Quinta-feira, 10 de Novembro de 2011

Ethos, Logos e Pathos

Esta trilogia da hélade, Ethos, Logos e Pathos, ainda tem cultores na Grécia contemporânea.

Depois de se ler este comovente post lavrado e adubado pelo nosso embaixador em Paris, percebe-se que o "defenestrado" primeiro-ministro Giorgio Papandreou é cultor desta geometria do triângulo perfeito.

Mas, já que aqui estamos, contar-vos uma história verdadeira ocorrida no pós 25 de Abril, nos corredores da Assembleia da República.

O deputado eleito pelo CDS para a I Legisalatura, em 1976, Narana Coissoró (na foto) cruzou-se com o deputado do Partido Socialista, resistente anti-fascista, dos mais bravos e resiliente, Edmundo Pedro, o mais jovem encarcerado no Campo do Tarrafal, com um trilho de prisões a perder de vista, durante o fascismo. Estacou diante do socialista e disse-lhe, emocionado: - Quero agradecer-lhe por não se ter transformado, de perseguido, de ofendido, em carrasco. Poderia tê-lo feito, por compensação, mas de tal se desincumbiu.

Uma outra história, esta, quase pícara, passou-se ainda com Narana Coissoró e o comunista Carlos Brito, à data Presidente do Grupo Parlamentar do PCP.

Saído da sede do PCP, na rua Soeiro Pereira Gomes, encaminhando-se a pé para o Metro, cruzou a Praça de Espanha e logo observou um ajuntamento de pessoas. Abeirou-se, curioso, e, pasmo, reconheceu o deputado Narana Coissoró, deitado no passeio, sofrente. De supetão chamou, então o 115, e acompanhou o democrata-cristão, na ambulância, até ao Hospital de Stª. Maria e só de lá saiu quando recebeu informações médicas que, tudo, estava bem e sobre controlo.

Histórias pequenas, mas que denotam a qualidade dos intervenientes e a importância da "fraterna" convivialidade entre actores, em democracia, de diversas companhias ou agremiações partidárias.

A história de Papandreou é exemplar, mas a destes três portugueses, Edmundo Pedro, Narana Coissoró e Carlos Brito, à sua escala, e nas circunstâncias nacionais, não o são menos.

Mas, leia-se de um trago,o belíssimo post de FSC:

'Georgios Papandreou foi ontem eleito primeiro-ministro da Grécia. Desde o tempo em que foi secretário de Estado e depois ministro dos Negócios Estrangeiros do seu país, Georgios anima anualmente um clube internacional de discussão, para o qual tive o privilégio de ser por ele convidado algumas vezes - o Symi Symposium. António Guterres e Jaime Gama foram os outros portugueses presentes nessas reuniões, que têm uma composição variável. Por lá passaram já Bill Clinton, Amartya Sen, Joseph Stiglitz, Richard Holbrook, Fernando Henrique Cardoso, Yossi Beilin, Ségolène Royal, etc. São encontros com cerca de 25 pessoas, cada uma de sua nacionalidade, realizados sempre em locais diferentes da Grécia, nos quais, durante uma semana, se pensa livremente o mundo e, muito em especial, a Europa. Houve um desses debates, creio que em 1999, que nunca mais esquecerei. Estávamos no tempo imediatamente posterior à grande crise do Kosovo e, à mesa, desencadeou-se uma acesa discussão entre uma resistente sérvia, aberta opositora de Milosevic, e um intelectual kosovar, recém-saído de meses de clandestinidade em Pristina. Num certo momento, o kosovar, num óbvio excesso de argumento, volta-se para nossa amiga sérvia e ataca-a da seguinte forma: "tu podes ser pró ou anti-Milosevic, mas o problema que nunca poderás ultrapassar é o facto de seres sérvia!".Todos ficámos gelados! O ambiente de diálogo e cordialidade que caracteriza, desde há vários anos, aquelas reuniões, que não impede discussões acesas e vivas, nunca terá chegado a um extremo tal de agressividade, muito fruto de um tempo de tensão balcânica cuja conflitualidade inter-étnica ficámos, naquele instante, a perceber bem melhor. Foi então que, com o seu ar sereno, no tom suave que nunca perde, Georgios interveio. E fê-lo para contar uma história, que se tinha passado consigo, já há muitos anos. Durante a ditadura militar grega, o seu pai, Andreas Papandreou, que mais tarde viria a ser primeiro-ministro, encontrava-se na clandestinidade. Uma noite, o exército invadiu a casa da família de Georgios, que era então adolescente, e levou-o de carro para uma qualquer zona da Grécia. Umas horas mais tarde, ao chegarem a uma moradia isolada, cercada pela tropa, Georgios viu o oficial que o detivera e que comandava o grupo pegar num megafone e dirigir-se à habitação, que logo compreendeu ser o esconderijo onde estava o seu pai. O oficial gritou então para que Andreas Papandreou se rendesse, informando-o de que tinha ali o seu filho, que prenderia se ele não se rendesse, tudo isto acompanhado de outras ameaças violentas. Perante este cobarde ultimatum, o pai Papandreou entregou-se e foi preso. A história que Georgios nos contou tinha um significado que ele pretendia projectar no ambiente de tensão que se criara no nosso debate. Porque acrescentou: "na passada semana, encontrei casualmente o militar que fez essa chantagem comigo e com o meu pai, utilizando-me como refém. Estendi-lhe a mão e cumprimentei-o. Essa é a nossa superioridade como democratas". Recordo-me que todos olhámos para os nossos amigos da Sérvia e do Kosovo, para tentar perceber se eram sensíveis à lição. Não estou certo que ela tenha sido eficaz. Se outras razões não tivesse, fruto da minha já antiga amizade com Georgios Papandreou, este testemunho reforçou-me a admiração pelo perfil humanista do homem que, desde ontem, dirige os destinos da Grécia. E a quem já dei os meus sinceros parabéns.'


publicado por weber às 10:41
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