Terça-feira, 21 de Setembro de 2010

"Holodomor"

 

Poucos saberão do que estou a falar, que significado tem esta palavra.

Inventada na Ucrânia em 1990 para ilustrar o que ocorreu nos anos 1932-33, a "grande fome".

Contudo, com a maiúscula inicial, adquiriu um significado dramático.

A semântica original decorre do seu carácter compósito.

Duas raízes, pois.

A primeira, golod, que significa fome, na lingua ucraine. Ao qual acresce mor, raíz do verbo moryty que vale por esgotar, extenuar, deixar sofrer sem intervenção.

Esta palavra traduz, pois, a intenção de matar pela fome.

Em Novembro de 2006 o parlamento ucraniano votou uma lei que declara, no seu artigo 1: «O "Holodomor" é um genocídio contra o povo ucraniano.» No seu artigo 2, diz-se, explicitamente: «a negação publica do "Holodomor" é uma afronta à memória das vitimas, um atentado à dignidade do povo ucraniano..»

Entretanto os deputados russófilos, com assento no parlamento de Kiev, opuseram-se a esta classificação, dado que esta chacina foi praticada pelas politicas agrárias de Estaline... Sustentam eles que não há uma singularidade ucraniana, definindo-a "como um efeito colateral" posto que consequência da colectivização "indispensável" à industrialização leninista, a marcha forçadas, e para...eliminar os inimigos do regime bolchevista: os "camponeses ricos" (Koulaks, em russo e Kourkouls, em ucraniano).

No período pós-soviético, de implosão do império, os ucranianos sentiram-se atraídos pela emergência duma nova identidade nacional construída sobre a vitimização face às humilhações e malfeitorias sofridas pela acção da etnia russa. Neste processo o Holodomor tem um papel central, direi mesmo, refundador.

Trava-se uma batalha tremenda entre historiadores ucranianos, que sustentam o carácter de genocídio da politica perpetrada por Estaline e que terá provocado entre 3,5 milhões e 12 milhões (número maior...). No mesmo processo Estaline dizimou as elites ucranianas (cerca de 200 mil).

Mas, na Rússia, uma corrente de historiadores herdeiros da historiografia soviética, dita "historiadores. agraristas" sustenta que não há uma especificidade ucraniana, pois ocorreram, na mesma altura, fomes no Kazaquistão, nas regiões do Volga, nos Urais, no Kuban, junto ao Caucaso, território dos Cossacos. A démarche destes historiadores insere-se num movimento de revalorização do papel de Estaline, do seu regime, em que o ditador terá assumido o papel de um "super empresário eficaz", que levou a URSS a ocupar o segundo lugar no concerto das potências industriais. Estes mesmos historiadores sustentam que nenhum dos arquivos de Estaline permite fundamentar, de modo contudente e claro, a tese dos ucranianos.

Contudo, aqui é que bate o ponto, só estes historiadores russos, de que se destacava V. Danilov, falecido recentemente, tinham acesso a esses arquivos. Os historiadores ucranianos, defensores do Holodomor, esses, bem, esses...nem a uma miserável cópia de um qualquer funesto documento têm direito.

Assim é a história, quando os acontecimentos a que ela presta atenção ainda são objecto de batalhas politicas e nacionalistas.


publicado por weber às 11:26
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