Terça-feira, 15 de Março de 2011

Ainda as "manifes" de 12 de Março

 

Foi nos idos de Março que César feneceu às mãos dos conspiradores, nos quais se incluía Brutus.

Março é um mês cheio de simbólicas.

Dedicado ao deus da Guerra, está, pois, prenhe de pulsões bélicas.

Pois, a malta à rasca, novos, médios e velhos lá andaram a mourejar, avenidas abaixo, com cartolinas, folhas A4, dizendo dos seus enrascanços.

Os bispos católicos, prudentes, mas oportunistas, lá comentaram o civismo dos "enrascados", que se manifestaram de modo tranquilo (nem pareciam enrascados, tal era a festança e a boa disposição...).

A historiadora, Irene Pimentel, no blog colectivo "jugular" colocou vários post's, dois pequenos e um grande, este, à séria, abordando as questões essenciais que decorreram dos tópicos, das raivas, das criticas, das denúncias feitas pelos manifestantes... e foram muitos.

Pode lê-los, todos, por aqui: "o povo unido não precisa de partido";agora a sério...;às mentes totalitárias.

O que me importa comentar é aquele onde Irene Pimentel se confronta com a realidade, que é o terreno por excelência dos historiadores, dos sociólogos, dos antropólogos, dos economistas e, deveria sê-lo, também, dos políticos.

"agora a sério":

«(...) Penso que a luta contra os falsos recibos verdes, se for debatida, sem demagogia, pode trazer ideias muito interessantes. Algo que também é muito importante é fazer a história de como surgiram os recibos verdes. É valorizar determinadas profissões. É dar estatuto às que não têm. É esclarecer que nunca mais haverá emprego para a vida, é mostrar que as reformas dos que se reformam cedo são um encargo acrescido para os mais novos (eu, pessoalmente, não tenciono reformar-me cedo), é fazer apelo á solidariedade entre as gerações, é deixar de lutar apenas pelos que têm empregos blindados, como eu acho que tem sido a tendência dos sindicatos, mas lutar por aqueles desempregados que não têm voz e contra os falsos recibos verdes, mosrtrando alternativas credíveis. É  rebater a ideia de que todos se devem licenciar. A academia é a academia e nem todos têm vocação para ser académico. O ridículo pseudo-estatuto do «senhor dr.» já deu o que tinha a dar. Mas é também rebater a ideia de que a vida é uma festa, é ir contra a noção de que se conquista algo porque sim. Só se conquista algo -, penso eu - à custa de muito trabalho, mesmo que haja também o factor sorte. É valorizar a mobilidade geográfica, a ida para o estrangeiro, o estudo e o regresso a Portugal, é mostrar que estudar é fundamental para se ser livre e ter ideias.

Por isso, por entre más ideias, como a de alguém que sugeriu fazer hortas nos baldios - eu não tenho nada contra, mas pessoalmente não tenho qualquer vocação para a agricultura, nem acho que isso resolva algo - ou a do Rui Tavares, que sugere que se ponha em tribunal as grandes empresas que violem as leis laborais, sem ter em conta de que há muitas pequenas empresas que violam esses mesmos direitos, eu gostaria de valorizar uma sugestão apresentada no «Fórum das Gerações» - aliás, termo muito mais interessante do que o que nunca gostei de «geração à rasca» - com a qual estou completamente de acordo, e que sempre defendi:

- a de «criação  de pequenas e médias empresas com vista à criação de novos postos de trabalho»

Eu acho que é por aí, até porque não sou contra os recibos verdes, sou , sim, contra os falsos recibos verdes. E o Estado, que não pode resolver tudo, porque o contribuinte já não tem mais capacidade e o Estado também é ele, deveria apoiar este tipo de iniciativas, facilitá-las e valorizá-las.

Alguém disse que hoje o filho do sapateiro ou da empregada doméstica já não é obrigatoriamente sapateiro ou empregada doméstica. Ora, isso não é um pormenor, é talvez das grandes conquistas (irreversíveis?) dos últimos 36 anos. E há que lutar para que isso não seja reversível e aprofundar a luta no sentido de o filho do sapateiro ter as mesmas possibilidades de acesso aos bens democráticos do que o «beto». Com essa possibilidade, depois, conta a iniciativa e a ideia. E já agora lutar sem demagogia, falsos unanimismos e sem instrumentalização de forças políticas cujos amanhãs que cantam apregoados já revelaram o que realmente traziam.»

Assino tudo o que sustenta Irene Pimentel.

Mas, ainda assim, gostaria de dar o meu contributo a este debate.

Os sindicatos comunistas, a CGTP ( a UGT conotada com os socialistas e com os sociais-democratas, não conta, por ineficiente...) continuam com o paradigma de sempre, obsoleto: só defendem os empregados do sector privado e do Estado e, pasme-se, só os que têm vinculo contratual "eterno", professores, funcionários públicos, tanto da administração local como da central.

A nossa Lei mãe, a Constituição da República, não permite despedimentos na "função pública".

Repare-se  nos sectores em que os comunistas investem, tanto do ponto de vista sindical, como politico-sindical: nos aparelhos de Estado, ao modo gramsciano - administração pública, policias, forças armadas, justiça e judicatura, ensino, designadamente.

Ouça-se os sindicalistas dos juízes, do ministério público, dos professores, das policias e percebe-se a onda ideológica.

Ouça-se os líderes das associações dos militares e os tiques de linguagem lá estão.

A Intersindical, aparentemente, na retórica, preocupa-se com os desempregados e os precários.

Mas é uma pura mentira.

Tanto uns como os outros não são sindicalizados, não pagam o "imposto" ao sindicato. Não têm, por isso, nem acesso à representação de classe menos ainda  ao apoio jurídico.

A Intersindical, ao contrário das CCOO, ou da UGT espanholas, não tem obras sociais, nem fundos de solidariedade para a doença, a velhice, o desemprego, ou as greves. Não tem plataformas  de empregabilidade para atender os que caiem em situações disfuncionais (empresas que encerram, ou industrias que desaparecem...).

Os sindicatos da Europa, muitos deles, quase todos, estão já noutro paradigma.

Veja-se o Pacto que celebraram, recentemente, com o Governo e a Patronal em Espanha.

Por outro lado, os precários, os desempregados, os reformados são forças "conservadoras" e "exército de reserva" que a "burguesia" move contra os empregados (fórmula marxiana).

Depois, na luta de classes, não têm qualquer préstimo: não paralisam comboios, composições de Metro, autocarros ou eléctricos; não param serviços municipalizados, câmaras, escolas ou ministérios.

Este aspecto sinistro, mas real da luta sindical não se repercute de igual modo na luta politica.

Os comunistas, em sede parlamentar, em démarches partidárias no espaço público e publicado, levantam estas bandeiras dos precários e dos desempregados, mas de modo pouco convincente, como se pode observar a cada passo.

Há um outro aspecto que Irene Pimentel aborda, a Universidade, os Institutos, as Escolas, mas que eu gostaria de atender de um outro ponto de vista.

A urgência da articulação delas, todas, com a economia, com o tecido empresarial.

As Universidades de Aveiro, do Minho, o Pólo Tecnológico do Pragal da Universidade Nova de Lisboa, os Politécnicos dos cursos tecnológicos, o Instituto Superior Técnico de Lisboa, os Institutos Superiores de Engenharia, praticamente todos, colocam no mercado de trabalho os seus licenciados e com taxas acima dos 90%.

O Pragal, no segundo ano de licenciatura já tem alunos "comprometidos" com empresas. No próprio campus têm empresas ( a YDreams.Portugal é um dos paradigmas deste território). A Universidade de Aveiro e a do Minho têm a mesma filosofia.

Estamos, estou, como já se percebeu, a falar de Escola Pública.

E como se comportam as privadas?

Ora aqui é que bate o ponto.

Aníbal Cavaco Silva, liberal, nos seus tempos de primeiro-ministro e a sua muita apreciada Ministra da Educação (lembram-se?) Manuela Ferreira Leite abriram aos privados o ensino Universitário...sem cuidar do essencial.

O que deu?

As universidades públicas tinham numerus clausus (lembram-se?), que, de algum modo, ajustavam a oferta à procura.

Os privados, não.

Exceptuando a Católica, tudo o resto ilustra o capitalismo mais selvagem que se possa imaginar.

Os pobres, os remediados, cujos filhos não conseguiam entrar no ensino público, por não terem as notas requeridas, foram obrigados a pagar fortunas aos "chulos" das Modernas, das Independentes, das Internacionais e quejandas.

Em que é que isto resultou?

Em dezenas de milhares de licenciados, com cursos de merda (a maior parte deles...), que nem para varrer escadas servem.

São estes que vieram formar o grosso do "exército" de enrascados, de encalhados profissionais.

Mas há um aspecto que não se pode ignorar.

Eles estão aí.

O que fazer, pois?

Ao Estado compete criar condições para reciclar esta gente; compete-lhe ainda dinamizar politicas proactivas de aquecimento da economia e de emprego; compete-lhe trazer investimento estrangeiro de qualidade; compete-lhe animar uma diplomacia económica que leve Portugal e os portugueses a criar riqueza fora de Portugal. Compete-lhe sanear a Justiça, o seu corpus total, para tornar a economia credível e eficiente.

Aos jovens precários, o que se lhes pede? Iniciativa, atrevimento, arrojo e, sobretudo, lutem contra a inércia.

Há exemplos de sucesso aos milhares: micro empresas, recentramento de formação, imigração, parcerias, acesso ao micro crédito, intervenção em plataformas de voluntariado.

Aos jovens pede-se, sobretudo, imaginação para contrariarem a crise que assola a Europa e o mundo desenvolvido, de modo desigual, com ritmos diferentes, mas que está ainda para durar.

Eu, com 64 anos, sinto-me vivo, a contrariar a espuma dos dias, com dois filhos, um de trinta anos e outro com dezoito.

O mais velho tinha até há pouco tempo um contrato sem termo.

Dentro da mesma empresa aceitou um novo desafio, melhor remunerado, com condições suplementares, horário "livre", mas a recibo verde. É um risco que ele corre, mas fê-lo.

A história deste jovem, o meu varão mais velho, com uma quase licenciatura em Literaturas e Línguas Modernas, na variante inglês é impressiva. Foi paquete num museu, trabalhou em duas pizzarias, fez telemarketing, trabalhou como empregado de mesa num restaurante, vendeu roupa e calçado numa loja do Bairro Alto, trabalhou numa produtora de spots publicitários, numa agência de publicidade e, hoje, é "Director" de uma Rádio do grupo media-capital. Além disto é "líder" de uma banda de música, revelação de 2010, "PAUS", e colabora na área de comunicação com o LUX.

Nunca pediu nada a ninguém, não é boy de coisa nenhuma.

Virou-se, sempre, sozinho.

Em tudo que fez, fê-lo com competência, empenhamento e seriedade - como se fossem os melhores "empregos" do mundo.

O meu amigo Diogo, com 24 anos, tem outra história de vida. Mas tem o mesmo registo de seriedade e de capacidade de luta. Está, depois de ter terminado uma licenciatura de multi-média, em Londres, com dinheiro que amealhou durante quatro anos, a fazer formação em documentário, em fotografia e em vídeo.

Podia contar mais, e mais, e mais casos.

Estes chegam.

Depois, mesmo na escola pública há muita irracionalidade.

O Politécnico de Lisboa integra, entre outras, a Escola Superior de Teatro e Cinema sedeada na Amadora.

Uma vez coloquei uma pergunta a dois professores, João Brites, do Bando e Carlos Pessoa, da Garagem:- Só a vossa escola coloca, todos os anos, para além doutras especialidades, duzentos actores no "mercado". Como é possível tal situação? Não temos "mercado" nem para cinco por ano, dado que há outras escolas públicas e privadas a debitarem actores para o mesmo mercado, pequeno, muito pequeno e onde concorrem profissionais sem grau académico. Como explicam esta situação?

A resposta daqueles professores, que já tem alguns anos, mas que é toda ela actual:- O problema não é nosso. Os alunos inscrevem-se para a "audição", são admitidos, fazem o seu curso e depois...desenrascam-se, ou não. O problema é deles.

Mais palavras, para quê?

O problema da falta de emprego para os jovens é uma questão séria de mais para ser entregue aos políticos, aos sindicalistas e aos especialistas em coisa nenhuma.

Resolve-se com acertos na quantidade de licenciados. Com a promoção de saídas profissionais, via escolas profissionais, via cursos adequados aos mercados, e com a promoção de estatuto social e profissional.

O que está a acontecer com a culinária, com as várias profissões a ela relacionada, o estatuto social e o prestígio que um "chef" tem hoje em dia, em Portugal, na Europa e no Mundo pode bem ser o motor de busca para muitos jovens descobrirem vocações.

Tirante os funcionários públicos, que não podem ser despedidos, todos os trabalhadores dependentes, com contrato, sem termo, a termo certo, com recibos verdes, com Acto Único, todos, mas todos mesmos, somos "precários".

E isto é bom por que assegura uma mobilidade social, económica, cultural e até geográfica.

O mercado habitacional de compra, esse, tem travado, em muitos casos, a mobilidade espacial tão importante para a competitividade e a coesão territorial.

Foto do "chef" José Avillez, que vale uma estrela Michelin e trabalhava até faz pouco tempo no restaurante de Lisboa, "Tavares Rico".


publicado por weber às 11:59
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