Terça-feira, 17 de Janeiro de 2012

A austeridade como ética

Tony Judt, historiador dos mais criativos da sua geração, pós 2.ª guerra mundial, falecido aos 60 anos, vitima de uma doença degenerativa, motora neurológica, dita ELA (esclerose lateral amiotrópica, ou doença de Lou Gehrig), à medida que o mal o devastava, foi-se "acomodando" e encontrou um "modo" de sobreviver à dependência e ao desaparecimento do seu fulgor físico e intelectual:pensar sem cessar e escavar as suas memórias até à exaustão...

Deixou-nos um livro, que fará, por certo, história entre os historiadores. Pela narrativa, pelos tópicos e pelo tempo escolhido.

Se há obra pela qual me apaixonei esta é uma delas e daquelas que se levam, no bornal, para a tal ilha deserta.

O nome é de uma rara beleza "O Chalet da Memória".

Judt conta e conta-nos como chegou lá.

Hoje interessa-me, particularmente, o que ele discorre sobre homem que dirigiu a Inglaterra no pós guerra e o tempo que foi o de C. Attlee.

Ouçam a voz poderosa de Tony Judt:

"Julgo que só muito recentemente pude apreciar o pleno impacto daqueles meus primeiros anos de infância -estamos em 2010-. Em retrospectiva, do ponto de vista do presente, percebe-se mais claramente as virtudes daquela época despojada. Ninguém aplaudiria o seu regresso. Mas a austeridade não era apenas uma condição económica: ela aspirava a uma ética pública. Clement Attlee, o primeiro-ministro trabalhista de 1945 a 1951, emergira - tal como Harry Truman- de debaixo da sombra de um líder carismático em tempo de guerra e encarnava as expectativas reduzidas da altura.

Churchill, trocista, descreveu-o como um homem modesto <que tem muito de que ser modesto>. Mas foi Attlee que presidiu à era das maiores reformas na história britânica moderna - comparável ao feito de Lyndon Johson duas décadas mais tarde, mas em circunstâncias muito menos auspiciosas. Tal como Truman, Attlee vivia parcimoniosamente - e colheu escassos ganhos materiais de uma vida inteira de serviço público. Attlee foi um representante exemplar da grande era de reformadores eduardinos de classe média: moralmente sério e um tudo nada austero. Qual dos dirigentes dos dias de hoje poderia dizer o mesmo - ou sequer percebê-lo?

A seriedade moral na vida pública é como a pornografia, difícil de descrever mas imediatamente identificável quando a vemos. Descreve uma coerência de intenção e acção, uma ética de responsabilidade política. Toda a política é a arte do possível. Mas também a arte tem a sua ética. Se os políticos fossem pintores, tendo FDR -Franklin Delano Roosevelt- como Ticiano e Churchill como Rubens, então Attlee seria o Vermeer da profissão: preciso, contido - e durante muito tempo subvalorizado. Bill Clinton poderia aspirar à dimensão de Salvador Dali - e julgar-se elogiado pela comparação, Tony Blair à posição - e cupidez de Damien Hirst."

Tony Judt diz muito mais sobre este tópico e sobre outros de igual e mor importância.

Leiam-no, por que é severamente importante a ética na política...mais do que parece ou aparenta.


publicado por weber às 12:25
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