Sábado, 12 de Março de 2011

O meu testemunho

Nasci na Maia, Distrito do Porto, no dia 16 de Novembro de 1946.

A Europa, e não só, estava então TODA destruída.

A 2.ª Guerra Mundial tinha terminado em 1945.

As condições de vida e de trabalho em Portugal (é recuperar as estatísticas de então) eram tremendas.

Nesse tempo poucas casas tinham electricidade, àgua canalizada ou estavam ligadas a uma qualquer rede de esgotos.

Em muitas casas, uma sardinha grande dava para uma famila de cinco pessoas.

Os trolhas iam da Pinta, a pé, até Gaia, para as obras. Faziam 40 quilómetros diários.

Podia dar outros referenciais.

Estes chegam.

Não havia liberdade de qualquer espécie.

Em 1961 tinha eu 15 anos.

Tinha-se então dado inicio às Guerras Coloniais, que durariam até 1974.

Em 1964 fui às sortes (inspecção militar) e fui dado, como até o doido da terra, apto para todo o serviço militar.

Em 1967 estudava eu no 2.º Ano do Curso de Química do Instituto Industrial do Porto, trabalhava num centro de cópias e, por implicado em actividades politicas contra o regime fascista de Salazar, fui procurado pelas 07, 00 horas da manhã, de um dia de 1967, era o mês de Novembro, em minha casa (de uns tios meus), na Rua Faria Guimarães, no Porto por uma brigada da PIDE (policia politica) para me levarem para a Rua do Heroísmo, mesmo ao lado do Cemitério do Prado do Repouso onde estavam sedeados.

Por um fortuito acaso, tinha saido mais cedo, exactamente para ir à sede da dita policia, com uma delegação de estudantes, para sabermos do nosso companheiro Nozes Pires, que ali estava encarcerado e a ser torturado!

Quando estavam em minha casa a perguntarem por mim...estava eu na casa deles! Ironia.

Depois, bem, andei a monte "à rasca", "enrascado", cheio de medo, à procura de me pôr a salvo e fugir para França.

Com a ajuda de amigos ( de que aqui já destaquei o João Tunes, a quem devo a minha liberdade), durante um mês andei fugido, a dormir aqui e ali, até que uma organização de passadores da Póvoa do Varzim me colocou na fronteira francesa, exactamente a dia 13 de Janeiro de 1968.

O meu pai tinha conseguido uma fortuna então para pagar a minha fuga, 11 contos de reis, preço de favor, pois a média era de 20 contos por pessoa.

Chegado a Paris andei a dormir aqui e ali, a comer aqui e acolá, desfrutando da solidariedade de compatriotas.

Com o apoio da CIMADE, organização patrocinada pelas igrejas calvinistas da Suíça, operacionais durante a 2.ª Guerra Mundial contra o ocupante nazi, também durante a Guerra da Argélia e apoiantes de "refugiados políticos" de Portugal, Espanha, Grécia na década de sessenta e etc. Tive roupa, calçado e arranjaram-me emprego como ajudante de cozinha no Hotel Castiglioni, mesmo junto ao palácio do Eliseu, em Paris.

Envolvi-me no Maio de 1968 , fui preso e expulso.

Fui para Bruxelas, ilegal, sem conseguir regularizar a minha estada.

Trabalhei, clandestino, sem segurança social, num Museu, num armazém de mercearias, num Banco, numa cantina universitária e vivia em camas emprestadas.

Depois fui para a Holanda. Trabalhei ilegalmente numa pequena metalúrgica e fui explorado por uma portuguesa que me alugou umas águas furtadas e me comia quase todo o meu "salário".

Podia estar um dia inteiro a contar-vos a minhas aventuras, que passaram, depois, por Bruxelles outra vez, ainda por Paris, depois e novamente por Bruxelles, depois por Lisboa, depois ainda por Moscovo e, finalmente por Lisboa.

Tive mais de 60 empregos.

Vivi em cinco países diferentes.

Tive mais de setenta moradas.

Este ano faço 65 anos, vou poder meter os papéis para a reforma.

Este ano vou terminar o meu Curso de História (já perfiz as cento e vinte unidade de crédito do Maior e faltam-me dezoito unidades de crédito do Minor em História da Religião) e, depois, se continuar vivo, vou lutar para fazer coisas, criar coisas.

Provavelmente irei trabalhar para uma cozinha, ajudar a empratar, ou a preparar legumes, numa organização de voluntariado, ou o que seja.

Sabem porquê? Por não sou parvo, meço um 1,81 e NUNCA tive vergonha de fazer aquilo que se me oferecia.

Se puder dar formação na minha nova área de competências, História, fá-lo-ei.

Mas, aquilo de que tenho a certeza, é que não ficarei parado à espera que me caia do céu dos pardais uma qualquer oportunidade de acordo com o meu grau académico.

É preciso não deixar para amanhã o que se pode fazer hoje.

Ouçam o génio António Variações, aquele poema fantástico, feito por um barbeiro minhoto, que tinha uma ambição cultural que ia da aldeia dele a Nova York.

Inspirem-se nele e menos naquele "fatum" carregado de ambiguidades de um dos grupos que mais admiro os Deolinda.

À rasca, enrascados andávamos NÓS, os que lutamos contra a ditadura, os que sofreram anos de cadeia, torturas inenarráveis, os que foram para a Guerra matar, que lá morreram, que de lá vieram estropiados e que ainda hoje "convivem" com a síndrome pós-guerra e...que são dezenas de milhar.

À rasca estiveram os mais de 5 milhões de imigrantes que se disseminaram pela França, pelo Luxemburgo, pela Bélgica, pela Holanda, pela Alemanha, pela Austrália, pela Venezuela, pelo Brasil, pelos USA, pelo Canadá e que equilibraram durante anos a fio, décadas a fio as contas públicas e as nossa finanças pública.

À rasca viveram os nossos emigrantes em Paris, a dormir nos "bidonvilles", em camas sempre quentes, pois eram utilizados em cada oito horas, por três trabalhadores diferentes...

Um dia destes falarei desta geração que se assume como estando à rasca.

Falar-vos-ei do meu filho Joaquim Albergaria, que tem trinta anos e do meu outro filho que tem 18 anos.

Se tiver vagar, falar-vos-ei doutros jovens e doutras gentes.

Dir-vos-ei do meu muito querido amigo Diogo, que acabou, em Janeiro de 2011 uma licenciatura em multi-média e está em Londres, a viver em casa de amigos, com um outro amigo português, que está a trabalhar como ajudante de barman...

Já perceberam onde quero ir com esta conversa, velho que sou, mas querendo dar o meu quinhão para este debate, que está cheio de ambiguidades e mistificações.

Nota - Cartaz surripiado no "águalisa6".

Claro que eu não vou à manif.

Porquê?

Porque não sou desta geração: por que não estou à rasca; por que acho, tal como na batalha naval, quem lá fôr vai dar  tiros na água.

Há sítios onde investir melhor as energias criativas. 

O que é preciso, em meu modesto entendimento é: perseverança, humildade, criatividade, e luta, não contra ninguém, mas por um trabalho, uma actividade, um lugar, modesto que seja, mas activo.

E há tanta coisa para se fazer em Portugal, ou na Europa, ou no Mundo!

Tenham coragem.

Não tenham medo.

Mostrem-se à altura do tempo que vos foi dado viver.

Tal qual como muitos de NÓS, os mais velhos, o fizemos em pleno fascismo e, antes de NÓS, os nossos pais e até, nalguns casos, os nossos avós.

O futuro será vosso, se assim o quiserem e fizerem por o merecer.

Senão...só vos resta o passado, com pouco presente e nenhum amanhã.


publicado por weber às 13:08
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