Segunda-feira, 1 de Agosto de 2011

Que melhor elogio...

se poderia fazer aos portugueses do longe, neste mês estival de Agosto, quando muitos deles retorna à pátria para fazerem "vacances", do que esta belíssima crónica de um português de Angola e publicada no DN e que pode ler por aqui.

Pode saboreá-la já de seguida:

«Um dia, numa ilha do Havai, um velho de nome perdidamente português, Manuel Pereira Martins, levou-me à fazenda de açúcar da sua juventude. Já reformado, mostrou-me os barracões dos filipinos, os dos japoneses e o dos seus pais, madeirenses. Manuel apontou-me uma erva cujas folhas adormeciam, fechando-se ao meu tocar. Ele disse o nome da erva: "Hilla-hilla". Disse-o suavemente, para si próprio, como que a evocar uma brincadeira da sua infância. Eu estava no Havai porque escrevia um livro cuja história era sobre portugueses longínquos e Manuel era manifestamente havaiano - mas era o meu tipo certo. A muitos anos desse dia, era eu garoto, o meu pai parou o camião, deixou-o a ronronar para não espantar uma rola, numa clareira à beira do rio Dande, a norte de Luanda. Hoje, eu posso dizer-vos o nome científico daquela rola de manchas azuis: Turtur Afer. Mas o meu pai chamou-lhe "kamboa", o nome em quimbundo da rola. O meu pai, Álvaro, tinha 17 anos e o seu irmão, Afonso, 16, quando chegaram, sozinhos, a uma Luanda tão antiga que nem porto ainda tinha. Se eu pudesse visitar o passado por um só instante, eu escolheria esse dia de desembarque para ver aqueles meus dois adolescentes dizerem a sua "América! América!", como no filme de Kazan. Partiram emigrantes e anos depois já chamavam às rolas o nome usado na sua nova terra. Os outros que me desculpem, mas os portugueses das outras terras são os meus preferidos.»


publicado por weber às 21:45
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