Quarta-feira, 10 de Agosto de 2011

O questionamento impreciso

Rui Bebiano, historiador, de Coimbra, gosta de se interpelar sobre a utopia comunista.

A acreditar no post que publica, a pretexto de um romance do cubano Padura, o que falhou no projecto comunista, que integra três partes, foram os executantes. Parece um filme, ao longe, sobre o qual temos alguma memória, a salpicar-nos a narrativa.

Pois, mas há aqui uma questão central e que se pode colocar: - E se a teoria de Marx, responsável por toda esta hecatombe, estivesse errada? Não valesse um caracoleta ranhosa?

Pois, o ponto pode mesmo ser este.

Há quem confronte o cristianismo com o comunismo. Ambos quiseram ser católicos, únicos e universais. Aquele quase que o conseguiu. Há poucas geografias onde ele não esteja presente, nas suas várias modalidades.

O cristianismo permitiu várias leituras, várias exegeses, várias liturgias, várias igrejas. Renasceu mil vezes. Criaram monges mendicantes e pregadores, inventaram as Ordens menores, Franciscanos, Dominicanos, Carmelitas e, depois, os Jesuítas...Tiveram a Reforma e a Contra-Reforma, criaram as igrejas Protestantes, luteranas, as Calvinistas, a Anglicana e perduraram. Hoje têm a comunidade de Taizé, ecuménica, espaço de liberdade e de fruição teológica. Estão, sempre, a reinventar-se. Sempre praticaram o "bem", a caridade, a bondade, na sua dimensão ética e espiritual. Meteram-se em assados de poder. Aí, perderam, quase sempre. Melhor. Saíram, diminuídos.Tem um centro há quase vinte séculos.

O comunismo não durou, como prática dominante, mais de 80 anos...

O comunismo implodiu o seu centro, a Internacional Vermelha, o Comintern, que nunca foi aceite como tal, muito cedo. Nunca aceitou variantes. Como tinha preocupações, unicamente, seculares, quando desalojado do poder, não só implodia, como desaparecia.

O internacionalismo proletário não criou uma "igreja" universal, bem pelo contrário. A teoria do socialismo num só país foi a mola real do "estalinismo" e da sobrevivência de Estaline.

Nunca praticaram o bem, nunca foram úteis, em absoluto, nunca cultuaram a bondade, nunca se preocuparam com o homem. Não produziram um humanismo, menos ainda uma teogonia.

O que resta dele, comunismo (China, Venezuela, Cuba já não conta, pois mais parece um bairro de barracas da Damaia...) são caricaturas, que as afastam do filósofo doutrinário, o judeu escondido, que nasceu Moses Kiessel Mordechai Levi Marx e, por via da conversão ao cristianismo e do baptismo de seu pai, funcionário público, deriva para Karl Marx. Este construiu, sobretudo uma teoria anti-judeus, responsáveis de todos os mal do mundo, da usura, do juro, do lucro. Mas, messiânico sem o admitir, inventou uma classe operária mítica, que deveria levar a humanidade ao reino dos justos. Pai da alta escola da suspeição, a que se juntaram depois Freud e Nietzsche...

O comunismo morreu e está, praticamente, enterrado.

Tentar ver em formações partidárias que utilizam as bandeiras, os hinos, e dizem-nos, mesmo a teoria comunista, como próceres dessa utopia é fenómeno do domínio da cegueira politica e filosófica.

O comunismo foi a chamada utopia negativa (que, uma vez cumprida na geografia, no topos, se nega a ela própria), capaz de se realizar em territórios concretos. Logo que se cumpria...morria como utopia.

Ou não é assim?

Como o disse o londrino Thomas More ( na gravura) no seu celebrado book "A Utopia", o não lugar,  assassinado pelo rei Henrique VIII, seu muito amado amigo, numa deriva sucessória, quando este queria inventar uma nova igreja...cristã e o seu Chanceler se lhe opôs.

Pois, o que importa ver é se Marx e o seu marxismo, os marxismos supervenientes, perduram. Tenho a maior das dúvidas. O que resta, 25 anos após a implosão do império soviético, é quase nada.

Leia-se a reportagem, má reportagem, de Zita Seabra em visita à Rússia, Moscovo, S. Petersburgo e canais, e igrejas, e comunidades cristãs, publicada no último Expresso, e percebe-se que já não resta nada, ou quase, do comunismo redentor, que criou o "novo homem" na pátria do socialismo...como gostavam de se designar.

Confronte-se isto com a pujança da igreja católica na Polónia socialista e percebe-se a diferença de realidades e de fenomenologias.

Eis, em resumo, a tese de Rui Bebiano, à qual, recorrentemente, ele retorna, camusiano relapso, tal "Mito de Sísifo":«O desígnio comunista, o ideal que se aplica a projectar um mundo mais justo, menos desigual e por isso presumivelmente melhor, convive com um espectro que lhe ensombra as noites e lhe atrapalha as rotas. A compleição colossal deste fantasma compreende três partes que funcionam em conjunto. A primeira integra o corpus teórico que definiu a teoria da luta de classes e a adaptou à tomada e à conservação do poder pelos autoproclamados mandatários da «classe revolucionária». A segunda parte comporta a experiência catastrófica, bestial e vencida do «socialismo real». A terceira inclui a organização e a prática dos partidos e organizações que juram lutar pelo comunismo sem serem capazes de ajustar as contas com a experiência histórica que o perverteu. Enquanto esta massa não for compreendida e desmembrada, dificilmente o ideal comunista recuperará a sua capacidade para conquistar milhões de partidários e de simpatizantes e para gerar futuros desejáveis e plausíveis de justiça e de liberdade

E se a teoria primordial, que esteve na base das outras duas partes, fraquinha, cada vez mais fraquinha, sem quase utilidade para nehuma das disciplinas das ciências humanas, a suposta "inventada" por Karl Marx e o seu mecenas F. Engels, não prestar? Não tiver qualquer utilidade prática?

O cristianismo, com o seu decálogo "mosaico", inventou a Humanidade, a Europa, a Carta Universal dos Direitos Humanos, na esteira dos gregos, recriou o "bem" e o "mal". Desde sempre cultuou a piedade, a bondade e a caridade.

O comunismo, na esteira do marxismo, o que criou? A luta de classes, a violência como parteira da sociedade, da nova, a revolução, o ódio de classe, o inimigo de classe, os aliados.

Toda a linguagem, a sua, do comunismo, é guerreira.

A linguagem do cristianismo, toda ela, é feita de bondade.

Isto explica o sucesso deste e o inêxito daquele.

Eu sou um cristão sem Deus.

O marxismo, esse, foi-se.

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publicado por weber às 11:00
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