Quarta-feira, 4 de Abril de 2012

Biologia e economia

Sabe-se quanto a economia, entendida como sistema, deveras complexo, é coisa delicada, frágil.

Conhece-se estudos interessantes na biologia tendentes a definir e cingir conceitos complexos como frágil e, sobretudo, um outro quase transcendente "anti-frágil".

Pois é disto que trata o opinador de o Público Antoine Danchin.

Sobretudo a sugestão que ele faz aos economistas para se debruçarem sobre as moléculas, os neurónios e a memória da e na...economia.

Este bocadito para vermos o quanto é interessante este texto:

"Os organismos vivos são sempre complexos. São constituídos por populações de moléculas, células ou indivíduos que não são idênticos, mas que são parecidos uns com os outros. Quando pensamos na anti-fragilidade dos organismos vivos, não pensamos que determinadas estruturas, ao longo do tempo, evoluem quando confrontadas com desafios de baixo nível, mas antes que existe como que um processo geneticamente embutido que usa os acidentes temporais para tornar o organismo como um todo melhor adaptado ao seu ambiente. Enquanto os componentes do organismo continuam a envelhecer, como um conjunto continuam a melhorar no tempo, formando uma colecção de instâncias individuais específicas, antes de sofrer o inevitável declínio da senescência. Isto implica que, à medida que envelhece, o organismo extrai e usa informação do seu ambiente de modo a responder aos desafios imprevisíveis desse ambiente. A vida mede e memoriza: usa a variedade incorporada nos seus de outra forma parecidos componentes para armazenar memórias dos acontecimentos passados de modo a que possam ser usadas para reagir a uma nova situação. A memória básica da hereditariedade de um organismo não é composta de componentes idênticos, mas é antes o que o físico Erwin Schrödinger chamou no seu famoso livro O Que é a Vida de “cristal aperiódico” – um conceito que deu origem à biologia molecular. O conceito, mais significativamente, implica uma falta de identidade precisa e permanente: o organismo reproduz-se (continua a ser parecido consigo), em vez de se replicar (a sua descendência não é uma cópia exacta de si). Isto significa que nenhum grande desígnio geral ou hierarquia única, mas antes um conjunto de entidades mais pequenas e de desenho similar, cooperam para gerar o comportamento global do organismo. Muita da memória no nosso cérebro, por exemplo, está dispersa por um grande número de contactos entre muitos neurónios. Estes contactos não são idênticos em indivíduos diferentes ou em memórias diferentes. Antes que o catastrófico declínio da verdadeira senescência ocorra, o modo como estes contactos evoluem melhora com o tempo: a capacidade para adquirir novas memórias pode ir decrescendo lentamente como um processo, mas a memória no geral aumenta. Este é o paradoxo do que os cientistas chamam de “vantagem de crescimento na fase estacionária”: quando culturas microbiológicas novas e velhas são forçadas a competir, a mais velha, contrariamente à intuição, ganha o combate.Ao permitir que algumas entidades individuais sobressaiam da multidão, a anti-fragilidade melhora o destino de uma população numa situação desafiante. O número de candidatos para comportamento anti-frágil entre estruturas biológicas é enorme. As células são essencialmente formadas por macromoléculas, que, mesmo quando codificadas pelo mesmo gene, nunca são inteiramente idênticas. O próprio processo de biossíntese macromolecular está ligado à estrutura do ambiente. Não existem duas células iguais.Esta variedade notável, desenvolvida num contexto genético estrito que limita o seu alcance, enraíza a vida na anti-fragilidade. Este é um ponto essencial que a biologia deveria reter. E, à medida que a economia global responde aos desafios imprevisíveis da crise e da recuperação da economia, é um ponto que também os economistas deveriam considerar."


publicado por weber às 12:19
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