Domingo, 10 de Janeiro de 2010

As paixões de Francis Bacon

Cumpriu-se, em 2009, os cem anos do nascimento de um dos maiores pintores do século XX.

Francis Bacon nasceu em Dublin em 1909 e morreu, exactamente, em Madrid em 1992, onde decorre, no Museu do Prado, uma monumental Exposição da obra deste ser dilacerado pela paixão e pelo horror.

O museu do Prado era uma das suas paixões, pois ali se encontravam as obras maiores dos seus "mestres", Goya e Velázquez.

Bacon resgatou, dos mestres, para a sua pintura infestada de vómitos, vísceras, mutilados, nacos de carne pútrida.

Inspirando-se na religiosidade das pinturas de antanho Bacon fê-las conviver com os seus monstros, com os seus fantasmas.

Dizia Bacon:

- Quando vou às chacinarias, aos matadouros, penso como é surpreendente que eu não esteja ali em lugar dos animais.

Francis Bacon sempre cultivou um humanismo despido de "humanidade".

Chamaram-lhe o "retratista dos horrores do século XX", pois que as suas telas parecem querer aflorar os linchamentos da guerra civil da sua infância na Irlanda ou dos horrores do genocídio nazi que marcou a sua geração.

Filho de um duríssimo militar, criador de cavalos, que de manifesto prenunciou que aquele não era, nem nunca seria, o filho que desejou ter.

Francis era fraquito, arqueado sob uma asma crónica e que fugi amiúde do colégio.Bacon falou do pai, mais adiante. Dizia que dava instruções aos seus colegas  para o sovarem com o pingalim de montar cavalos.

 O dia em que o pai o descobriu, frente ao espelho, vestido com as roupas interiores da mãe atirou-o, sem olhar para trás, para a rua.

Francis teria então dezasseis anos e partiu para Londres.

Para além de uma pequena mesada enviada, regularmente, pela sua mãe viveu de expedientes: roubos e de acompanhante de cavalheiros.

Viveu os tempos loucos da Berlim da Weimar, com umas chispa cultural impressionante.

Foi-se a Paris onde uma esperava uma epifania: Uma exposição de quadros de Picasso. Foi o clic, a revelação.

De retorno a Londres, depois de uma breve e fugaz experiência de decoração, cedo se lançou às telas.

Perfeccionista à "outrance" muitas das suas telas foram "apunhaladas", desmontadas, estilhaçadas.

A sua primeira "obra prima" vê a luz do dia em 1944, quase no final da guerra, na qual não participa por via da sua asma crónica. O titulo da obra, "Três estudos para figuras na base de uma crucifixação" (imagem encima deste texto).

No topo do texto uma obra de 1946, que ilustra à saciedade TODO o percurso pictórico de Francis Bacon.

Terrível alegoria!

Baco, notório ateu, não aludia à morte do Cristo como sinal de esperança, mas sim como legenda de desumanidade.

A obra fez furor e em 1948 o Museum of Modern Art comprava o seu primeiro Bacon.

Em 2008 Roman Abramovich comprou um Bacon por 86 milhões de $$UD.

Bacon foi uma personagem notável.

Podre de contradições.

O seu amigo e biógrafo, Michael Peppiat, afirmou que Francis era feito de contradições, de pura ansiedade e de um perpétuo estado de tensão. "Podia vir de uma orgia alcoólica com gabirus do Soho e, de seguida, sentar-se a tomar chá com hirtos e estilosos coleccionadores..."

Bacon, animal social, tinha um carisma fora do comum.

Só ele se atrevia a mandar calar a princesa Margarida quando esta, delicada, tentava obsequiar os seus convidados com cantos...

Francis tinha o dom de explicitar os piores demónios dos seus parceiros e amantes.

Em 1952 conheceu um piloto de aviação, Peter Lacy, em Tânger. Não resultou. Lacy foi levado quase à loucura.

Na noite em que Bacon inaugurou a sua primeira exposição, na Tate Gallery, de Londres, nos telegramas de felicitações, encontrou um que lhe anunciava a morte do amante.

Em 1971 a história repetia-se.

Quando brindava na vernissage da sua retrospectiva, no Gran Palais, em Paris, recebeu a noticia que o seu amigo e companheiro, George Dyer, ladrãozeco, se tinha suicidado com um cocktail de álcool e e soníferos.

Bacon imortalizou este seu companheiro, mais trade, num soberbo retrato: "Sensacional e sensacionalista", escreveu um critico.

Bacon faleceu em Madrid quando de visita ao seu enigmático, e para sempre desconhecido, amante espanhol, um jovem rico, possivelmente banqueiro e chamado José.

Malgrado estas aventuras e escapadelas, ao artista nunca se lhe varreu do coração e da cabeça, John Edwards, possivelmente seu grande amante e, nas palavras do próprio Bacon "o meu único amigo".

Conheceram-a em meados dos anos oitenta como barman e cliente e nunca mais se separaram.

Edwards era analfabeto devido a uma severa dislexia.

Mas, sem embargo, terá oferecido ao velho pintor, intoxicado pela adulação e o lambe-botismo, algo que ninguém lhe conseguia oferecer: sinceridade.

Aquando da sua morte, o pintor deixou o "establishment" artístico em estado de choque, quando se soube que tinha deixado TODA sua fortuna, 11 milhões de Libras, ao seu amigo.

Edwards fez bom proveitoso uso da herança.

Foi para a Tailândia, onde veio a falecer com 53 anos, decorria o ano de 2003.

Na sua conta bancária sobravam uns modestos trocos:

800 000 libras.

Em Dezembro de 2008, no Colony Room Club, um dos Bares favoritos de Bacon, no Soho londrino, expôs-se uma montagem, na qual se percebia uma foto nunca antes vista. O cadáver de Bacon, na morgue, envolto numa bolsa de plástico transparente.

Um fetiche de Francis Bacon, que o acompanhou em vida e que se cumpriu na sua morte.

J.A.


publicado por weber às 11:37
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