Quarta-feira, 11 de Janeiro de 2012

A história que nos deixa, aparentemente, perplexos

Ferreira Fernandes, de quem aqui gostamos, apreciamos e, as mais das vezes concordamos, hoje coloca-nos um desafio interessante para os tempos hodiernos e para ilustrar que a história se constrói com "se's".

Parece que um escritor inglês terá escrito obra de "história" a partir de se's, utilizando factos que não tinham ocorrido e, por essa via, a reescrita da história seria possível.

Mas vamos à história e, depois, tratamos do problema que ele coloca e com o qual nos interpela.

Por comodidade argumentativa, vamos publicá-la de seguida:

'É uma daquelas histórias bonitas - até certo ponto, porém -, boa de contar mesmo quando é antiga. Estranhamente, o jornal popular inglês Daily Mail chamou-lhe: "Talvez o mais terrível ato de generosidade da História." Outros jornais europeus pegaram no assunto e as caixas de comentários têm fervilhado. Vamos à história. Num dia de janeiro de 1894, em Passau, cidade da Baixa Baviera, uma criança de quatro anos caiu ao gelado rio Inn e estava a afogar-se quando um rapaz o salvou. Por esses dias, um jornal local, o Donauzeitung-Danube - Passau é "a cidade dos três rios", juntam-se lá o Inn, o Ilz e o Danúbio -, narrou o ato abnegado, não dando nome aos intervenientes mas, porque a sua linha editorial era de esquerda, chamou "camarada corajoso" ao salvador. Este, Johann Kuehberger, tornou-se padre e, muitas décadas depois, passou a paróquia ao padre Max Tremmel, que foi famoso organista, na catedral de Passau. O padre Tremmel na década de 80 revelou que o seu antecessor lhe dera a identidade do rapazito salvo. Uma escritora, Anna Elisabeth Rosmus, em 2004, contou o episódio num livro sobre Passau. E, agora, com a descoberta da notícia original do Donauzeitung-Danube, dando credibilidade ao que se contava sobre o antigo salvamento, os jornais de todo o mundo puseram-se a contar a história. Daí ter-se aberto a discussão: não valia mais que o futuro padre Kuehberger não tivesse salvado o pequenito Adolfo Hitler?'

Não. Claramente que não.

Eu percebo a brincadeira, o jogo de espelhos que o cronista utiliza. Mas, não. Primeiro porque os dados do problema, ab initio, são:

1/ Uma criança que se afoga;

2/Um jovem valente que, na margem, observa.

O que fazer, pois? O que o jovem "camarada" fez, lançar-se ao rio gelado e resgatar o "menino".

Não tem nenhum grau de dificuldade moral este problema.

Outra coisa diversa é "brincarmos" com a possibilidade de a criança que se estava a afogar, o "judeu", austríaco (na foto, quando jovem), ter morrido nesse infausto incidente.

Pergunto eu, directamente ao cronista, a história teria sido diferente? Claro que não. Teria outros protagonistas, teria outros matizes, mas teria sido, exactamente como foi. Eu sei que a minha tese é polémica. Tanto mais que eu, e outros historiadores com banca instalada faz muito tempo, sustentamos, cada vez com mais intensidade, a importância do individuo como ferramenta da história.

Mas Hitler, foi apenas e tão só o instrumento singular de um tempo que foi capaz de o criar. O tempo, as circuntâncias, o criador e a criatura criada.

Cita-se muitas vezes, e mal, incompletamente, uma frase de um maçom espanhol, filósofo, Ortega y Gasset. Diz-se: "O homem é ele e as suas circunstâncias."

Ainda ontem o pequeno politico social-democrata, Marques Mendes, no TVI24 a citou assim.

Pois, mas a frase é outra:"Eu sou eu e a minha circunstância - e se não a salvo a ela, não me salvo a mim."

Mais retórica, para quê?

Histórias destas, desconcertantes, de encontros improváveis e de desfechos irónicos, ou desastrosos, à posteriori, há-as aos milhares. Esta, contada pelo jornalista do DN é, apenas, uma delas.

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publicado por weber às 11:36
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