Segunda-feira, 17 de Janeiro de 2011

"Esgoto a céu aberto"

Pedro Adão e Silva escreveu post impressivo no seu "léxico familiar".

O titulo não podia ser mais contundente: "assassino ainda vá, agora paneleiro".

O pretexto? Um processo, em curso, de "branqueamento" do acto, talvez tresloucado, do Renato Seabra... de assassínio cometido sobre Carlos Castro a manifestar-se nos media tradicionais e nas redes sociais, e ainda nas caixas de comentários da bloga, que o sociólogo definiu como "esgoto a céu aberto".

Comecemos pelo principio.

Nos media empresariais há regras, há códigos e há leis que formatam a liberdade de imprensa, o interesse público e o direito ao bom nome que, cada vez mais, é direito menor em relação àqueloutro. Há jurisprudência na ordem interna e, sobretudo, na ordem comunitária.

E, na bloga, no facebook, nas redes sociais, como é que as coisas estão ordenadas?

Para já, não existe poder de punir ou reprimir.

Quanto muito há o poder de quem controla as plataformas informáticas (poder de Estado) que pode, simplesmente, apagar o blog. Já aconteceu.

O que existe é uma auto-regulação e que se manifesta em três grandes blocos.

Ele há blogues que, pura e simplesmente, não admitem comentários. É o caso dos "Da Literatura" e da "Terceira Noite", só para citar estes.

Há também, e são bastantes, os que têm comentários moderados, que carecem de aprovação dos "proprietários": "Jugular", "5 Dias", "Câmara Corporativa", entre muitos.

E há, raridade, o "Aspirina B" que aceita TODOS (...) os comentários, não exerce sobre eles qualquer tipo de moderação.

Ora bem, é aqui, nos diferentes exercícios de poder que as coisas se desfocam e que é pertinente considerar.

Neste debate Valupi, do Aspirina B publica, hoje, post de grande qualidade, questionável, como todos os pensamentos e posições, mas que vai ao essencial das questões.

O titulo é sugestivo: esgoto a céu fechado.

(...)«Vários jornalistas e publicistas, alguns deles acumulando com longa experiência como bloggers, neste período das reacções à morte de Carlos Castro voltaram à ladainha contra as caixas de comentários. Na sua entusiasmada opinião, as mais graves patologias psíquicas e morais que podemos detectar na sociedade correm soltas nessas fossas infectas a que se acede pela Internet para deixar conjuntos de caracteres.

Esta atitude, vinda daqueles que, por boas ou aleatórias razões, fazem parte da elite intelectual que intervém no espaço público, nasce de um triplo erro. Começam por não perceber o poder simbólico do crime em causa – onde a mutilação sexual, precisamente por ter sida feita por um homem noutro homem, cria uma situação de trauma colectivo que obriga a um difícil, e para muitos impossível, exercício de doação de sentido. Até isso acontecer, alguns homens, mais uma vez, ficarão predispostos para explosões de violência emocional, consequência do stressem que se encontram. Depois não entendem as noções básicas da comunicação na Internet, onde o vazio somático e o uso da linguagem escrita são factores inevitáveis de equívocos interpretativos (não temos a expressão facial e o tom de voz, o que pode levar a que uma piada seja tomada como uma ameaça, por exemplo e etc.) e de pulsões justiceiras (as flame warscomo folclore das comunidades digitais desde o começo da Web). Há inúmera literatura científica sobre o fenómeno. Por fim, não compreendem que a sua verrina contra o povo abrutalhado que berra e larga caralhadas é uma declaração de desprezo pela democracia. Particularmente em Portugal, país sem tradição recente de cidadania, debate político elevado ou estima pela intelectualidade. Naturalmente, há milhões de portugueses que só agora estão a aprender a discutir com o vizinho, tenham eles 17 ou 71 anos. Os excessos, as falhas, a exposição crua das misérias que cada um de nós carrega, fazem parte do nosso destino comum. São a matéria de que somos feitos. A matéria com que se cresce.» (...)

Este é um tema da maior importância para a convivialidade, para o exercício da agressividade, para o debate, para a massificação da disputa, mas também pode ser o germe de uma vulgarização e de um nivelamento por baixo das nossas comunidades.

Eu gosto das disputas interclassistas, em que os betinhos são sovados por carrijões das beiras, em que os pensadores são insultados por ignorantes saídos das Novas Oportunidades.

Até aqui tudo bem.

Não há mal nenhum que venha ao mundo, menos ainda ao nosso como portugueses. 

Longe de mim pensar, ou sugerir, um qualquer processo de repressão, pelo estigma, pela ordem e a lei, ou pela prisão.

Sabemos todos onde vai parar o controlo, de começo das ideias, depois da liberdade. 

O que eu sustento é, pois, o livre exercício da opinião e do pensamento e, depois, venha a selecção pela qualidade, pelo mérito.

E é assim mesmo.

Veja-se o caso dos blogues de sucesso, ou o que isto significa, que se pode avaliar com a combinação de dois parâmetros, objectivos: a qualidade da produção e o número de visitantes.

Sem ordem assente em qualquer tipo de taxinomia refira-se: 5 Dias, Jugular, Câmara Corporativa, Aspirina B, Águalisa6, Terceira Noite, Albergue Espanhol, Ana de Amsterdam, maradona e etc.

Isto foi válido para os media empresariais, como o será, e já é, para as redes sociais.

Mesmo o Correio da Manhã, criticado no post de Valupi, menos pelo "pasquim" em si mesmo e mais por incúria, incompetência e incoerência do opinador/opinante João Miguel Tavares, agora ao serviço daquele matutino líder actual de tiragens e de leitores.

Não me parece, no exercício de Valupi, que se possa criar uma dicotomia blogues vs media empresariais e tradicionais. O que vale para uns deverá ser extensivo aos outros e vice-versa.


publicado por weber às 11:56
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