Terça-feira, 18 de Agosto de 2009

Rogério Rodrigues nos 80 anos de Álvaro Cunhal

"O velho homem novo", assim titulou o jornalista Rogério Rodrigues então na VISÃO, sobre a efeméride dos 80 anos de Álvaro Cunhal. Pode ver aqui o texto integral.

Mas, tendo em conta a qualidade do escrito e da análise, vou, com a devida vénia e agradecimento ao autor publicá-lo por inteiro:

"O velho homem novo
Álvaro Cunhal vai fazer 80 anos. A esperança de vida de um português é de 74. Já ultrapassou a esperança, mas ainda conserva a utopia
Rogério Rodrigues / VISÃO nº 33 4 Nov. 1993
A filha e os três netos de Álvaro Cunhal poderão vir da Holanda para o acompanhar no dia do seu 80.° aniversário. É na quarta-feira, 10, e a seu lado devem estar também a irmã e alguns amigos chegados. Mais ninguém. «O Álvaro não é dado a celebrar o aniversário», dizem-nos no Partido Comunista Português (PCP), de que continua a ser a figura tutelar.

No centro de trabalho do Hotel Vitória, a vida decorrerá normalmente — num período intenso de preparação eleitoral — para as companheiras de Cunhal, a primeira e a última: Isaura Dias e Fernanda Barroso. Aquela, funcionária do partido, mãe da filha do líder comunista, esteve durante muitos anos exilada na Roménia, onde trabalhou na Rádio Portugal Livre.

Esta, do Comité Central, engenheira química, actualmente muito doente, vive na Estrada de Benfíca com a irmã Alda Barroso, e com a memória gratificante do pai, morto pela PIDE, e que pelo menos Cunhal e Jaime Serra ainda conheceram; no Verão, costuma recolher-se no Algarve, onde passa as férias com a família.

Também na quarta-feira, Álvaro Cunhal poderá recordar aquele que sempre considerou como um exemplo: Avelino Cunhal, seu pai, falecido em 1968, exactamente com 80 anos. Dos netos traz a fotografia na carteira. Quando estão em Portugal, vai com eles ao shopping de Cascais, vêem um filme, comem pipocas e praticam jogos de computador. No dia em que o primeiro nasceu — o Rudi, hoje com 11 anos — o avô enfiou a boina basca que usava no seu exílio parisiense, e foi visitá-lo ao Estoril, conduzindo um Mini azul.

Cunhal também poderá recordar as disposições, que admitiu pudessem ser as finais, escritas em 1989, quando teve de ser operado de urgência, em Moscovo, a um aneurisma da aorta, disposições constantes de cartas enviadas a vários dirigentes e outras individualidades do partido, entre as quais José Saramago. «A morte nunca me assustou. Sem dúvida que pensei que podia morrer, porque os médicos o disseram. Escrevi coisas, arrumei o que tinha para arrumar.» O universo que alimentou a esperança e a luta de Cunhal, e que o cobriu de condecorações e glória, está em derrocada. Nos últimos anos, morreram ou desapareceram pares e interlocutores como Brejnev, Honecker, Jikov, Gierek, Kadar, Ceausescu; ou reduziram-se a uma circunstância histórica nomes mal amados, como Santiago Camilo; ou pediram para regressar a militantes de base dirigentes como Georges Marchais. Restam Fidel Castro e e a sua Cuba, de onde regressou há dias, de uma viagem de solidariedade e também de repouso, e, porventura, alguns dos imortais chineses da Grande Marcha.

Se antes não podia viajar até Nova Iorque, hoje que caiu o Muro de Berlim dificilmente poderá passar para lá dos seus escombros.

Mas Cunhal resiste. À esperança que agoniza, responde com a utopia. Acabou a realidade dos dois campos. A própria perestroika é cravo que murchou. O imperialismo hoje é trifásico: Estados Unidos da América, Ásia e Europa. O comunismo, porém, ressurgirá — acredita. Reconhece que talvez a longo prazo, numa perspectiva de democracia avançada, em alternativa à democracia burguesa, formal e representativa. Do PCP, alguém nos diz: «Ele só olha para a frente, para o futuro. A sua grande preocupação é a juventude.» O JOVEM Cunhal entrou para as organizações juvenis do Partido Comunista no ano em que Salazar assumiu o poder. Decorria 1931 e a cultura libertária era a predominante na oposição portuguesa, após o descalabro e a capitulação das elites republicanas. Cunhal nascera em 10 de Novembro de 1913, em Coimbra, numa família numerosa, com um irmão talentoso de traço e boémio de feitio, precocemente falecido. O pai, digno republicano, seareiro, advogado, pintor, novelista, foi governador civil da Guarda (cargo também ocupado por João Soares, pai do actual Presidente da República); a mãe, com origens em Castanhèira de Pêra, era conservadora e nunca veria com bons olhos as posições revolucionárias do filho. Cumprindo a tradição da família. Cunhal é baptizado aos 5 anos, em Seia, terra do seu pai e de Afonso Costa. Padrinhos são o irmão António, amigo de Fernando Abranches Ferrão (também de Seia), e Nossa Senhora da Conceição.

Cedo vem para Lisboa, onde frequenta o Liceu Camões. Ingressa, depois, na Faculdade de Direito, onde ganha a liderança dos estudantes em lista alternativa à de Nuno Rodrigues dos Santos. É preso pela polícia política, torturado, sujeito a longo isolamento. Mas a PIDE deixa-o estudar.

E ele acaba por licenciar-se com elevada classificação, defendendo uma tese de cem páginas sobre o aborto, num acto académico em que foram arguentes os professores Paulo Cunha, Cavaleiro de Ferreira e Marcello Caetano, todos, em tempos diferentes, ministros de Salazar, e o último seu sucessor.

Cunhal entrou para o PCP pela mão de Cansado Gonçalves, que seria banido do partido na sequência da reorganização ocorrida nos anos 40, e morreria já na década de 80, após leccionar durante anos em Moçambique, onde ensinou figuras proeminentes da Frelimo, deixando um livro de memórias.

Em 1935, vai, pela primeira vez, a Moscovo, no âmbito do Congresso Internacional das Juventudes Comunistas. E, no ano seguinte encontra-se em Espanha com representantes de organizações antifascistas. Detido duas vezes, por escassos meses, será em 1949 preso pela PIDE, já como o verdadeiro líder do PCP, embora só venha a ocupar o cargo de secretário-geral — vago desde a morte de Bento Gonçalves, em 1942 — em Março de 1961, após a fuga de Peniche com mais oito camaradas, entre os quais Francisco Rodrigues que, posteriormente, esteve na origem da maioria dos grupos maoístas, e Rolando Verdial, que se passou para a PIDE, trabalhando para o respectivo director adjunto. Pereira de Carvalho.

O intelectual

Nos anos 40, a sua actividade política e intelectual é intensa. Escreve no Diabo, Sol Nascente, Vértice, polemiza com José Régio a propósito da função social da arte, acusa o poeta presencista de desalento, cansaço e de olhar para o umbigo. E em 1954, abre um debate, na Vértice, com o principal teorizador do neo-realismo, Mário Dionísio, de quem fora grande amigo e que, já na clandestinidade, visitava alta noite para conversarem e pintarem. («Mandámos fazer seis grades a um carpinteiro seu conhecido, três para cada um, para esticar telas para pintar», conta Mário Dionísio.) Assinando textos sobre arte, com o pseudónimo de António Vale — que Dionísio só depois do 25 de Abril soube, por acaso, tratar-se de Cunhal... — manteve-se dogmático e jdanovista, contribuindo para um processo que levaria ao abandono do PCP de parte de alguns dos seus mais destacados artistas e escritores, incluindo Mário Dionísio.

Ele próprio, Cunhal, participa na cultura da clandestinidade com Até Amanhã, Camaradas, romance escrito na prisão de Peniche (cuja autoria, no entanto, nunca reconheceu), transportado durante a fuga numa gabardina azul, e só publicado, com o pseudónimo de Manuel Tiago, após o 25 de Abril.

Entretanto, reorganiza o partido. Vencidos os ánarco-sindicalistas, grupo de que o PCP inicial era uma cisão, lutou contra os desvios de direita, na sequência do XX Congresso do PCUS em que Krutchev denunciou os crimes de Estaline, assistiu às depurações estalinistas dos anos de chumbo (patentes em Lutemos contra os"Espiões e Provocadores, de 1952), elaborou a tese do levantamento nacional em Rumo à Vitória, combateu o radicalismo pequeno-burguês (1964/74), subjacente, na sua perspectiva, ao dissídio sino-soviético, liderou a estratégia de assalto ao poder até ao 25 de Novembro de 1975, e aguentou, depois,"a normalização político-constitucional, realidade a que os grupos maoístas não resistiram, diluindo-se lentamente.

Afectos

Durante anos, Cunhal foi, de todos os líderes, o mais amado e o mais odiado. O rosto aquilino e crispado, as ressonâncias míticas do seu nome no imaginário repressivo português, criaram-lhe uma auréola de mensageiro das forças do Mal. No campo oposto, entre aqueles que beberam o caldo da clandestinidade, a cultura da resistência, ou cultivaram tradições de luta, era, porém, a expressão da grande utopia, do comunismo que tinha como modelo a União Soviética e os «países socialistas».

Hoje, mais gordo, com o tecido melânico a acentuar-se em mãos que, entre 1950/59, desenharam camponesas de braços sólidos e coseram pullovers para camaradas de prisão, Cunhal conta com o respeito e alguma admiração de todos os quadrantes partidários. E, sobretudo, do cidadão comum, à procura de valores como a honestidade e a coerência. Como que deixou de ser uma figura do quotidiano e entrou na galeria dos mitos, feito de despojamento pessoal, vida privada em ascese e função mediática exercida só em proveito do partido.

Longe vão os tempos em que desceu no aeroporto da Portela, chegado do exílio, e foi transportado para cima de um tanque para arengar às massas, em versão corrigida de Lenine na Finlândia. Longe vão os tempos do 1.° de Maio, abraçado a um soldado e a um marinheiro, imagem tutelada pelo gestual da Revolução Russa, com Mário Soares ao lado — última imagem de uma solidariedade em que a festa se sobrepunha às divergências ideológicas.

Sucessão

O líder carismático abandonou a direcção do partido, «numa curva apertada» (expressão que lhe é cara), depositando nas mãos de Carlos Carvalhas a tarefa de orientar uma formação partidária que, desde há muitos anos, não sofria uma sangria tão grande de nomes conhecidos ou de prestígio (António Borges Coelho, Veiga de Oliveira, Vital Moreira, José Luís Judas, Barros Moura, José Magalhães, Zita Seabra, António Hespanha, etc.).

Em 1975, Cunhal ainda acreditava que podia chegar ao poder. Disse, então: «O PCP luta contra todos os projectos políticos que visem a consolidação do capitalismo português, seja como uma nova ditadura terrorista, seja no quadro de uma democracia parlamentar (...) O poder económico não conseguirá reinstalar-se em liberdade. O regime parlamentar é em Portugal uma ilusão.» Hoje, aos 80 anos, é o último resistente de uma época histórica, na Europa.

Renato Sandini, ex-deputado europeu, herói da Resistência italiana, que chegou a dirigir a política externa dos comunistas italianos, conheceu-o em 1965 e descreveu-o como «um homem brilhante e mesmo belo». Anos depois, em 1987, acompanha a Lisboa o então secretário-geral do PCI, Alexandre Natta.

E volta a ver Cunhal. «Encontrei um homem apagado, fechado numa visão antiga, incapaz de renunciar aos dogmas do marxismo para analisar a situação internacional», diz. Mas reconhece que, em relação à situação portuguesa, o então secretário-geral do PCP «revelava uma prudência táctica e uma maleabilidade surpreendentes, que contrastavam com as limitações da sua análise internacional».

Já para Santiago Camilo, com quem as relações nunca foram boas, quando Cunhal entrava numa reunião de partidos comunistas «era como se entrasse Suslov», um duro, o grande ideólogo do PCUS e um dos principais artífices da queda de Krutchev, que foi um dos grandes apoios do PCP no Movimento Comunista Internacional.

Cartas

Diz um primo do líder comunista, residente em Seia: «Os Cunhais sempre foram muito turnos» (teimosos). Álvaro é particularmente obstinado, mas cioso da sua palavra.» Na campanha de 1985, Cunhal foi até ao Fundão, onde visitou o hospital da cidade. Encontra-se com a irmã Teresa, uma freira que se deixa fotografar com ele, mas a quem promete que a fotografia não será publicada.

Por portas travessas, um jornal diário tem acesso ao retrato. O dirigente comunista não hesita. Pela sua mão escreve uma carta à freira pedindo desculpa.

Outras cartas suas são conhecidas, desde as assinadas com o pseudónimo de Alenquer e remetidas para a Rádio Portugal Livre, dando sugestões para a cobertura do golpe de Praga — que deixou marcas profundas na inteligentzia comunista de então — até às enviadas a um camarada que o interroga sobre a legitimidade ou não de pertencer ao PCP e, simultaneamente, à Maçonaria.

Responde Cunhal: «No que respeita à Maçonaria, temos considerado incompatível com a qualidade de membro do Partido a participação na Maçonaria. Compreende-se esta atitude tendo em conta que a Maçonaria é manifestamente dirigida por forças políticas que a utilizam como instrumento para a defesa de interesses que nada têm a ver com o povo e a democracia portuguesa. O facto de, no tempo da ditadura fascista, comunistas e maçons terem lutado pela liberdade não pode significar que os comunistas possam fazer parte da Maçonaria ou os maçons do PCP.»

CULTOS

Álvaro Cunhal tem negado sempre que seja alvo de qualquer culto de personalidade. Mas que ele existe, lá isso existe. Há uma hagiografia em tomo da sua existência. Ganhou forma expressa em 1954, com a publicação de um fascículo sobre a sua vida — era o herói sem mácula, cantado até por Pablo Neruda.

Prolongou-se e desenvolveu-se durante o seu julgamento, como é patente em Defesa Acusa. Foi então seu advogado o pai, Avelino Cunhal. A PIDE impediu quase totalmente a entrada de assistência, mas houve alguns antifascista que, valendo-se da sua qualidade de advogados, conseguiram estar presentes nesse pleito histórico — entre eles, Mário Soares e Salgado Zenha.

Cunhal — que, sujeito às piores torturas na polícia, nunca disse nada, nem sequer o seu nome — em defesa que correu mundo, falando de improviso cerca de uma hora e meia, declarou que quem devia estar ali a ser julgado em vez dos comunistas, era o Governo fascista de Salazar. Grandes movimentos internacionais para a sua libertação desenvolveram-se durante a década de cinquenta. O dirigente comunista era a expressão mais lídima do revolucionário. Esta ideia seria posteriormente reforçada num livro escrito pela neta de Krutchev sobre Cunhal.

A ligação afectiva do líder com os militantes é real. E a sua vida, preservada a parte privada, de que só alguns iniciados conhecem os contornos mais íntimos, faz parte da cultura comunista.

Bem diz Cunhal: «O PCP é um partido que não capitula.» Mas sem referências, sem modelos, sem a solidariedade internacional de outrora, com a militância em banho-maria, embora Cunhal vá avisando que «o sucesso ou insucesso não é a única mostra de validade de um projecto», ao líder comunista resta a utopia, que as fronteiras do tempo e da história são cada vez mais curtas. Seja como for, os seus camaradas, e até muitos dos que sempre estiveram em outras barricadas, desejam-lhe longa vida."

Hoje, este texto é já um documento histórico e foi com esse valor que eu, gostosamente, o publiquei.

Álvaro Cunhal morreu com 91 anos, no ano de 2005.

J.A. 


publicado por weber às 02:53
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