugueses.

Intramuros, quando em Lisboa nos interpelam sobre a nossa naturalidade, há cambiantes.

Um trasmontano dirá, sempre, que aí nasceu.

Um alentejano, fá-lo do mesmo modo, uma algarvio também.

Das outras regiões já assim não é.

Eu, que sou de Entre Douro e Minho, direi, sempre, que nasci na Maia.

Um que viu a luz da vida em Seia, nunca se dirá beirão.

Da Guarda, idem.

Mas, agora, aproximemos a lupa.

Em Miranda, pergunte-se a um moncorvense onde nasceu, responderá sem hesitar: Torre de Moncorvo.

Agora, desloquemo-nos para esse lugar. Questionemos o mesmo paisano.

Ele vos dirá, sem pestanejar, de Peredo dos Castelhanos, ou do Felgar, ou de Maçores, ou da Açoreira, ou do Larinho ou, ainda da Cardanha. E, cada um destes lugares denota singularidades nos seus habitantes e naturais.

A história ajuda, muitas das vezes, a descodificar os traços, o carácter.

Um flaviense distingue-se, claramente, de um montanhês de Vinhais.

Um bragançano não se confunde com um nascido na Vila, em Vila Real.

Um alentejano de Niza é tão diferente de um sineense, ou de um odemirense, como um algarvio de Faro se afasta de um serrano, ou ainda de um tavirense.

Mas, Rentes de Carvalho acha, e argumenta nesse sentido, de modo quase abstracto, que ele há uma "qualidade" que se agarra ao "português", que eu não sou capaz de reconhecer como entidade autónoma ou mesmo singular, menos como categoria antropológica, ou até mesmo como curiosidade ontológica.

Leiam a prosa do mestre da escrita em obrigadinho.

Conheço gente que tem esse traço, como frequento cidadãos, sinceramente, reconhecidos a quem bem lhes fez e, ambos, são portugueses.

Como dirimir então esta momentosa questão?

Uitlizar os grandes números, as séries estatísticas, ou ainda um modelo matemático para apurar tal impressiva questão?...Não me parece.

Há, de facto, neste modo de abordar os portugueses, realizado por Rentes de Carvalho, uma carga idealista, paradigmática como se diz, mas que se não aproxima, em nada, em meu bom entendimento, duma abordagem rigorosa dos "portugueses" que, em cada dia que passa, estão diferentes do que eram nos tempos da expansão maritima, e apenas para assegurar uma baliza temporal credível.

Faz pouco tempo, editei, por aqui, um "discurso" de François Mitterand, que dizia mais ao menos isto, referindo-se aos franceses "dizemos os nossos antepassados gauleses, mas fomos romanos, germanos, espanhóis, italianos, somos cada vez mais portugueses e já vamos sendo árabes".

Esta mistura, o que dá como característica nuclear do francês, na actualidade?

De quantas mantas étnicas fomos, nós, portugueses de hoje, feitos?

Que atributos temos hoje, que não tínhamos há cinquenta anos atrás?

Não faço ideia alguma.

Sei dizer os persistentes: uma língua e um território, que é, de facto, o que nos distingue de "outros" e que nos sinaliza.


publicado por weber às 10:03
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