Quarta-feira, 15 de Junho de 2011

Capitão de Abril "censurado" pelo Diário de Noticias

Podem, os responsáveis do jornal de Lisboa, aduzir o impante e inultrapassável "interesse", ou falta dele, editorial que "emprestaram" ao texto escrito e enviado por Pedro Pezarat Correia, Director da Revista da Associação 25A, "O Referencial", para não o terem publicado. 

Mas, dado o conteúdo do texto do militar de Abril, divulgado pelo Rui Bebiano, recuperado pelo "arrastão", que me parece de mor actualidade...este esbarra com aquela opção "editorial", creio eu.

O pretexto para a factura do texto, é as declarações proferidas pela Embaixadora Ana Gomes, em relação às quais toma as suas distâncias, mas assume-lhe as dores quanto à falta de idoneidade de Paulo Portas, para figurar no elenco governativo.

A não publicação do mesmo parece-me roçar o acto "censório", dada a inquestionável qualidade de texto e a mais que merecida relevância na cidade do autor do mesmo.

Leiam-no aqui com o enquadramento editorial do blog e, de seguida, in extenso, que vale bem a pena:

"PAULO PORTAS MINISTRO?

Ana Gomes provocou uma tempestade mediática com as suas declarações sobre Paulo Portas. Considero muito Ana Gomes, uma mulher de causas, frontal, corajosa, diplomata com muito relevantes serviços prestados a Portugal e à Humanidade. Confesso que me escapa alguma da sua argumentação contra Paulo Portas e não alcanço a invocação do exemplo de Strauss-Kahn. Mas estou com ela na sua conclusão: Paulo Portas não deve ser ministro na República Portuguesa. Partilho inteiramente a conclusão ainda que através de diferentes premissas. Paulo Portas, enquanto ministro da Defesa Nacional de anterior governo, mentiu deliberadamente aos portugueses sobre a existência de armas de destruição maciça no Iraque, que serviram de pretexto para a guerra de agressão anglo-americana desencadeada em 2003. Sublinho o deliberadamente porque, não há muito tempo, num frente-a-frente televisivo, salvo erro na SICNotícias, a deputada do CDS Teresa Caeiro mostrou-se muito ofendida por Alfredo Barroso se ter referido a este caso exactamente nesses termos. A verdade é que Paulo Portas, regressado de uma visita de Estado aos EUA, declarou à comunicação social que “vira provas insofismáveis da existência de armas de destruição maciça no Iraque” (cito de cor mas as palavras foram muito aproximadamente estas). Ele não afirmou que lhe tinham dito que essas provas existiam. Não. Garantiu que vira as provas. Ora, como as armas não existiam logo as provas também não, Portas mentiu deliberadamente. E mentiu com dolo, visto que a mentira visava justificar o envolvimento de Portugal naquela guerra perversa e que se traduziu num desastre estratégico. A tese de que afinal Portas foi enganado não colhe. É a segunda mentira. Portas não foi enganado, enganou. Um político que usa assim, fraudulentamente, o seu cargo de Estado, não deve voltar a ser ministro. Mas já não é a primeira vez que esgrimo argumentos pelo seu impedimento para funções ministeriais. Em 12 de Abril de 2002 publiquei um artigo no Diário de Notícias em que denunciava o insulto de Paulo Portas à Instituição Militar, quando classificou a morte em combate de Jonas Savimbi como um “assassinato”. Note-se que a UNITA assumiu claramente – e como tal fazendo o elogio do seu líder –, a sua morte em combate. Portas viria pouco depois dessas declarações a ser nomeado ministro e, por isso, escrevi naquele texto: «O que se estranha, porque é grave, é que o autor de tal disparate tenha sido, posteriormente, nomeado ministro da Defesa Nacional, que tutela as Forças Armadas. Para o actual ministro da Defesa Nacional, baixas em combate, de elementos combatentes, particularmente de chefes destacados, fardados e militarmente enquadrados, num cenário e teatro de guerra, em confronto com militares inimigos, também fardados e enquadrados, constituem assassinatos. Os militares portugueses sabem que, hoje, se forem enviados para cenários de guerra […] onde eventualmente se empenhem em acções que provoquem baixas, podem vir a ser considerados, pelo ministro de que dependem, como tendo participado em assassinatos. Os militares portugueses sabem que hoje, o ministro da tutela, considera as Forças Armadas uma instituição de assassinos potenciais». Mantenho integralmente o que então escrevi. Um homem que, com tanta leviandade, mente e aborda assuntos fundamentais de Estado, carece de dimensão ética para ser ministro da República. Lamentavelmente já o foi uma vez. Se voltar a sê-lo, como cidadão sentir-me-ei ofendido. Como militar participante no 25 de Abril, acto fundador do regime democrático vigente, sentir-me-ei traído.

Junho de 2011.06.13

PEDRO DE PEZARAT CORREIA"

Referências do "escritor" relevantes para acrescer à qualidade da opinião expendida:

"DADOS BIOGRÁFICOS
(com algumas achegas autobiográficas)
Apresenta-se no espaço da blogosfera Pedro Júlio de Pezarat Correia, oficial general do Exército na reforma, docente universitário em termo de carreira, cidadão vitalício. Nasceu no Porto em Novembro de 1932, casado, dois filho(a)s e cinco neto(a)s, Colégio Militar, arma original Infantaria, seis comissões na guerra colonial na Índia, Moçambique, Guiné e Angola. Não enjeita o que fez na guerra mas do que se orgulha é do seu contributo para lhe pôr termo. Já com actividade político-militar anterior aderiu desde a primeira hora ao Movimento das Forças Armadas (MFA). Em Angola em 25 de Abril de 1974 assumiu, por designação dos seus camaradas, as mais altas responsabilidades no MFA. Regressado a Portugal integrou o Conselho da Revolução, comandou a Região Militar do Sul e corresponsável pelo "Documento dos Nove". Crê que teve uma carreira militar digna mas sem a participação no 25 de Abril teria sido uma frustração. A Grã-Cruz da Ordem da Liberdade é a condecoração de que mais se orgulha. Passou pelo Poder mas dele não guarda saudades e confessa-se mais atraído pelo contra-Poder. E recusa a tese de que a idade torna as pessoas politicamente mais conservadoras.Cinco livros, participação em cerca de três dezenas de obras de múltipla autoria, colaboração em obras de outros autores, dezenas de comunicações, centenas de textos na comunicação social. Temas privilegiados: segurança e defesa, estratégia, geopolítica e geoestratégia, conflitos internacionais, descolonização, guerra colonial e 25 de Abril. Professor convidado na Fac. Ec. da Un. Coimbra instalou e regeu a cadeira de Geopolítica e Geoestratégia da Licenciatura de Relações Internacionais e integra o grupo docente responsável por um Programa de Doutoramento e Mestrado. Conferencista em outras instâncias universitárias, participação em acções de formação de professores. Na Associação 25 de Abril foi o primeiro presidente da Mesa da Assembleia-Geral, é membro do Conselho da Presidência e actual director do seu boletim O Referencial."

Creio que tudo aconselhava a publicação  do "artigo".

Assim não entendeu o jornalista João Marcelino, actualmente Director do DN.

Veremos se a história o "desculpará".

Temo bem, que não.

tags:

publicado por weber às 11:48
link do post | comentar
partilhar

. ver perfil

. seguir perfil

. 8 seguidores

.pesquisar

 

.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. Capitão de Abril "censura...

.arquivos

.tags

. todas as tags

.últ. comentários

Chame-me Parvo….Pois é, Sr. Pedro Tadeu, é isso me...