Sábado, 22 de Agosto de 2009

A ideia de liberdade como conversação

Em cada sábado, no jornal i, José Carlos Espada publica ensaios sobre a ciência politica, sobre a organização das sociedades, sobre a liberdade, os valores morais comunitários e etc.

Há ensaios mais bem conseguidos que outros.

Questionou o relativismo.Dúvida que ela possa ser derrotado. Interpela o racionalismo dogmático. E chega à conclusão que Darwin, também nas ciências humanas, não deixa de ter razão.

Pode ver aqui o ensaio de hoje.

Neste ensaio, sem ser dos seus melhores, tem afirmações, que me interessam, particularmente, e por isso as vou destacar.

J.A.

1/«Gânglio central Uma concepção notavelmente semelhante foi apresentada por Élie Halevy, e retomada por Gertrude Himmelfarb, acerca da Inglaterra vitoriana:
"O utilitarismo, o darwinismo, o positivismo, o racionalismo, o criticismo bíblico e o humanismo ateu - nenhum destes conseguiu arruinar a moralidade, como alguns temiam, nem providenciar um 'novo motivo' para a moralidade, como aspiraram Macaulay e outros. Ao limite, o que amparou a ética vitoriana foi essencialmente aquilo que de início a inspirou - um evangelismo não-sectário e latitudinário.
[...] Esse 'gânglio central' da vida moral pode bem ter sido o centro nevrálgico da história inglesa. Foi aqui que os irreconciliáveis foram reconciliados, que as paixões foram esfriadas, que os interesses e as ideologias foram silenciados. [...] O verdadeiro 'milagre da Inglaterra moderna' (a famosa expressão de Halevy) não está em ter sido poupada à revolução, mas em ter assimilado tantas revoluções - industrial, económica, social, política, cultural - sem recorrer à Revolução."»

2/"Esta ideia de conversação é particularmente característica das sociedades de língua inglesa. Aí não assistimos a cortes radicais com o passado. A liberdade ou a democracia não são atribuídas a um acto fundador, a uma revolução fundadora, ou a um específico "sábio legislador". A liberdade e a democracia são entendidas como produto de uma longa evolução gradual, uma longa e perpétua conversação.J.C.E."

3/ «Ideia de dever Gertrude Himmelfarb recorda que, quando foi perguntado a Darwin quais eram as consequências da sua teoria para a religião e a moral, este respondeu que "a ideia de Deus está para além do intelecto humano, mas a obrigação moral do homem permanece a que sempre foi: cumprir o seu dever". Macaulay, o grande historiador liberal e agnóstico, criticou o utilitarismo e defendeu a superioridade do cristianismo por este admitir a existência objectiva do dever. George Eliot, depois de todos os seus estudos sobre a filosofia alemã e francesa, acabou por regressar à sua religião original para tentar dar conta do mais importante facto da vida:
"O evangelismo trouxe à palpável existência e acção [...] essa ideia de dever, esse reconhecimento de algo que tem de ser vivido para além da mera satisfação do eu, e esse algo constitui o gânglio central da vida moral."»

 

 

José Carlos Espada não é santo da minha igreja, já o disse várias vezes. É um homem inteligente, culto, pensa sobre as questões que importam às nossas sociedades. Questiona os autores que respeita e considera e obriga-me a interpelar-me e desafia-me. Já há muito que deixei de ser membro de matilhas de próceres ou de prosélitos. Sou um homem livre, livre examinista e, il va de soi, livre pensador.

J.A.


publicado por weber às 11:20
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