Quinta-feira, 11 de Novembro de 2010

Do medo

 

É um exercício deveras interessante: fazer leituras, sobre leituras de leituras.

Parece confuso, mas não é.

Ocorreu-me hoje ao ler um post de Rui Bebiano, que pode LER por aqui.

O texto deste é uma leitura critica de um curto artigo do professor Viriato Soromenho Marques, a pretexto de abordagens recentes de José Gil sobre a emergência do "MEDO" em Portugal.

Vamos começar pelo principio.

1/ O artigo do Professor de SetúbalO Elogio do medo

Numa entrevista recente, concedida à Antena 1, o filósofo José Gil alertava para o que considerava ser o "regresso do medo", dando como exemplo o alastramento das atitudes de egoísmo nos locais de trabalho, que só se explicaria pela fragmentação de uma sociedade crescentemente atomizada pelo medo. Concordo com a descrição dos sintomas, mas discordo do diagnóstico de José Gil. Prefiro seguir o grande Thomas Hobbes, que na sua clássica obra, Do Cidadão (1642), chamava a atenção para a dimensão política do medo: "[...] a origem de todas as grandes e duradouras sociedades não consistiu na boa vontade mútua de todos os homens, mas no medo recíproco que tinham uns pelos outros." Só o medo nos permite enfrentar a fragilidade da condição humana, mortais partilhando efemeramente o mundo com os nossos semelhantes. O medo combate a desmesura, estimula a inteligência, promove o raciocínio estratégico, incentiva a disciplina, ajuda-nos a conhecer os nossos limites, e a respeitar os limites dos outros.

Se José Gil aceitar trocar "medo" por "pânico", a sinistra força que paralisa a vontade, então estaremos integralmente de acordo. Depois de quase duas décadas de euforia - a forma extrema da ausência da dimensão política do medo - a sociedade portuguesa entra agora numa incerta e perigosa onda de pânico, onde cada um procura o seu nicho de salvação. Nesta paisagem sombria, só poderemos saudar o regresso do medo, como uma paixão que nos ajude à navegação nas águas agitadas do presente. Com medo, teremos políticas públicas mais duradouras e escolhas pessoais mais sensatas. Aliás, só quem experimenta o medo consegue desenvolver a virtude fundamental que tem faltado à política portuguesa: a coragem. Só a coragem, aliada à lucidez, consegue mudar o mundo para melhor.»

2/ O post do professor de Coimbra: « O medo (Hobbes vs Rousseau)

Uma nota no Facebook chamou-me a atenção para um artigo de Viriato Soromenho Marques publicado no Diário de Notícias da última Terça-Feira. Este retomou ali a conhecida opinião de Thomas Hobbes acerca do papel do medo como factor capital para a instauração da ordem pública e do bom governo. De caminho, distanciou-se de uma opinião do filósofo José Gil a propósito do lugar do mesmo medo no actual alastramento, pelas ruas, moradias e locais de trabalho, de um clima de intimidação imposto pela fragmentação do social. No essencial, Soromenho Marques pretende dizer que esta situação não é um mal em si, podendo até, muito pelo contrário, funcionar como instrumento para a construção de um bem maior. Usando as suas próprias palavras: «O medo combate a desmesura, estimula a inteligência, promove o raciocínio estratégico, incentiva a disciplina, ajuda-nos a conhecer os nossos limites, e a respeitar os limites dos outros.» Sob diferentes rostos, esta posição tem fundamentado todas as formas de exercício discricionário da autoridade, justificando-as em nome de um arbítrio imposto por «o homem ser o lobo do homem» e necessitar de trela para não despedaçar o seu semelhante.

Este género de opinião deriva de uma filosofia social, de uma consideração do humano e até de uma uma concepção de vida na cidade que contém uma dimensão particularmente deprimente e perigosa. Ela implica a aceitação absoluta da desigualdade, já que o medo se apoia sempre numa relação de poder que subordina, sem remissão, o amedrontado a quem o amedronta. Supõe uma maldade intrínseca à essência do humano que bloqueia a construção de uma ideia de justiça que não seja a justiça do carcereiro. E ataca uma das bases fundamentais da democracia que é a expressão de uma opinião informada, fundamentalmente livre e não sujeita a coacções de toda a ordem. Regresso, para usar idênticas armas, às palavras de Jean-Jacques Rousseau, a velha bête noirede Hobbes no campo da filosofia política, retiradas do seu Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens, escrito em 1754 para a Academia de Dijon:

«Eu teria escolhido aquela [República] na qual os particulares, contentando-se em dar sanção às leis e em decidir pessoalmente, com o testemunho dos chefes, os mais importantes negócios públicos, estabelecessem tribunais respeitados, distinguissem cuidadosamente os seus diversos departamentos, elegessem todos os anos os mais capazes e os mais íntegros dentre os seus concidadãos para administrar a justiça e governar o Estado, e na qual, sendo a virtude dos magistrados testemunho da sabedoria do povo, uns e outros se honrassem mutuamente. De sorte que, se jamais funestos mal entendidos viessem perturbar a concórdia pública, até tempos de cegueira e de erros fossem marcados por testemunhos de moderação, de estima recíproca e de comum respeito às leis, presságios e garantias de reconciliação sincera e perpétua.»

Eis a essência desejável da democracia, seja ela representativa ou participativa, que o artigo sinistro de Soromenho Marques revela desprezar em absoluto, ao propor uma harmonia assente não no justo consenso e na dádiva mas sim na pura coerção. Talvez este exprima uma tendência que emerge do lado mais sombrio da História e que de vez em quando sai do caixão e regressa para nos atormentar, criando a ficção de que a paz dos escravos alicerça o melhor dos mundos, uma vez que nos afasta do território tumultuoso, «decaído», onde se constrói, inevitavelmente com dor, a emancipação, a liberdade e o bem-estar. Talvez este seja um sinal de perigo ao qual devamos prestar atenção.»

Das palavras:

1/ Coragem (do latim coraticum) é a habilidade de confrontar o medo, a dor, o perigo, a incerteza ou a intimidação. Pode ser dividida em física e moral.

2/ O medo é um sentimento que proporciona um estado de alerta demonstrado pelo receio de fazer alguma coisa, geralmente por se sentir ameaçado, tanto fisicamente como psicologicamente. Pavor é a ênfase do medo.

3/Pânico é um sentimento acachapante de medo e ansiedade. É um medo repentino e uma ansiedade sobre eventos antecipados.

Posto isto e as coisas neste pé, eu, pessoalmente, não consigo detectar aquilo que Rui Bebiano sugere ter observado no curto escrito do professor de Setúbal.

Já quanto à entrevista com José Gil (que saudades de Fernando Gil, o enorme filósofo falecido cedo de mais...) o que posso dizer?: de uma indigência que até doeu. Uma falta de rigor axiomático, etimológico e, falar de filosofia, ou de filósofo, a propósito dessa entrevista...é uma pura anedota.

Eu, como outros, no tempo da repressão, borrados de MEDO, fomos capazes, uns mais que outros, de actos de bravura, de coragem inaudita.

O Salazarismo criou mecanismos repressivos, de controlo das almas ( à semelhança do que os comunistas fizeram, para pior, nos países do Socialismo real...), de condicionamento das pessoas, que instilava o MEDO em permanência e provocava o aviltamento dos seres.

O Nazismo também o fez levando ao paroxismo a repressão, a solução final, apontada a grupos bem determinados, criando o "pânico".

O medo de que fala o professor Soromenho Marques nada tem a ver, digo-o eu (é a minha leitura...) com tais realidades.

Remete mais para a urgência da Ética na politica e nos negócios; empurra-nos mais para a necessidade da Ética na vida e na praxis dos Partidos, das Igrejas, dos Clubes, das Associações, das Universidades ( os Professores, tantos deles, não trabalham com esta qualidade para aferirem das virtudes dos seus métodos?: coragem vs medo).

A discussão colocada noutro patamar, a partir de outro pontos de vista, pode ser deveras interessante.

O medo provoca-me, sempre, a vontade de lutar, de ir à briga. As humilhações que sofri, os desaforos a que foi submetido, sempre me empurraram para a resistência, mas sempre com o MEDO presente.

O professor de Setúbal teve o cuidado de "trabalhar" com as categorias necessárias à abordagem deste "problema".

O medo, afirmo-o eu, com aquele, pode ser e é criativo.

É por muitos cidadãos, que andam a "mourejar" na politica e nos negócios, não terem medo, sentirem-se ininputáveis, acima das Leis, sem valores, sem Moral, que fazem o que fazem...despudoradamente.

De modo um pedaço eufemístico posso até fazer equivaler medo a pudor.

Imagem do filósofo, que nasce em finais do século XVI e morre em meados do XVII.


publicado por weber às 11:49
link do post | comentar
partilhar

. ver perfil

. seguir perfil

. 8 seguidores

.pesquisar

 

.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. Do medo

.arquivos

.tags

. todas as tags

.últ. comentários

Chame-me Parvo….Pois é, Sr. Pedro Tadeu, é isso me...