Quarta-feira, 25 de Abril de 2012

Morreu Miguel Portas

Homem com notoriedade própria e familiar, faleceu ontem num hospital de Bruxelles.

Filho de família singular, combinando um progressismo cristão, o arquitecto Nuno Portas com o situacionismo da família da mãe, alentejana, ligada aos mármores e à agricultura, como capitalistas e "fascistas".

Educado no Colégio S. João de Brito, "propriedade" dos jesuitas, assim como o seu irmão Paulo.

Separados o casal Sacadura Cabral e Portas, Miguel ficou ligado mais ao pai.

O seu irmão, que muito estimava, terá ficado debaixo das saias da mãe (economista, ela também, como Miguel Portas).

Miguel, mais velho três anos do que Paulo, cedo se ligou às causa antifascistas e, ainda adolescente, integrou as hordas estudantis do Partido Comunista Português.

Camarada de Sita Valles, Zita Seabra, Pina Moura, João Semedo, companheiro mesmo de Teresa Dias Coelho, filha do pintor assassinado pela PIDE e de Margarida Tengarrinha, dirigente do PCP, então.

Quando despontou a Perestroika na URSS...entrou em divergência, português suave, com a Direcção do PCP, ainda com Cunhal ao leme. Criou, com um grupo de jovens uma formação que denominou, ostentatoriamente, Politica XXI e que viria, anos após a participar, com trotskistas e estalinistas, na fundação do Bloco de Esquerda.

Quando ocorre o passamento de alguém com dimensão pública, os "elogios" chovem em catadupa.

Ele há os sinceros, vindos de amigos; ele há os obrigatórios...vindos das figuras institucionais; ele há os surpreendentes, vindos de quem não se esperava e ele há os patetas, que mais valia estarem calados.

Escolho dois, desta última categoria.

O de Ana Gomes, com quem Miguel Portas, e bem, tinha "cortado" relações, por amor ao seu irmão Paulo Portas.

O de Nuno Melo, jovem dirigente popular que, por respeitinho ao líder Paulo  diz "que muito cresci com Miguel Portas, deputado europeu".

Os de Passos Coelho e os de Cavaco Silva...ocos, como sempre.

O do PCP, frio, de circunstância.

Contudo, em minha opinião, Miguel Portas nunca deixou de ser marxista, de ser comunista.

Pouca coisa o dividia do PCP.

Talvez a única dimensão, nada ideológica, que o afastava desta agremiação, que foi sua durante muitos anos, a falta de protagonismo, digo eu, que nele teve.

Continuou a sustentar a revolução proletária até ao fim dos seus dias. Nunca se lhe ouviu uma critica consistente e extensiva que fosse aos crimes hediondos de Lenin, Stalin, ou mesmo Mao Tsé Tung.

Assim como o silêncio de Ana Gomes, maoista nos seus tempos juvenis, controleira da "célula" do Bairro do Charquinho no pós 25 de Abril de 1974, é notório, e inquietante, sobre os mesmo tópicos.

Apetece-me citar uma frase de Stalin, o "pai dos povos": "Quando morre um homem, próximo de nós, nosso familiar, nosso amigo, isso significa uma tragédia. Quando desaparecem centenas de milhares...isso é estatística."

Provavelmente, Miguel Portas reprovaria o sentido, o texto e até o contexto, desta afirmação, mas o seu projecto político-partidário, se vencedor, levaria, exactamente a isto.

Leia-se por aqui o seu obituário.

Não é por que se morre, que as pessoas se tornam melhores ou piores.

A morte não reforma o ser humano.

Miguel Portas foi o que fez em vida e nisso não me reconheço.

R.I.P., é o que lhe posso, com sinceridade, desejar.


publicado por weber às 11:43
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