Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2011

D. Manuel Clemente: a entrevista urgente

Ontem, o jornal Público. publicou extensa entrevista a D. Manuel Clemente, Bispo do Porto e historiador de grande folgo.

A conversa com os jornalistas Luís Miguel Queirós e Manuel Carvalho percorreu muitos tópicos, mas a presença do historiador, que é D. Manuel Clemente, com visão prospectiva, com a noção do tempo e da narrativa, que só os historiadores cultuam, esteve presente em todos os momentos da entrevista.

A troca de perguntas e respostas é extensa, mas estamos perante uma abordagem de grande qualidade e necessária, não só quanto ao tempo que nos foi dado viver, mas como ao passado que ajuda a interpretar o presente e, também, a perspectivar o futuro.

Imperdível. Lê-la, relê-la, sublinhar, questioná-la e, sobretudo, interpretá-la.

Como não consigo fazer link citarei entre aspas algumas passagens da entrevista:

Sobre a Europa (...) "Mas, ao mesmo tempo, esta tensão entre o local e o europeu é capaz de ser constitutiva da Europa. Não sei se conseguiremos ser uma federação, ou mesmo uma confederação. Mas sei que os problemas com que a Europa hoje se confronta obrigam os europeus a encontrar bases mínimas para viverem em comum. Se não o fizerem, correm o risco de se tornar muito insignificante no conjunto geoestratégico."

À pergunta "Não estamos a andar para trás?" a resposta é consistente e elaborada: "Outros dizem que se andou para a frente muito depressa. O projecto dos pais fundadores da União Europeia - Monnet, Schuman, Adenauer - nunca foi realmente cumprido. Eles projectavam muito mais, nos anos 50, do que aquilo que depois se conseguiu realizar. No entanto, conseguiram dar à Europa meio século de paz continental, o que já foi uma enormíssima proeza. E tinham ao mesmo tempo essa dimensão idealista e um realismo que os levou a começar pelo carvão e pelo aço, pelas matérias-primas básicas para o desenvolvimento industrial europeu no pós-guerra."

Sobre a crise, a nossa realidade nacional, à questão "E o que é essencial?" a resposta é, só aparentemente, desconcertante:"É salvar, na medida do possível, o que não pode estar em causa: a sobrevivência digna das pessoas. É preciso que tenham trabalho, não apenas por uma questão económica imediata, mas porque o desenvolvimento verdadeiro de cada um só se faz mediante o trabalho, e que lhes dêem condições para que possam ter filhos e educá-los. É preciso restabelecer as redes de vizinhança, para que as pessoas não viva no anonimato."

Frases soltas, mas poderosíssimas:

(...) "Há energia, há energia nas pessoas que estão envolvidas nas diferentes soluções. A mesma coisa no mundo empresarial. Há muita gente que tem vontade para tudo menos para deixar cair os braços e dar-se por derrotado."

(...) "É um optimista? Sou. Eu acredito no género humano, e no género humano português muito em particular."

Se puderem, não deixem de ler esta impressionante, quanto importante, em meu entendimento, entrevista a um homem da igreja católica, mas, sobretudo, a um português e a um ser humano, humanista, de grande qualidade de pensamento e de acção.

 

Brasão de armas e divisa escolhidas por D. Manuel Clemente quando foi "exaltado" Bispo do Porto.


publicado por weber às 18:19
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