Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2012

A Livraria Camões morreu

No Brasil havia, faz muito tempo uma quase instituição, a livraria Camões, sedeada no Rio de Janeiro, propriedade da INCM, que muito fez pela divulgação da nossa cultura em terras de Vera Cruz.

Por razões de pelintrice estatal fechou as suas portas.

O actual SEC nem tugiu nem mugiu. Nada lhe aprouve dissertar.

Os responsáveis do Instituto Camões, aos costumes, chutaram para canto.

O nosso MNE, lesto na diplomacia económica, sobre cultura nada se lhe ofereceu dizer.

Não fora Vasco da Graça Moura discorrer, na coluna habitual que decora no DN, sobre tão infausto acontecimento, nem um desgraçado de um R.I.P. teria merecido tão prestimosa e longa obra.

Leiam as palavras do brilhante intelectual e desconcertante comentador politico, por aqui.

De que destaco estas:

"É aí que entra em cena um homem chamado José Manuel Estrela, gerente da livraria (na foto, dentro da "sua" livraria). Era uma espécie de Fernão Mendes Pinto do livro português. Mexido e desenrascado, com uma capacidade de improviso notável e um talento fora do comum para as relações humanas, conhecedor de todas as regiões e dialectos (vi-o mais de uma vez identificar a terra de origem dos seus interlocutores brasileiros pela maneira como falavam, qual prof. Higgins de My fair Lady), de todas as universidades e centros académicos, de todos os professores de literatura portuguesa, de todos os livreiros e sebos, e também de um grande número de bibliófilos, escritores e jornalistas, José Estrela imprimiu então um dinamismo notável à promoção da cultura portuguesa: circulava, con- tactava, mostrava, propunha, divulgava, empreendia, vendia, fazia o possível e o impossível...

 

Portugal nunca teve uma política cultural digna desse nome no Brasil. Tudo era feito sob o signo da pelintrice: lembro-me, por exemplo, de que para qualquer deslocação em serviço do conselheiro cultural, de Brasília ao Rio ou a São Paulo, a embaixada tinha de pedir autorização a Lisboa...

 

Os poucos e significativos resultados alcançados, embora quase sempre pontuais, ficaram a dever-se ao mérito e à acção de pessoas que, por uma razão ou por outra, tinham oportunidade de fazer alguma coisa, mesmo quando não dispunham de meios suficientes. E nisso, José Estrela não estava sozinho. Personalidades como António Alçada Baptista ou José Blanco, professores e críticos como Eduardo Prado Coelho ou Arnaldo Saraiva, agentes diplomáticos como Mário Quartin Graça (conselheiro cultural em Brasília) ou, mais tarde, Luís Filipe Castro Mendes (cônsul-geral no Rio), e mais alguns deram uma extraordinária contribuição em que puseram muito de engenho, empenhamento e carolice pessoais e, quantas vezes, dinheiro do próprio bolso."

 


publicado por weber às 13:26
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