Sexta-feira, 15 de Janeiro de 2010

Uso do "contextualismo" em historiografia

Irene Pimentel, historiadora, no "jugular" escreve um interessante artigo a pretexto do anti-semitismo e de uma questão maior da e na historiografia: o "contextualismo".

Uma coisa é a verdade histórica, que TODOS os historiadores se obrigam a procurar. Podem não a encontrar, podem até desviarem-se dela, mesmo, e ainda, deformá-la.

O que um historiador não pode fazer é "inventar" factos, como tão bem o evidenciou Paul Veyne, "acontecimentais": aqueles que fazem a história, que importam e são importantes para a narrativa daquela.

Vem tudo isto ao caso, da emergência do anti-semitismo e do uso do "contextualismo" que tem, disso os historiadores não têm qualquer tipo de dúvida, a importância que tem. Retirar um facto histórico do seu "momenta", do seu contexto, é a mesma coisa que ter um jardim de hidrângeas em pleno deserto do Negueb.

Leia aqui o artigo da historiadora.

O contextualismo não pode justificar um "passa culpas" histórico ou modernizar um certo relativismo moral ou civilizacional.

O antisemitismo tem várias raízes e vários momenta.

Os historiadores da idade contemporânea conhecem bem este tópico.

Mas um dos momenta, talvez o mais desconcertante, foi a emergência e o uso que Hitler, Stalin e, mais recentemente o pacóvio Manuel Machado, fez do célebre "apócrifo" texto, denominado de "Protocolos dos Sábios de Sion".

Sabe-se hoje como nasceu este texto; sabemos, os historiadores sabem-no bem, a importância que teve na construção do Holocausto, da solução final hitleriana e nas justificações que permitu a outros bandalhos da história na cruzada contra os judeus.

As purgas de Stalin na direcção do Partido Bolchevique e no aparelho de Estado aí estão para o atestar.

Mas, afinal, como "nasceram" estes Protocolos?

Em 1905 um monge ortodoxo russo, Sergio Nilus, fez uma revelação acerca de uma conspiração judia.

Sete sábios hebreus, dos mais relevantes e competentes que havia à época, reuniram-se em Basileia, em 1897, para redigir um programa em 24 pontos a fim de levar a cabo um plano de dominio mundial. Eram, nem mais, os Protocolos dos Sábios de Sion.

Tratava-se, segundo os inventores deste livro, de provocar guerras, revoluções, corromper a imprensa e a educação, reduzir os cristãos à pobreza mediante o desenvolvimento infernal do capitalismo e de estabelecer uma espécie de super governo à sombra do qual todos fossem submetidos.

Cá temos nós o contexto.

A derrota de 1905 na Russia, a primeira revolução que desembocou na outra, a de 1917, criou um caldo para poder fazer emergir tal patranha.

Os judeus eram, na Rússia, em Odessa, particularmente, vitimas de progoms, de violência inusitada.

Mas, em boa verdade, como apareceram os Protocolos?

Philip Graves, jornalista, correspondente do Times inglês em Constantinopla teve conhecimento de um livro, anónimo, francês, mas que nada tinha que ver com judeus. Tratava-se de uma sátira escrita em 1864 por um tal Maurice Joly contra Napoleão III.

O monge Nilus mais não fez do que substituir o nome do imperador pela designação "judeus" e estava feito o pastiche.

Em 1921 o Times publica três artigos do seu correspondente Philip Graves a demonstrar a falsificação.

Os judeus tentaram dar-lhe a máxima divulgação, mas a "força" destes Protocolos continuaram pelos tempos fora.

Mesmo na América, Henry Ford acreditou na veracidade dos mesmos e da existência de uma conspiração mundial do judaismo.

Hitler utilizou à saciedade estes Protocolos para sustentar a sua tese sobre a "grande mentira", e ainda a "intriga politica, a técnica da conspiração, a subversão revolucionária" que constituiam a acção do judaismo internacional...

O facto de Trotsky ser judeu explicava, indubitavelmente, isso mesmo: os judeus estavam envolvidos na revolução mundial.

A importância que os judeus tinham na Banca (o império Rothschild), na imprensa (Liberman e Reuter), nas ciências (Freud, Einstein) nas artes (Heine, Kafka, Mozart, Mahler) na politica  (Marx, Bruno Bauer, Martov, Kamenev, Zinoviev, Lassale, Rosa Luxembourg, David Ben Gurion e etc) e na politica de Estado (Herzl, Disraeli, Herbert Samuel, Weizman etc) dava lustre a estas teorias.

O processo Dreyfus em França deu também substrato ao antisemitismo.

Este processo, conhecido, deu de algum modo pretexto para a emergência do Sionismo, para a criação de um lugar, Eertz Yesraeli, terra de Israel e de um Jungstaat (conceito inventado pelo jornalista vienense Theodor Herzl, que cobriu, como jornalista, o julgamento do tenente francês Alfred Dreyfus, judeu, acusado de passar informações aos alemães).

A emergência destes Protocolos ocorreram num determinado contexto.

Foram utilizados em determinado contexto.

Sabemos quais os efeitos tenebrosos que tiveram nas purgas de Staline e na solução final de Hitler: o holocausto, a Shoah, para os judeus.

Isto permite-nos ser severos quanto a este embuste, a este apócrifo? Claro que sim.

É mesmo um dever denunciar e arrasar estes Protocolos que, de quando em vez, por esta ou aquela má razão, emergem.

Em Portugal faz tempo os nacionalistas de Manuel Machado falaram neles.

É nossa obrigação, os que amamos a liberdade, os humanistas, lutar, denunciar, tomar partido, mas percebendo como as coisas nascem e se transformam em coisas hediondas e poderosas, em determinados contextos.

Isto os historiadores têm a obrigação de nos explicar.

Irene Pimentel fá-lo, sempre, com rigor e, sempre, por amor à verdade; como o faz, também, o historiador Rui Ramos, nomeadamente.

J.A

Imagem da edição russa dos Protocolos dos Sábio de Sion, de 1912.


publicado por weber às 11:08
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