Sexta-feira, 16 de Março de 2012

Os Estados totalitários

Hannah Arendt judia, alemã, filósofa de formação, interessou-se, e muito, pelos fenómenos da politica.

É autora de um volumoso tratado sobre as origens do Totalitarismo, centrando-se, não exclusivamente, nos casos do Nazismo alemão e do Comunismo soviético (na foto Estaline e Lenine, os perpretadores do Estado Soviético, ...), que são, para ela, os paradigmas e, em bom rigor, os únicos casos "perfeitos" de Estados Totalitários.

As últimas páginas do livro são de uma genialidade comovente.

"A única capacidade do espirito humano que não precisa do eu nem dos outros nem do mundo para funcionar sem medo de errar, que é independente tanto da experiência como do pensamento, é a capacidade do raciocínio lógico, cuja premissa é aquilo que é evidente por si mesmo. As regras elementares da evidência irrefutável, o truísmo de que dois e dois são quatro, não se podem perverter mesmo na solidão absoluta. É a única «verdade» segura em que os seres humanos podem apoiar-se quando perdem a garantia mútua, que é o senso comum, de que necessitam para sentir e viver e encontrar o seu caminho num mundo comum. Mas essa «verdade» é vazia ou, antes, não chega a ser verdade, uma vez que nada revela. (...) como observou certa vez Lutero (cuja experiência dos fenómenos da solidão e da vida a sós provavelmente não foram suplantadas pelas de ninguém e que uma vez ousou dizer que deve «existir um Deus, porque o homem precisa de um ser em que possa confiar») numa frase pouco conhecida acerca das palavras da Bíblia «não é bom que os homens estejam sós»; o homem solitário, diz Lutero, »deduz sempre uma coisa atrás da outra e pensa sempre o pior de tudo». (...) O que prepara os homens para o domínio totalitário no mundo não totalitário é o facto de a solidão, que já foi uma experiência fronteiriça, sofrida geralmente em certas condições sociais marginais como a velhice, ter passado a ser, no nosso século, a experiência  diária de massas cada vez maiores. O impiedoso processo no qual o totalitarismo mergulha e organiza as massas parece uma fuga suicida dessa realidade. (...) Prende-o no cinto de ferro do terror mesmo quando ele está sózinho e o domínio totalitário procura nunca o deixar só, a não ser na situação extrema da prisão solitária. (...) Mas permanece também a verdade de que todo o fim na História constitui necessariamente um novo começo; esse começo é a promessa, a única «mensagem» que o fim pode produzir. O começo, antes de se tornar evento histórico, é a suprema capacidade do Homem; politicamente, equivale à liberdade do Homem. Initium ut esset homo creatus est - «o homem foi criado para que houvesse um começo», disse Santo Agostinho. Cada novo nascimento garante esse começo; ele é, na verdade, cada um de nós."

O livro da filósofa alemã é de um enorme folgo, no qual faz intervir a história, alguma economia, a psicologia social, a antropologia, alguma psicanálise e MUITA politica.

O livro foi terminado, em manuscrito, em 1949, quatro anos após o final do conflito de 2ª guerra. Teve, depois, múltiplas edições em dezenas de línguas.

A que eu utilizei é a 4ª, em português, de 2010, publicada nas edições D. Quixote.

Livro ainda hoje de leitura obrigatória.

Os especialistas, em cada uma das suas disciplinas, aprofundaram os estudos de Hannah Arendt, dos dois Estados Totalitários e de cada um de per si, com as suas singularidades, com os seus métodos, com as suas retóricas e narrativas próprias. Mas este ensaio, o primeiro com este alcance, ficará como um marco no estudo das monstruosidades perpetradas e comanditadas por Hitler e Stalin.


publicado por weber às 20:03
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