Sábado, 25 de Dezembro de 2010

Do mau uso dos arquivos da PIDE

 

A Revista Sábado foi espiolhar os dossiers dos candidatos à Presidência da República, Cavaco Silva e Manuel Alegre.

O que publicou sobre o actual Presidente da República deu lugar a aproveitamento, nomeadamente, uma boca imprudente de Alegre em direcção ao passado de Cavaco Silva, no tempo do consulado de Marcelo Caetano.

Já andava toda a minha a gente a sovar o candidato de Boliqueime, tirando proveito do que se pensou saber sobre e a partir do tal dossier pessoal do candidato.

Ora, a historiadora Irene Pimentel, com a sua inquestionável competência, e a partir de uma posição ética, decidiu intervir, e bem, na polémica que tal matéria suscitou.

A partir do blog "Jugular" onde colabora, brindou-nos com este post.

Mas, não é a primeira vez, nem será, provavelmente, a última que tal assunto virá à luz do dia.

Logo a seguir ao 25 de Abril, era então líder da Intersindical o "caixeiro" Canais Rocha, este desapareceu, abruptamente, dos palcos sindicais. Não estando doente, não havendo razão ponderosa para tal fenómeno, logo começaram a correr as mais estapafúrdias versões. O que se passou então? O "representante" do PCP na tal Comissão de Extinção da PIDE/DGS cuja tarefa era desviar alguns "dossier" e "coscuvilhar" outros topou o do Canais Rocha onde se encontrava, preto no branco, um pequeno "deslize" aquando da sua prisão. Chegou para o afastar da liderança e para o remeter para o anonimato mais profundo que imaginar se possa...

No livro de memórias do capitão "trovoada", dito Sousa e Castro, que foi coordenador da dita Comissão ele refere o "desaparecimento de cerca de 10% dos processos da PIDE e o desaparecimento dos processos individuais de Álvaro Cunhal e de Mário Soares, sem que estes alguma vez se tivessem queixado..."*

Sabe-se que o PCP, no que aos seus militantes respeitou, utilizou, severamente, todos os processos que consultou. O seus militantes, durante o fascismo, presos, interrogados, torturados, quando libertos, tinham que relatar, com pormenor e verdade, o que se tinha passado. Ora, depois do 25 de Abril, muitos desses relatos foram postos em linha com os dossiers policiais...

Por outro lado, diga-se em abono da verdade, estes processos individuais da PIDE serviram, também e ainda, para repor a verdade em relação a muitos militantes antifascistas. O caso mais impressivo é o de Júlio Fogaça sobre quem durante anos impenderam acusações soezes sobre as escolhas sexuais dele. A PIDE tentou aliciar, e conseguiu-o, o "companheiro" de ocasião, que com ele foi preso (creio na Nazaré), mas nada foi capaz de dobrar o resistente e dirigente de topo do PCP.

A verdade do seu comportamento, perante os esbirros da sinistra policia, aí estava também plasmada...mas o seu dossier pessoal, esse, tinha desaparecido.

Pode ler aqui longo texto que escrevi, faz tempo, sobre o "mistério" Júlio Fogaça.

A perspectiva de Irene Pimentel, a severa historiadora, está por demais correcta: os arquivos da PIDE são fonte histórica, mas devem ser abordados com mil e uma precauções e postos em linha com outras fontes.

Os jornalistas, que querem "salpicar" pessoas, ou "vender" papel, devem ser sovados e objecto do opróbrio da opinião pública, como é de rigor em democracia.

Todos temos direito ao bom nome e o interesse público podendo sobrepor-se, em hierarquia, aos interesses particulares, devem, estes, ser sempre protegidos e contextualizados.

Coisa que o "dossier" da PIDE da Aníbal Cavaco Silva não foi.

São, pois, merecedores de critica quem "abusou", despudoradamente, para fins de disputa eleitoral, de tal conhecimento.

*Citação de memória.

Foto de má qualidade de Júlio Fogaça, quando jovem.


publicado por weber às 11:01
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