Domingo, 6 de Março de 2011

90 anos

No dia 6 de Março de 1921 via a luz do dia o Partido Comunista Português.

Muito se sabe da história desta agremiação partidária.

Muito sobra ainda para descobrir e entender.

Já há teses universitárias em construção.

Já viram a luz do dia não sei quantos volumes da biografia de Cunhal, assinados por JPP. Este, faz tempo, queixava-se que os arquivos do PCP eram, ainda, os últimos grandes arquivos do século XX português, não abertos aos estudiosos.

Na altura, Vitor Dias, creio que ainda membro do CC, reagiu vivamente "sustentando que havia estudiosos a visitar os arquivos...".

Seja como for, ainda há muitas questões em aberto, umas importantes, outras curiosas, que carecem de esclarecimento.

Júlio Fogaça, dirigente importante na década de 50 foi "afastado", nunca expulso, por "vingança" do "putchista" Cunhal, ou por ter sido "apanhado" pela PIDE na Nazaré, com um jovem marinheiro, indiciando práticas homossexuais "passivas" como está lavrado nas declarações que o dito efebo  fez nos interrogatórios da PIDE?

Depois, há os heróis, heroinas, mártires da luta contra o fascismo, os patriotas, lista imensa, que honra a história deste Partido e que, nesta data, quero saudar.

Escolhi, por razões pessoais, para dar conta dessa realidade, a companheira de sempre de Domingos Abrantes, dirigente retirado da actividade partidária quotidiana, presa, violada e violentada pelos esbirros da sinistra policia política, que ainda hoje sofre os traumas de tais crimes, Conceição Matos.

Provavelmente,  a mulher mais torturada pelos assassinos da policia politica de Salazar.

Além de tudo isto, que já não é pouco, tem uma história de vida com Domingos Abrantes, que é um poema de uma grandeza, que se pode equiparar, mutatis mutandi, a Abelardo e Heloísa.

Os comunistas, quando mergulhavam os seus quadros na clandestinidade faziam-nos acompanhar, sempre, de "companheiras".

Umas vezes "esposas", outras  "filhas", como foi o caso de Zita Seabra e de Sérgio Vilarigues.

As tarefas de que eram incumbidas referiam-se à gestão do orçamento "familiar", a assegurar a vigilância dos lugares e, por vezes, uma ou outra tarefa técnica secundária...

Quando Abrantes desceu à clandestinidade, encontraram-lhe uma "companheira", operária no Barreiro e irmã de Conceição Matos.

No encontro de apresentações, Domingos Abrantes dirigiu-se a Conceição (que estava presente) e manifestou-lhe alegria pela escolha. Logo lhe disseram que se tinha equivocado. Era a outra, a irmã. Ele, definitivo, para o responsável: - Ou é esta ou não é nenhuma.

Contra as regras estabelecidas aceitaram a vontade de Abrantes e a anuência de Conceição.

Têm um ligação com mais de cinquenta anos, semeada de dramas pungentes (esta perdeu um filho em condições dramáticas...), mas de uma ternura infinda e que nunca esmoreceu.

Há muitas histórias, que os guardiães do templo comunista desvalorizam, por que humanizariam a causa, e que nunca contarão, nem deixarão que outros as relatem.

A história de Joaquim Pires Jorge e Helena Magro é outro poema de amor, vivido na clandestinidade.

Por questões de pudor não falarei de tudo, mas apenas de uma quase "anedota".

Quando mergulharam na clandestinidade, Helena estava noiva de Mário Castrim.

Semanas após a vivência na mesma casa com Pires Jorge, o apelo da carne e os sentimentos a emergirem, estavam prontos para uma relação "efectiva". Não a consumaram sem que Helena tivesse um encontro com Castrim para se "descomprometer".

Bonitas histórias, estas.

Sabe-se que, Cunhal, terá ditado memórias para duas secretárias, no final da sua vida, já impossibilitado de escrever.

Alguma vez virão a lume?

Quase de certeza que não.

Neste dia aniversário da agremiação partidária com mais história em Portugal, com histórias que, em meu entender, mereciam ser contadas pelos comunistas, por que os humanizavam e os mostrariam a uma outra luz, menos heróica, mas mais verdadeira, aqui deixo estas, que conheço em pormenor.

Foto - Chegada de Cunhal a Lisboa, dia 27 de Abril de 1974, ladeado de Domingos Abrantes e Conceição Matos, vindos de Paris.


publicado por weber às 13:05
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