Quarta-feira, 11 de Agosto de 2010

O "aggiornamento" do PCP

 

Muito se escreveu já sobre o "aggiornamento" do Partido Comunista Português.

Pedro Adão e Silva elabora teoria em artigo publicado no Diário Económico.

Toda a história, ou boa parte dela, do PC português está ligada à luta "leninistas" versus diversas correntes (anarquistas, anarco-sindicalistas, sociais-democratas, esquerdistas. etc.). Todo o "império" de Álvaro Cunhal sobre o aparelho, praxis e teoria, comunista assentou numa invejável coerência leninista de conceber e desenhar o Partido e na prática revolucionária.

Recordo-me da "biblioteca" de Joaquim Pires Jorge, histórico dirigente, já falecido (literatura portuguesa, manuais de gramática e estilística e...obras completas de Lenine). Já velho e debilitado, este lisboeta de Alcântara, treslia Lenine.

Quase que se pode pensar que o PCP não é marxista. É-o na justa medida em que Lenin o é.

Sempre leram Marx através dos olhos de Lenine.

Isto faz toda a diferença.

Os comunistas espanhóis sempre gostaram de ler Marx e não só.

Os comunistas italianos eram leitores primorosos de António Gramsci.

Os comunistas franceses, esses, produziram os seus próprios teóricos interpretativos marxianos: Althusser, Ranciére, etc.

Em Portugal o único "marxista" com capacidade de leitura, autónoma, do Partido e da praxis politica foi-o Luís Sá, com obra teórica publicada.

No livro de Carlos Brito, tomando Álvaro Cunhal como pretexto memorialistico, publicado recentemente, é interessante a abordagem que faz, em momentos capitais da vida do PCP, de Luís Sá.

A primeira: Cunhal quer ceder o "passo" a um jovem e escolhe Luís Sá, para ocupar um cargo novo: Secretário-Geral Adjunto. Só perante a recusa, repetida, do jovem Sá, Cunhal se volta então para um indefectível:Carlos Carvalhas.

Quando, já no segundo consulado de Carvalhas, o teórico Luís Sá lança o "Novo Impulso" para o interior do Partido, o velho líder, Álvaro Cunhal, decide que estão perante uma ofensiva social-democratizante e que é preciso "derrotar" a "manobra". Brito sustenta no seu livro que, e então, Cunhal dirá de Luís Sá:-Ele não é leninista.

Sempre a recorrente bitola: -Ou se é leninista, ou não se é revolucionário.

Não há retorno ao bolchevismo, como o sustenta Pedro Adão e Silva, por que o PCP nunca de lá saiu.

Contudo, neste consulado de Jerónimo de Sousa há sinais curiosos.

Desde logo a recomposição do Grupo Parlamentar: Licenciados, Doutorados, Investigadores, jovens que nunca "militaram" nos sectores-chave (informação, sindicalismo) e poucos "funcionários" partidários.

Veja-se mesmo, traço distintivo para Cunhal, a permanência do actual SG, enquanto deputado eleito, nos labores do Parlamento. As suas participações nos debates com o primeiro-ministro, são assinaláveis.

Os dirigentes partidários de segunda linha (de que se destacam Francisco Lopes, Jorge Cordeiro e Jorge Pires) são de origem pequeno-burguesa, com habilitações académicas muito acima da média.

Curiosamente, no discurso e na praxis, sob a liderança do operário de Piriscoxe, tem-se verificado algumas inflexões, que o tempo confirmará, ou não...

As próximas eleições presidenciais serão um bom teste avaliativo desta "deriva".

Contrariamente ao que sustenta PAS, o BE não é a obsessão do PCP.

São aliados no Movimento Sindical, não são concorrentes nos locais de trabalho, não são ameaça nas autarquias. Aqui e acolá, existem pequenas crispações, mas não são o adversário principal. Basta estar atento aos discursos, às notas de imprensa, às iniciativas parlamentares para se perceber que assim é.

O adversário principal sempre foi e será o Partido Socialista.

Repare-se quantas vezes há até convergência entre PCP e PSD. Porquê? Por que os eleitorados não são concorrentes.

Esta é uma questão deveras interessante, a suscitada por PAS, mas carece de mor especialização e profundidade.

Em curto artigo de jornal, não é suficiente, menos ainda elucidativo.

Aceite-se como contributo e importante.

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publicado por weber às 11:21
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