Quinta-feira, 28 de Julho de 2011

Biografia De Um Inspector da PIDE...

O inspector escolhido é Fernando Gouveia.

A historiadora que se lançou neste trabalho rigoroso, Irene Flunser Pimentel.

O trabalho é de um folgo historiográfico invulgar, com riscos assumidos, não só pela historiadora, como pela cidadã.

O resultado: impressionante.

Como interessado e, de algum modo, aprendiz do "métier", com alguma leitura sobre as correntes, as metodologias, as escolas, fiquei rendido ao trabalho de Irene Pimentel.

É de uma exemplaridade absoluta, do ponto de vista da metodologia e riquíssimo na perspectiva do estudo da PIDE, do regime, e, de algum modo, do próprio PCP...

Hei-de voltar a ele, várias vezes.

Militei no PCP, de finais de 1975 a primórdios de 1990 (já com uma deriva criticista desde 1986...).

Conheci muitos dos militantes, dirigentes comunistas, que Irene Pimentel refere.

Fui mesmo genro de Joaquim Pires Jorge.

Tenho um filho, o meu mais velho, neto daquele, Joaquim Magro Jorge Soares de Albergaria. Filho, também, de Clara Magro Jorge, filha de Pires Jorge e de Helena Magro, irmã de José Magro.

Cheguei a ter na minha casa de Benfica, nos idos de 1976, quase TODOS os "vencedores" do "desvio de direita", que cilindraram Júlio Fogaça.

Desde quase sempre que este dirigente me "persegue".

Melhor dito: a "verdade" sobre o seu afastamento do Partido em 1961.

Particularmente, a questão da "homossexualidade" como "central", ou não, nesse processo de afastamento.

Em 2010 escrevi um longo post, com links para edições do Avante, e para trabalhos de São José Almeida sobre o tópico da homossexualidade durante o fascismo e no PCP.

Recupero aqui o meu "trabalho" e publico aqui: o pcp, a pide e a homossexualidade texto lido por São José Almeida, e da sua autoria, em Novembro de 2010, na livraria Ler Devagar.

Ora bem, aqui chegados, tanto eu como a jornalista do Publico concluímos pela não "centralidade" da homossexualidade de Júlio Fogaça na sua expulsão do Partido.

Já Irene Pimentel coloca a questão noutros termos, rigorosos, como não podia deixar de o ser, mas a "abrir" novas perspectivas.

Vamos citá-la.

A pp. 238 da obra referida, afirma: "Detido, em 28 de Agosto, em companhia de um homem, na Nazaré, Júlio Fogaça58 foi alvo de humilhantes perguntas e comentários, acerca da sua homossexualidade, por parte da PIDE e de Fernando Gouveia, que, nas suas memórias, aproveitou para revelar um grosseiro desprezo por esse dirigente comunista 59. Embora Fogaça tivesse tido um comportamento sem mácula, na PIDE, recusando responder às perguntas, o CC do PCP comunicaria, em Novembro de 1961, a sua expulsão, «por acções imorais, por graves faltas conspirativas» e «por gastos indevidos de dinheiro» 60.

Pois bem, nas notas referentes ao Capitulo VIII do livro editado pela Esfera dos Livros , 58, 59 e 60, respectivamente, a historiadora publica o que se segue:

58-Arquivo da PIDE/DGS, pr. 1664/35; «Júlio Fogaça: a história de um expulso" do PCP, Expresso, 2/2/1980.

59 - Fernando Gouveia, Memórias..., p. 193.

60- Arquivo da PIDE/DGS, pr. cr. 844/60, Júlio Fogaça, fls 28, 81-90 e 255. O Militante, de Julho de 1961, publicou uma resolução do PCP onde se dizia: «Não estando esclarecidos aspectos da conduta de Júlio Fogaça, que, embora não digam respeito ao seu comportamento ante o inimigo, revestem gravidade, o Comité Central resolve suspender Júlio Fogaça do Partido até apuramento de factos e resolução posterior», resolução, essa, que viria depois, com a sua expulsão, devido ao facto de ser homossexual. Em 4 de Dezembro de 1961, quando o PCP organizou a importante fuga de presos do Forte de Caxias, onde Fogaça estava então detido, este não teve lugar no rol dos fugitivos, pois já estava «"manchado" pela publicitação da sua homossexualidade e acabara de perder a guerra interna com Cunhal pela determinação da linha politica do PCP», que então acabara com o «desvio de direita».

Este é um ângulo novo, mas não esclarece, em definitivo, a centralidade da "homossexualidade" na expulsão de Fogaça, já conhecida dos dirigentes de topo, praticamente, desde 1935, aquando da sua primeira estada no Tarrafal. Edmundo Pedro, que foi seu companheiro no Tarrafal, tal me confirmou: "já então as sua preferências sexuais eram conhecidas, como praticadas, no Campo..."

Nunca tais gostos, preferências, escolhas, neste território, o impediram de subir na hierarquia partidária.

Contudo, tanto São José Almeida, como Irene Pimentel sublinham, de modos diferentes, uma questão importante: a publicitação pela PIDE da homossexualidade de Júlio Fogaça, referido pela historiadora, e, quanto à jornalista do Publico, esta, sublinha o facto de ele ter sido  julgado e condenado pela prática passiva e reiterada da homossexualidade...que era crime então, com enquadramento jurídico e penal.

Mas, a historiadora, afirma tão só que, a publicitação da sexualidade de Fogaça o "queimou".

Isso era suficiente para sustentar a expulsão? Terá contribuído? Admito que sim, mas continuo a pensar, que foi questão subalterna.

Cunhal era de um "ressentimento" sem limites e de enormes rancores.

Há histórias com Isabel de Aboim Inglês, Pires Jorge, com Piteira Santos, Mário Soares, com Maria Stella Bicker Correia Ribeiro Piteira Santos , Cândida Ventura, com Carlos de Aboim Inglês, Pedro Ramos de Almeida, com Flausino Torres, com o pai de José Miguel Júdice, Zita Seabra, com Raimundo Narciso...a lista é infindável, e ilustra, até à náusea, esse sentimento motor de Álvaro Barreirinhas Cunhal, tanto na politica, como na vida privada, se é que alguma vez a teve...

Contudo, tanto Júlio Fogaça, como Fernando Piteira Santos (isto seria outro contar, outra narrativa...) morreram "comunistas", nunca deixaram de o ser, malgrado os "processos" de que foram as vitimas.

O livro de Irene Pimentel é muito mais do que isto, que aqui deixo relatado.

O papel das mulheres, companheiras, algumas; activistas, dirigentes, poucas, aparece com uma luminosidade estonteante neste trabalho da historiadora.

Hei-de voltar a este tópico, que me interessa e perturba, particularmente.

Mas o livro é muito mais do que tudo isto, que já é bastante.

É, em meu entendimento, dos melhores livros de história da nossa contemporaneidade.

O olhar que temos sobre este período da nossa história pode ser balizado desta maneira: antes e depois de se ler o livro "A Biografia De Um Inspector...".

Porquê?

Fornece chaves interpretativas para a relação PIDE/PCP, mas não só.

Sublinha o papel central e centralizador do ditador Salazar na repressão, nos métodos e nos resultados da mesma.

Não é opinoso, como se obrigam os grandes historiadores.

Imprescindível, pois.

De leitura obrigatória.


publicado por weber às 18:23
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