Sexta-feira, 14 de Janeiro de 2011

Spinoza

Estátua do filósofo, judeu, sefardita, em Den Haag, onde se homiziou, em anonimato, e faleceu.

Baruch Spinoza ( em hebraico : ברוך שפינוזה Baruch Shpinoza, Português : Bento de Espinosa, América : Benedictus de Spinoza)e, posteriormente, Bento Espinosa (24 de novembro de 1632 - 21 de fevereiro de 1677) era um holandês.

Era judeu, sefardita, cujos parentes, avós, tinham fugido da Vidigueira após o Edito de D. Manuel I, na rota, que os levou, primeiro para Oriente (provavelmente Turquia...) e, após, para a então Jerusalém da Europa, a Holanda, Amesterdão.

Filho de um bem sucedido comerciante holandês, nasce em 1632 e morre em 1677.

É um erudito judeu. Terá tido um outro descendente de sefarditas da Madeira, importante figura pública, que terá importância decisiva no futuro da diáspora judaica em Inglaterra, Manassés bem Israel, Oliveira de origem.

Estuda Moisés Maimonides, médico, sefardita de Córdoba, que foge para Marrocos e, depois, para o Egipto onde se torna conselheiro para questões de saúde do Vizir de Saladino, Al Falil. É, em pleno século XII, o primeiro racionalista judeu. Deixou-nos o Guia dos Perplexos, uma interpretação rigorosa da Torá. É o primeiro a defender que, pela razão, se pode chegar a Deus.

Spinoza faz perto de um circulo de eminentes eruditos de Amesterdão: Franciscus van den Enden, ex-jesuíta; um ex-marrano, Juan del Prado; um dotado professor, Daniel de Ribera e outros elementos antitrinitarianos e anticlericais.

Spinoza conheceu de certeza a obra de Uriel da Costa, vitima de Herem (excomunhão) por negar a imortalidade da alma.

Em 1655 é dada à estampa a obra La Peyére, ex-calvinista, Praedamnitiae. Não sendo um ateu, este judeu posicionava-se mais na linha dos cabalistas e dos messiânicos, que viriam a ter expressão, dez anos mais tarde, com Shabai Tzevi. A sua obra tinha tendência para olhar a Bíblia, não como revelação, mas como um história secular e, portanto, capaz de ser olhada e lida de modo critico.

Tal obra reforçou no espirito de Spinoza as dúvidas que lhe advieram das leituras de Ibn Ezra (1089-1164) e, sobretudo de Moisés Maimonides de Córdoba.

Nesse ano, tanto Juan de Prado como Spinoza foram levados perante as autoridades rabínicas de Amesterdão: de Prado abjurou, desculpou-se e foi "perdoado". Spinoza, esse, foi sujeito a Herem, à excomunhão.

Sobreviveu, para vergonha do rabinado de então, o pronunciamento de 27 de Julho de 1656 assinado pelo rabi Saul Levi Morteira:"Os chefes do conselho tornam publico que, tendo sabido por muito tempo das más opiniões e dos maus actos de Baruch de Spinoza, tentaram por vários meios e promessas tirá-lo do mau caminho (...); tudo isso tendo sido examinado na presença dos rabis, o conselho decidiu, com a opinião dos mesmos, que o mencionado Spinoza fose excomungado e separado da Nação de Isarel."

Estas palavras vão ter uma importância tremenda, pois transformaram-se em anátema e maldição. A sentença, como ora se diz, transitou, de imediato, em julgado:

"Com o julgamento dos anjos, e a sentença dos santos, nós anatematizamos, execramos, amaldiçoamos e expulsamos Baruck de Spinoza...pronunciando contra ele o anátema com que Josué anatemizou Jericó, a maldição com que Elias amaldiçoou os filhos, e todas as maldições escritas no Livro da Lei. Que ele seja amaldiçoado de dia e de noite; amaldiçoado quando se deita e quando se levanta. amaldiçoado quando sai e quando volta. (...) Por este documento, portanto, todos são advertidos de que ninguém lhe preste qualquer serviço, com ele resida sob o mesmo tecto, dele se aproxime a uma distância menor do que quatro cúbitos de comprimento, ou leia qualquer documento por ele ditado ou escrito por sua mão."

Durante a leitura dessa maldição, "a lamentação e a nota prolongada de uma grande corneta, "Shofar", foi ouvida de tempos a tempos; as luzes, que brilhavam claramente no inicio da cerimónia, extinguiram-se uma a uma à medida que ela prosseguia, até que, no fim, a última se apagou, significando a extinção da vida espiritual do homem excomungado, e o templo ficou em total escuridão."

É, aqui também, a simbólica da LUZ e das TREVAS para onde o rabinado de Amsterdão enviou, sem apelo, nem agravo, o jovem Baruck de Spinoza, com a idade de 24 anos.

Spinoza foi expulso de casa de seu pai e, depois, mesmo de Amsterdão. Uma noite tentaram, mesmo, matá-lo.

O filósofo vai instalar-se em Haia, sob anonimato e vive do seu trabalho com lentes, no qual era exímio artesão.

Publica, sob pseudónimo, em 1670 o seu Tractatus Theologico-Politicus. A Éthica só verá a luz depois da sua morte.

Nunca ficou claro os seus desentendimentos teológicos, e/ou filosóficos com as autordades rabinicas.

Contundo sempre foi sustentado que a Bíblia, antigo testamento, ou Pentateuco, ou Torá, devia ser abordado com uma atitude cientifica e investigada como um qualquer fenómeno natural. É, porventura, o primeiro a sustentar tal desiderato, o que então fopi considerado um sacrilégio.

A sua metodologia assentava nos seguintes passos:1/Analisar a lingua hebraica; 2/Analisar e classificar a expressão em cada um dos livros da Biblia;3/Análise do contexto histórico.

Esta frase é de Spinoza:"A vida, a conduta, e as actividades do autor de cada livro, quem era, qual foi a oportunidade e a época do que escreveu, para quem escreveu e em que língua...(então) a história de cada livro: como foi primeiro recebido, em que mãos caiu, quantas versões diferentes houve dele, por conselho de quem foi recebido no cânone, e, em último lugar, como todos os livros que são agora universalmente aceitos como sagrados foram unidos num só todo."

O que espanta, hoje, é que este programa de investigação está a ser seguido, passo por passo, pelos investigadores dominicanos de "L’École biblique et archéologique française (EBAF), située à Jérusalem, fondée et dirigée par l’ordre dominicain, est un établissement français d’enseignement supérieur et de recherche, spécialisé dans l’archéologieet l’exégèse biblique".

"L’École fut fondée en 1890sous le nom d’École pratique d’études bibliques par Marie-Joseph Lagrange, membre de l’Ordre des Prêcheurs. En 1920, elle prit son nom actuel, à la suite de sa reconnaissance comme école archéologique nationale française par l’Académie des inscriptions et belles-lettres.

Le lieu où se trouve l’Ebafse situe près d'une église du Ve siècle où furent transférées les reliques du protomartyr Étienneen 439, la Fondation d'Eudocie et devint le principal lieu de culte du martyr à l’époque byzantine à Jérusalem."

O último trabalho destes biblistas assenta, exactamente, naquele programa de Spinoza e está disponível, ao que se diz, na Internet.

Muitas das ambiguidades textuais da Bíblia advêm, precisamente, de não haver publicações "raisonés".

Expressões traduzidas do grego, do hebreu, do aramaico, ou mesmo das línguas mortas da Mesopotâmia, foram responsáveis por tremendas ambiguidades e leituras "sectárias" e "pragmáticas" postas ao serviço profano dos senhores da igreja...e não só.

Hoje ninguém questiona a historicidade imanente dos textos bíblicos.

Leia-se a Bíblia, em português, com a chancela da Difusora Bíblica, dos Frades Capuchinhos de Leiria, para se perceber que a dimensão histórica está, cada vez  mais, presente nos trabalhos dos exegetas bíblicos.

A arqueologia que, intensamente, trabalha no chão Bíblico, tem aportado contributos decisivos a este programa espinosista.

O que impressiona, é o facto, do judeu, sefardita de Amsterdão ter pressentido isso em pleno século XVII, em cheio no Renascimento...ou, talvez, por causa disso, digo eu.


publicado por weber às 09:20
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