Quinta-feira, 23 de Junho de 2011

"Vitórias e derrotas": os independentes

A crónica hebdomadária de Maria José Nogueira Pinto, hoje publicada no DN, agarra muitos e variados temas.

O pretexto agregador é o "independente" Fernando Nobre, mas, depois, vai para além dele e da sua circunstância.

Pode ler a prosa desta mulher combativa, corajosa, com sentido de serviço público e capaz de colocar as coisas em perspectiva, muito para além do remanso do quotidiano e da espuma dos dias.

Mas, peguemos-lhe na problemática, bem suscitada, dos "independentes" e do interesse que provocam nos Partidos de banca montada.

Os inventores dessa "categoria", quase antropológia, mas de sociologia politica certa, foram, nem, podia ser de outra maneira, os comunistas  de Álvaro Cunhal.

Aquela fórmula, em que destacava os seus militantes, comunistas,  do seu partido e, depois, distinguia os "outros", com fórmulas singulares "anti-fascistas", e "outros democratas", designadamente.

As alianças amplas dos comunistas, sempre privilegiaram os "independentes".

O PCP distingue-se, ainda hoje, por produzir e acantonar no limbo da "independência" comunistas "afastados" ou "destacados" para assumirem esse desígnio.

O caso do Partido Ecologista "Os Verdes" é paradigmático, como antes tinha ocorrido com o MDP/CDE...

Todos sabemos que os seus dirigentes são "militantes" comunistas "adormecidos", (utilizando a fórmula da maçonaria...) mantendo uma ligação orgânica ao "partido", mas não tendo actividade pública que os comprometa.

Em tempos, foi Zita Seabra, então membro da Comissão Política do CC do PCP a "controleira" da célula de "Os Verdes", integrada, entre outras, por Maria Santos, actual militante do Partido Socialista.

A tese cunhalista prendia-se com o carácter "vanguardista" do PCP, que os remetia para um gueto redutor, encolhendo assim a sua margem de progressão e influência na sociedade.

Uma coisa era a classe operária (hoje, entidade muito difusa...) outra era a pequena burguesia urbana, o campesinato, os pequenos industriais e comerciantes, a pequena burguesia letrada, as profissões liberais.

Daqui, Cunhal, partia para um emaranhado e complexo sistema de alianças, que, no pós 25 de Abril resultaram em FEPU, APU e agora CDU...

Mas, esta marca "independentes" migrou para os outros partidos políticos da paleta politico-partidária portuguesa.

O seu interesse aumentou, a sua cotação de mercado disparou nas Bolsas da actividade politica em Portugal.

Os casos são mais que muitos.

Há até, um fenómeno curioso.

Ex-militantes de muitas plataformas partidárias (ex-MRPP; ex-UDP, ex-PCP; ex-PS; ex-CDS...) que, em período de nojo, foram assumidos como "independentes" e, depois passaram a integrar as fileiras dos partidos anfitriões. Os exemplos são às dezenas...

Contudo, Maria José Nogueira Pinto, não valoriza, através do caso Fernando Nobre, esta dimensão do alargamento da influência social, politica, económica, veja-se até cultural, ou mesmo religiosa, mas sim as "competências" técnicas, cientificas que os "independentes" devem ter. Estará, porventura, a "trabalhar" já com os independentes que integram o elenco do actual governo...pode ser.

Mas, Passos Coelho, em relação a Fernando Nobre sempre, recorrentemente, quando dele falava, utilizou a expressão, quase nova categoria antropológica enfatizada: "um verdadeiro independente".

Ainda no rescaldo da "derrota" do candidato a Presidente da A.R., o presidente do PSD, insistia nessa "mais-valia" do médico da AMI:(...)"a AR perdeu a oportunidade de ter como seu presidente, e pela primeira vez, um verdadeiro independente".

Mas, penso eu, que há uma outra dimensão que têm os independentes, que pode ter utilidade salientar. À semelhança do que o Pe. Anselmo Borges sustenta, na perspectiva de uma urgente aliança de civilizações, religiões, de um diálogo inter-religioso, para os ateus e agnósticos, os "independentes da fé", os "crentes" sem um Deus, e cito "DESTE DIÁLOGO FAZEM PARTE TODOS OS SERES HUMANOS, TAMBÉM OS ATEUS. POR DUAS RAZÕES FUNDAMENTAIS. EM PRIMEIRO LUGAR, PORQUE O QUE, ANTES DE MAIS, NOS UNE A TODOS É A HUMANIDADE E O QUE SE REFERE À HUMANIDADE. ORA, TAMBÉM A RELIGIÃO E AS RELIGIÕES SÃO QUESTÃO DE HUMANIDADE. DEPOIS, PORQUE FORAM E SÃO ELES – OS ATEUS E OS AGNÓSTICOS – QUE PODEM PREVENIR PARA O PERIGO DA SUPERSTIÇÃO E DA DESUMANIDADE DAS RELIGIÕES."

Ora, cumpre aos independentes, em politica partidária, esse papel maior, o de "humanizarem", tornarem "real" os partidos e a sua necessária actividade militante.

Os "independentes", quando verdadeiros e livres podem ter esse papel de cidadania primeva, sem antolhos parciais, sem a devoção a um líder, qualquer que ele seja.

Esta dimensão dos "independentes" é, não só, pouco utilizada, como, as mais das vezes, é factor de cizânia e de desconforto.

Veja-se o "processo" que domina a actualidade e divide o Bloco de Esquerda de Louçã, em que se deixou enredar o independente "bloquista", o historiador Rui Tavares, eurodeputado, para percebermos o quão difícil é para os partidos e as suas liderança lidarem com a "independência" dos "independentes".

O PCP, na boa óptica leninista, teve, sempre, uma visão utilitária dos "independentes". Como gosto de o sinalizar, a visão do "preservativo": usa e deita fora.

Esta questão, dos "independentes" em politica, em actividade de governação, a que escala os consideremos, é dossier recorrente, que ocupa, mais ou menos espaço mediático, quanto maior é a visibilidade dos ditos.

Fernando Nobre ainda dará muitas noticias, cada vez menos, até se esgotar...naturalmente.


publicado por weber às 13:15
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