Terça-feira, 15 de Maio de 2012

Les enarques

Há uma tradição na administração francesa, na "ocupação" " dos altos cargos do Estado, que radica na frequência e titulaturas dadas pela ENA, École National d'Administration (pode ver aqui a noticia sobre ENA).

Jacques Chirac, Michel Rocard e, agora, François Hollande, assim como Ségoléne Royal, ex-mulher do Presidente da República, nomeadamente, foram formados pela ENA.

Acresce a este dado que, outra das tradições francesas, uma espécie de cursus honorus, putativos "candidatos" a chefe de governo, deputados e/ou Presidente da República, ou chefes de Partido, são, ou foram Maires, Presidente de Câmara, ou de Conselhos Regionais.

O indigitado primeiro-ministro, é Maire de Nantes, a SG do PS, Aubry, é Maire de Lille e Ségoléne Royal é, ainda, Presidente do Conselho Regional de Poitou-Charentes.

Jacques Chirac, "enarque", também ele, foi Maire de Paris durante anos a fio.

Leia-se este interessante, quanto substantivo artigo, de Michel Rocard, "enarque", sobre as últimas eleições presidenciais, em França, por aqui.

Análise fina e singular, pondo em perspectiva a história e a idiossincrasia da França e dos franceses.

"Recordamos ter visto a esquerda governar sem dramas. As duas passagens pelo poder – dez anos com Mitterrand e cinco anos com o primeiro-ministro Lionel Jospin – forçaram a esquerda a conciliar-se com a realidade. A reputação internacional da França não foi prejudicada, e, a nível interno, o desempenho da esquerda, especialmente no que diz respeito ao desemprego, é bem comparável ao de outros governos. Assim, desta vez não haverá pânico. Pelo contrário, o regresso da esquerda ao poder parece ser um exemplo perfeitamente normal, quase trivial, de alternância no governo. Na realidade, a vitória de Hollande não foi assegurada por uma viragem para a esquerda por parte do eleitorado, mas sim pela rejeição de Nicolas Sarkozy por parte dos eleitores. Na verdade, o resultado representa uma derrota impressionante e histórica: durante a Quinta República, três presidentes em exercício – Charles de Gaulle, Mitterrand e Jacques Chirac – foram reeleitos após o seu primeiro mandato. Apenas Valéry Giscard d'Estaing não foi reeleito, por estar enfraquecido devido ao longo período de declínio do Gaullismo. A rejeição de Sarkozy é muito diferente, acima de tudo, é uma questão de estilo. Persiste, entre os franceses, uma espécie de realeza e a nossa constituição tem muitas características de uma monarquia electiva. Com a sua familiaridade excessiva, simplicidade e vulgaridade ocasional, Sarkozy abalou a dignidade da sua função sagrada. Isso não foi perdoado e foi julgado mais severamente do que as deficiências do seu registo presidencial, que não foi muito pior do que o dos seus antecessores. Além disso, em termos substantivos, as políticas de Sarkozy, especialmente as fiscais, favoreciam as classes mais altas e os mais abastados. Surgiu assim uma combinação poderosa da raiva social e económica, especialmente devido à convicção de que a ganância excessiva de financiadores e banqueiros era a principal causa da crise que surgiu em 2008 e que ainda hoje nos ameaça. Era necessária uma correcção social e política, que se concretizou com uma vingança única para a França. Mas os cofres do estado estão perigosamente empobrecidos e a França encontra-se agora entre os muitos países cujo peso da dívida compromete a existência da zona euro. Assim, o país está agora sujeito ao discurso da ortodoxia económica, que, ao insistir em que todas as dívidas sejam pagas até o último cêntimo, ignora que a despesa pública é também um motor de crescimento. Qual o montante que terá de ser efectivamente reembolsado? Com a Alemanha como o expoente principal da ortodoxia, o debate está ao rubro. Mas verificamos agora que a austeridade fez cair a Grécia, Portugal e especialmente a Espanha e a Itália numa profunda recessão. O presidente do Banco Central Europeu, bem como o Fundo Monetário Internacional reconhecem a gravidade do problema. Mas o que acontecerá se recusarmos aceitar a posição da Alemanha? A vitória de Hollande, que afirmou querer "renegociar" o novo "pacto fiscal" da União Europeia apoiado pela Alemanha, vai ter um peso enorme neste debate. Além disso, os socialistas controlam actualmente não só a presidência e o governo, mas também uma maioria no Senado, todas as presidências regionais, 55% dos departamentos do país e a maioria das câmaras municipais das principais cidades. Em menos de dois meses poderão vir a controlar igualmente a maioria da Assembleia Nacional, o que implica uma concentração de poder nunca antes vista na França moderna. Os socialistas podem governar sem limites, por isso compete-lhes fazê-lo bem. Esta é a incerteza que paira sobre o futuro da França, ou mesmo da Europa."


publicado por weber às 17:52
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