Sábado, 28 de Maio de 2011

Um dia na vida de Francisco José Viegas

O jornal i, a Ana Sá Lopes, convidou o jornalista Rogério Rodrigues (já arredado das lides efectivas...) para fazer um dia na campanha do número 1 da lista do PPD/PSD de Bragança.

Quem sabe, meus amigos, nunca esquece.

É prosa da melhor. Culta, elegante, imaginativa e rigorosa nos apontamentos de reportagem.

Os meninos e as meninas disfarçados com a carteira de "jornalista" que por aí pu(lu)lam nas redacções dos jornais, deviam ler, vinte vezes, e em voz alta, esta belíssima peça jornalística (eu diria mesmo, literária) por mor de aprenderem a arte.

Podem saboreá-la por aqui.

E de seguida, dum só trago:

«Tinha curiosidade em assistir a uma intervenção de Francisco José Viegas, enviado como candidato primeiro para o democrático Goulag transmontano do distrito de Bragança, na qualidade de independente do PSD.
Não defraudou as expectativas. Também José Viegas, com grande esforço e algum sofrimento - estou em crer ?, contemporizou com a anorexia política que domina esta campanha.
Mais do que a violência das ideias, sobressai a violência das palavras que tem crescido no nosso quotidiano político e social.
Estamos em Bragança, talvez simbolicamente, em Caçarelhos (aldeia de Miranda do Douro em que Camilo inventou uma personagem que, em nome das convicções políticas, pôde ser deputado por dois partidos). Clamou Francisco José Viegas: eu não sou Calisto Elói de Benevides Barbuda, não vivo mergulhado em incunábulos, nem fumo rapé, antes charutos cubanos, whiskey irlandês e livros de substância actual.
O candidato número um do PS, um subproduto da circunstância, sorriu com o triunfo dado pelo adversário. É certo que o candidato do PS confunde Camilo ("A Queda de um Anjo") com Margarida Rebelo Pinto (me penitencio: não sei o nome de nenhum romance) e Calisto Elói com um barman da 24 de Julho.
Comparar Viegas com o seu adversário é comparar o "Nome da Rosa" com a Rosa do Adro.
Adelante, como escrevia José Cardoso Pires na "Balada da Praia dos Cães" quando a situação anterior o incomodava.
Com uma hora de atraso, Passos Coelho e Francisco José Viegas chegam a Bragança. Em Mirandela tinham comido posta mirandesa, bebido vinho de Valpaços (alguém treinado em trocadilhos linguísticos disse Vale Passos) e tinham transformado o cavaquistão de Viseu (onde foi fraca a aderência) no passaquistão do Nordeste transmontano.
O calor aperta em Bragança. Na pacatez de uma arruada pouco sentida, Passos Coelho encostou-se ao pelourinho (o símbolo do poder, da justiça e da forca), rodeado pelos caretos de Podence (Macedo de Cavaleiros), adolescentes coitados com chocalhos como cilícios à ilharga e máscaras de latão (máscaras fantásticas, diz Passos Coelho) suavam nos seus trajes coloridos do solstício de Inverno. Era bom e saudável que a estilista Fátima Lopes criasse vestimenta, para os caretos, de solstício de Verão.
De Sendim (Miranda do Douro) vieram os gaiteiros, reminiscências celtas em terras de reminiscências judaicas.
O slogan apregoava Mudança. E seguiu-se um jantar para cerca 1500 pessoas, sob calor de inferno de Dante e, para cúmulo da humilhação ao orgulho transmontano, com catering de Braga e vinho da Adega de Cartaxo. Ó Francisco, isso não se faz.
O poder da televisão sobre os políticos, ou o poder dos políticos sobre a televisão, foi o que ainda não deu para entender nesta campanha. Antes de discursar às massas, ou melhor, a um aggiornamento de pessoas, Passos Coelho esperou para conceder dois minutos ao país. João Adelino Faria (RTP), maquilhado, mexe e remexe no nó da gravata, enquanto não recebe ordens para começar a pequena entrevista. É que tem que coincidir, temporalmente, com a entrevista de José Sócrates que está no extremo, em Faro.
São dois minutos que podem valer uma missa, ou, pelo menos, um terço bem rezado. Passos vai levantando o polegar de vitória. Começa a intervenção. As mãos não ficam quietas.
"Portugal é capaz", afirma. De quê?, vale a pena perguntar. Jorge Nunes, presidente da Câmara Municipal de Bragança (PSD), fala em "ruptura sistémica". Mudança de regime?
Fala Passos Coelho (por quem tenho estima e penso ser recíproca) e lembra-me sempre, como político, a história de uma amiga minha que, após o 25 de Abril, com os exames ad hoc, pensou entrar no Conservatório porque o seu sonho de sempre fora ser actriz. Encontrei-a a um mês depois das provas e perguntei-lhe: "Então passaste?" E ela respondeu-me: "Reprovei, mas também só me deram 15 dias para estudar a cultura geral."
Apareceu então Paulo Rangel, cujo casaco parece maior do que ele. É o paradigma (modelo, na significação do étimo grego) do tribuno em que a repetição se transforma em ritual (repetição das fórmulas) e usa e abusa do medo para esconjurar medos. Mas uma campanha não é uma barra de tribunal. E quanto grita este homem!
Claro que não vou alinhar com o padre Américo que disse não haver rapazes maus. Mas a bondade e a maldade são transversais e ninguém tem o exclusivo do mal e do bem. Os ataques de Rangel a Sócrates são violentos, mas a tenaz resistência muitas vezes leva à incerteza. Vide sondagens.
Já passava das 11 da noite quando Passos Coelho partiu. Mais magro, mal alimentado (que isto de comer todos os dias febras deve custar tanto ao Francisco José Viegas como ao Passos Coelho), quase sem voz. Entra no carro. Parte. E penso: está a precisar de um banho
Viram?
Leram?
Percebem, agora, o que é jornalismo culto, precioso, sem concessões, rente à realidade, para que os leitores  possam sentir-se informados e com possibilidade de formarem opinião. 

publicado por weber às 09:35
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