Segunda-feira, 24 de Outubro de 2011

Júlia Ribeiro

Antes de tudo, é nascida em Torre de Moncorvo.

Tem um percurso de vida, rico, complexo e feito de voltas e caminhos.

Estudante em Coimbra, conheceu professores e colegas de mor dimensão cultural.

Dedicou-se ao ensino durante uma vida inteira.

É contista de truz.

Colabora em múltiplas actividades.

Uma, na qual se destaca, pela persistência e pela qualidade que empresta aos seus textos, o blog moncorvense "farrapos de memória".

Foi desse "jornal" que retirei este impressivo texto, que é uma autêntica pérola literária: poesia & sensações.

"Numa aula de Literatura Alemã com o Professor Paulo Quintela - um grande erudito, um excelente tradutor de poesia alemã, ele próprio poeta e, essencialmente, um homem de teatro - estávamos a tentar meter o dente nas “Elegias Romanas” de Goethe. Tarefa nada fácil. São poemas eróticos, belíssimos, mas de elevado grau de dificuldade.

Penso que se tratava da 5ª Elegia: é já noite; no atrium de uma villa romana, colunas de mármore em volta, o som de um pequeno repuxo de água, à luz velada das lâmpadas de azeite - o poeta está reclinado junto da amada adormecida. Escreve poesia e, “com mão que vê... e olhos que sentem” , vai acariciando as coxas da bela jovem romana. No seu sono despreocupado, ela está de bruços e o poeta, percorrendo “com os dedos as costas da amada constrói a métrica do hexâmetro”. Era esta a poesia que íamos tratar. E esta aula foi há mais de 50 anos!

No anfiteatro estávamos cerca de 70 raparigas e 8 rapazes. Nunca, numa sala de aula, tínhamos lido nada tão “nu ” . Paulo Quintela chamou um rapaz a interpretar a elegia. O moço corou, engasgou-se, baixou a cabeça, pelo canto do olho espreitava para as raparigas... Tantas raparigas!! E nós todas encolhidas com medo de levantar os olhos, não fosse o Professor lembrar-se de mandar uma de nós interpretar “aquela coisa”. E capaz disso era ele.
Bom, o rapaz estava mesmo atrapalhado. O Quintela a falar em sensações visuais e tácteis e o moço nada. Até que o Senhor Professor Paulo Quintela puxa lá do seu vozeirão de bom barítono teatral e diz : “Oh, homem , parece que nunca viu uma mulher nua!”

Aí, nós, as raparigas, já estávamos com vontade de rir, mas caladinhas que nem um rato. O moço, nem uma palavra. E o Quintela a repetir: “Não me diga que nunca viu uma mulher nua !” A resposta veio num fio de voz : ”Não, Sr. Professor” . O animal de teatro que era Paulo Quintela entrou plenamente em cena: olhos esgazeados de espanto , mãos na cabeça , boca aberta, dois passos, pausa, mais dois passos, depois pára, abre os braços e exclama: “O quê?! “

Mas a cena não ficou por aqui. Aproximando-se do rapaz, fixando-o nos olhos, continuou com a voz mais teatral do mundo: “E em fotografia ... em gravura... em estátua...o senhor nunca viu uma mulher nua?”. “Já sim, Sr. Professor” . “ Ora bem. E o que é que sente? “ Nós, as moças, até estávamos a entender o que o professor queria: as tais sensações visuais e tácteis: “os olhos que sentem e os dedos que vêem” . Mas o rapaz já não estava capaz de dar uma resposta de jeito. Viam-se as gotas de suor escorrerem-lhe desde a testa até ao queixo. Na sua riquíssima voz de baixo, Paulo Quintela lança-lhe a última pergunta: “Não sente nada?”

Pobre do moço: dizer que não sentia nada em frente de tantas raparigas, estava arrumado; dizer o que de facto sentia ... não tinha coragem. Então , como quem se atira num mergulho de cabeça e olhos fechados, disse : “Eu ... eu sinto assim um certo dinamismo “.

Nem queiram imaginar a cara do Professor Paulo Quintela !! Dessa vez, nem precisou de fazer teatro!"
Foto - Júlia Ribeiro com o jornalista e poeta, moncorvense, também, Rogério Rodrigues.
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publicado por weber às 09:47
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