Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2012

Rui Bebiano e a "ignorância" alçada em argumento

A fórmula não é minha.

O judeu, de origem portuguesa, sefardita, portanto, proscrito pela Sinagoga Portuguesa de Amesterdão ["Excomunhão (Chérem)"], em 1656, Baruch Spinoza (estátua que se encontra em Den Haag) sustentava que "a ignorância nunca poderia ser jogada como argumento".

Ou se sabe, ou não se sabe.

Se sabemos, podemos escrever, falar, polemizar até.

Se ignoramos...aconselha a prudência e o bom senso, que nos calemos.

Ora, mal.

O professor de Coimbra, creio que de história de arte, de cultura, portanto, Rui Bebiano, meteu-se a desconversar sobre maçonaria.

A ignorância do nosso "coimbrinha" é tanta, que espantaria o mais jovem iniciado na Maçonaria.

Leia-se a prosa: democracia e trivializacão da maconaria e a prosápia de Bebiano em abordar tal tópico, com uma ligeireza, que compromete, naturalmente, o historiador que é.

E in extenso, de modo a poder escavar a posta do professor doutor (creio que é o grau académico que lhe pertence noutras matérias, que não a Maçonaria...):

'Muito antes da atual polémica pública se instalar, ocorreu-me uma ou outra vez escrever sobre a maçonaria, os seus caminhos, atalhos, desvarios e remanescentes sinais da antiga e agora decaída grandeza. Ao longo dos anos 80 e 90, algum trabalho académico levou-me a encontros laterais mas regulares com a sua história certas vezes heróica, outras menos edificante, sempre rica em peripécias, escrita no curso de três séculos. Talvez por isso pudesse ter qualquer coisa de razoável a dizer sobre o assunto. Pareceu-me, no entanto, que muito do que poderia escrever iria acertar em pessoas, algumas conhecidas e aos meus olhos inteiramente respeitáveis, que pertenciam honesta e convictamente à instituição maçónica."

Esta primeira parte é todo um hino à ignorância e incompetência de Rui Bebiano, para além de denotar uma pesporrência grotesca.

Sabe Rui Bebiano, qualquer historiador mediano o sabe, que, quando se anuncia um tópico para estudar, pesquizar, escrever, narrar, é necessário definir o seu perimetro, balizar o objecto de estudo.

Diz o historiador (...) 'ocorreu-me uma ou outra vez escrever sobre a maçonaria (...)'!

Sobre a história da Maçonaria? toda a história? sobre a Maçonaria portuguesa? Sobre a Maçonaria e a República? Sobre as Lojas de Coimbra? Sobre a Loja Revolta, a Oriente de Coimbra, que, em 1923 acolheu nos seus quadros Fernando Valle, com o nome simbólico de Egas Moniz e que foi fundada pelos irmãos Cal Brandão, responsáveis pela iniciação, no Porto de Emidio Guerreiro, na Loja Comuna, também seus fundadores? Sobre o papel do ex-Grão Mestre do GOL, António Arnaut, advogado respeitadíssimo em Coimbra, no SNS e na Maçonaria adogmática, propriamente dita?

Sobre o papel dos maçons na feitura da Carta dos Direitos Universais do Homem, aprovada em 1948 e cujo Presidente da Comissão, por afastamento de Eleanor Roosevelt, e que assinou a Carta no Palais de Chaillot, em Paris, René Cassin, maçon, ele também? Sobre a influência da Maçonaria Operativa escocesa na criação fundacional da Maçonaria especulativa, em Inglaterra? Sobre as Constituições do presbítero Anderson, escritas no século XVIII?

Sobre tudo isso o seu "colega", de titulo académico, Fernando Catroga, maçon, ele também, dos mais destacados de Coimbra e um dos nossos mais qualificados historiadores, já muito escreveu e bem.

A que viria, pergunta-se, um especialista de D. João V atrever-se a escrever sobre Maçonaria? Para borregar? Para se tornar objecto de chacota?

De certo era isso que iria acontecer e, em bom rigor, aconteceu.

Oliveira Marques escreveu muito sobre a história da maçonaria portuguesa, assim como Raul Rego.

Hoje há um novo escol de historiadores, alguns maçons (de que se destaca o Professor António Ventura, mas não o único) que estão a abordar temas circunscritos.

O grande livro editado a pretexto do Centenário da República "A Maçonaria e a Implantação da República" deu-nos uma visão completa do papel da Augusta Ordem nesse momento da nossa história.

O que faltará para Bebiano falar, escrever?

Nada, coisa nenhuma.

Ou talvez, como ele o reconhece, o maldizer.

Depois, a cagança dele em classificar maçons, seus conhecidos, como bons, honestos e...os outros, como quê?

A prosa continua e é de bradar aos céus.

Esperávamos que Bebiano fosse "atacar", abordar o tópico, o seu...

Ameaças, só ameaças.

Ouçam-nas:

 "Além disso, vivia-se uma época na qual, para além dos cidadãos diretamente envolvidos, apenas os entusiastas das práticas esotéricas se interessavam pelo tema. Entendi por isso, pesando o interesse do caso, que a polémica na qual me iria meter não valia o esforço. E dessa forma fui adiando o que tinha para dizer sobre esse mundo particular que passou agora, pelos piores motivos, para os grandes títulos da imprensa e dos telejornais. Mas não será ainda desta vez que o farei com detalhe, limitando-me a um apontamento. Não vou repetir o que pode ser encontrado noutros lugares a propósito do papel da instituição no mundo e no Portugal de hoje. José Pacheco Pereira acaba, aliás, de publicar um esclarecedor artigo sobre o tema."

Sobre isto, que dizer? Que o nosso "coimbrinha" perdeu uma boa ocasião de estar calado.

Não por que não tenha o direito ao dislate, ao disparate, mas por que, em principio, tem um "métier" a proteger, o de historiador.

Mas, relapso e incontinente, continua sem nos dizer nada de interessante ou substantivo da maçonaria:

"Limito-me a sublinhar cinco aspetos que me parecem ignorados por alguns dos muito comentadores e pseudo-especialistas chegados de repente não se sabe de onde. Em primeiro lugar, creio que vale a pena ter em conta que a sua origem iluminista – na vertente «especulativa», proto-jacobina, ou na mais pragmática e conservadora – confere à maçonaria marcas de protagonismo histórico que não podem ou devem ser apagadas. Em segundo lugar, convém lembrar que falamos de um organismo complexo, unido pela característica comum da fraternidade entre pares mas capaz de atitudes sociais e políticas muito diferentes, que têm por vezes produzido fortes clivagens. Em terceiro, será bom sublinhar que o secretismo, associado a códigos e praxes mais ou menos elaborados, teve como objetivo inicial a consolidação da organização face à repressão dos poderes «obscurantistas» que procurava eliminá-la, mas é hoje um fator antidemocrático, com traços deslocados e até algumas marcas de burlesco. Em quarto, é importante frisar que a formação, ao nível do conhecimento «iluminado» e enciclopedista, que presidia à identidade filosófica do maçon, de há muito foi ultrapassada e esquecida, substituída pelo papagueamento de verdades gerais mais assumidas de forma ritualizada, sublinhando a consistência simbólica ao grupo, do que de um modo militante, o que tem proporcionado a entrada de muitas pessoas sem formação e valores compatíveis com a suposta matriz da organização. Por último, em quinto lugar, é preciso reconhecer que existe ainda um bom número de maçons que o é de forma honesta, convicta e nobre, sem grande perceção do caráter ultrapassado da maioria dos valores fundadores da organização, da acentuada trivialização da sua identidade, e dos perigos que agora esta pode comportar para a própria sociedade democrática que um dia ajudou a fundar. Se tivermos em conta estes aspetos e evitarmos concentrar a análise nos episódios e nos pormenores, talvez cheguemos a um ponto no qual se possa compreender verdadeiramente a maçonaria, vendo que o mal não está nos seus princípios e nos seus rituais, por muito fora de moda que possam estar, mas sim em quem se serve deles, à margem da democracia ou da lei, para obter dinheiro, posição e poder."

Aqui, nesta ponta final, está tanto disparate, tanta vulgaridade, tanta vulgata, que não merece sequer que se perca tempo a desconstruir ou a criticar.

Um conselho, apenas.

Se quer, verdadeiramente, entender o que se passa com a Maçonaria, basta consultar o site do GOL, do GODF, GODB, ou alguns bons sites brasileiros.

Depois, historiador da história cultural, não é por você dizer que a Maçonaria está ultrapassada e que os seus valores fundadores ultrapassados se encontram, que tal desiderato ocorre. Isto vale para a maçonaria, como já valeu para a igreja católica. Os trabalhos de Daniéle Hervieu-Léger (Directeur d'Etudes à l'École des Hautes Etudes en Sciences Sociales à Paris) sobre este tópico aí estão para o provar e demonstrar.

As noticias da morte da maçonaria foram desagradavelmente exageradas.

A Maçonaria em Portugal, tirante esta manobras de contra-informação a pretexto de um guerra no interior dos serviços secretos da República, que nada têm a ver com ela, está pujante e recomenda-se, com Lojas a levantar colunas em todo o território nacional.

Os franceses, no seu último Covent, finalmente, admitiram em letra de lei a iniciação de mulheres nas suas Lojas, se assim o entenderem.

Na Bélgica, na melhor tradição de tolerância e de cooperação, abriu-se novas linhas de comunicação entre a Maçonaria e o Clero cristão.

Na Inglaterra, têm honras de Estado.O Duque de Kent é, tradicionalmente, o Grão Mestre da Augusta Ordem.

Nos USA, o poder de influência da Maçonaria está ao nível ou mesmo acima das Igrejas mais dinâmicas. Barack Obama é maçon.

Nas Constituições de Anderson, que você, percebe-se, claramente, não conhece, diz-se no "Artº 1, "A respeito de Deus e da Religião

Um Maçon é obrigado, pela sua condição, a obedecer á Lei Moral, e, se compreende correctamente a Arte, nunca será um Ateu estúpido nem um Libertino irreligioso. Embora nos Tempos antigos os Maçons fossem obrigados, em cada País, a ser da religião, qualquer que ela fosse, desse país ou Nação, julga-se agora mais conveniente obrigá-los apenas àquela religião com a qual todos os homens concordam, deixando a cada um a sua Opinião particular; isto é, serem Homens bons e verdadeiros, ou Homens de Honra e Honestidade, quaisquer que sejam as Denominações ou Crenças que se possam distinguir, assim, a Maçonaria torna-se o Centro de União e o Meio de conciliar uma Amizade verdadeira entre Pessoas que poderiam permanecer perpetuamente distanciadas."

Na única revisão que ocorreu, em vida de Anderson, este acrescentou-lhe os três princípios noaquitas, que, considerou ele, integram, plenamente o Ser e o Estar do Maçon (A Verdade, O Amor Fraterno e a Solidariedade).

Em que é que estes princípios estão demodés ou ultrapassados?

Aos historiadores recomenda-se que utilizem a diplomática para investigarem, estudarem, pesquisarem, confirmarem a verdade histórica.

Rui Bebiano, historiador, graduado Doutor e confirmado Professor, se quer escrever sobre maçonaria...estude, leia, fale, investigue, entreviste maçons.

Em Coimbra há muitos maçons e de grande estatura moral, intelectual e cultural.

E, sobretudo, sugiro-lhe um mínimo de prudência para não escrever insanidades ou disparates sobre uma "ciência que, obviamente, você, desconhece".

NB - Alguma ligeireza levou-me a "identificar" o Professor Fernando Catroga, pessoa que estimo,  historiador que admiro e que integra a minha biblioteca de aprendiz da arte e ciência historiográficas, e não só, com a condição de maçon.

Fernando Catroga enviou-me nota a corrigir tal afirmação.

Com o meu pedido de desculpas, como se deve e como me compete, publico-a aqui e de seguida:

"Neste post, verifico que o meu nome aparece associado à qualificação de "maçon". Venho esclarecer que a afirmação não corresponde à verdade. Com os meus melhores cumprimentos,
Fernando Catroga".


publicado por weber às 12:14
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