Terça-feira, 7 de Dezembro de 2010

Do vandalismo

Desde as campanhas napoleónicas ao norte da Europa, à Itália, à Mesopotâmia, ao Egipto, passando pelas campanhas hitlerianas na segunda guerra mundial e, recentemente, a invasão do Iraque pela coligação USA/UK que a questão do "direito" de saque sobre o património artístico dos países ocupados e dos povos dominados se coloca na "ordem do dia".

Mas nunca como durante a revolução francesa e sob o directório esta questão foi tão debatida.

Os "revolucionários" argumentavam que a República era o "sétimo céu", a excelência dos regimes, e Paris a "nova Atenas" para onde deviam "viajar" todos, ou os que se achasse por bem, os exemplares do génio antigo , do renascimento e já algum produzido pelas Luzes (então ao trabalho).
Uma voz, em França (Schiller também; e Goethe de igual modo) uma única e sonorosa voz se levantou contra

 essa "gula": Quatremére de Quincy.

Este "realista", sempre a ponto de ser guilhotinado, em pleno terror, ousou questionar o que políticos, militares e vultos da cultura defendiam então: trazer o que de belo foi feito para o Museu Universal (hoje, Louvre).
A discussão foi deveras sinuosa e complexa.
Mas, o que a história reteve é que a França (os seus políticos e militares) saquearam os Países Baixos(sobretudo a Bélgica e trouxeram para Paris quase tudo os que os flamengos produziram), saquearam o Egipto, a Mesopotâmia, a Grécia e a Itália (particularmente, Roma).
Quatremére de Quincy, em sete cartas dirigidas ao seu amigo e classicista Miranda, um hispânico de alta erudição, sustenta a sua indignação e as suas teses, particularmente no que diz respeito ao saque feito na Itália.
Na primeira carta cita, profusamente, Polibio, o historiador romano, que zurze nos seus contemporâneos e o fez do modo seguinte: "Se os romanos, no seu sistema de conquista das nações, só lhes tivessem subtraído o ouro e a prata, eles não seriam criticáveis; porque, para controlar esses povos era preciso retirar-lhes os meus de resistirem. Mas para todas as outras coisas, seria mais glorioso deixar-lhes onde elas estavam, mesmo com o desejo que elas provocavam, e colocar a nossa pátria, não na abundância e na beleza desses quadros e estátuas, mas na severidade dos costumes e na nobreza dos sentimentos. De resto, desejo que os conquistadores futuros aprendam com estas reflexões a não esvaziarem as cidades que eles submeterão e a não utilizarem as calamidades cometidas sobre os outros como ornamento da sua pátria."
 Este pedaço de prosa é retirado, ou foi retirado, da História da República Romana, livro IX de Polibio.
Este é o programa que Quatremére de Quincy vai desenvolver para fustigar os saqueadores de século XIX, os seus contemporâneos e os seus compatriotas.
Vale a pena ler estas sete cartas, que pode bem ser um Manifesto para a preservação, a defesa e qualificação, não só do Património das Nações, mas daquele outro que HOJE é considerado MUNDIAL, pertença da Humanidade.
Devemos isso, em meu bom entender, a este enorme francês, "realista", "reaccionário" como se diz ainda, mas com uma visão de progresso e de futuro que poucos, à época, defenderam...e com o risco da sua própria vida.

Leiam estas cartas à Miranda, escritas (mas sem nunca terem "obtido" resposta: é um mistério bem guardado...), porque ler faz bem à saúde e torna-nos melhores, como pessoas e como cidadãos.

publicado por weber às 11:38
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