Domingo, 28 de Agosto de 2011

A democracia em diacronia

Valupi é sagaz  quando coloca, nos seus textos, o modo e o tempo, ou seja o tempo e a narrativa historiográfica de modo a provocar inferências verdadeiramente disponíveis para o enquadramento da actualidade.

Interroga-se sobre a titularidade "universal" do voto, e do bom, mau, ou assim assim, uso do dito.

Mas é, exactamente, no carácter universal do direito ao voto que radica a maior revolução alguma vez introduzida na organização societária das comunidades nacionais.

É este carácter que impede as derivas totalitárias de se consolidarem. Veja-se o que ocorreu na Austria e na Holanda e o modo como essas democracias ocidentais, europeias e pluralistas deram a volta ao seu "desvio" etnocêntrico e de extrema direita.

Leia-se entretanto a rica prosa de Val por aqui.

E de pronto:

"A democracia ateniense compreendia um universo sociológico estimado em 400 mil habitantes, dos quais se calcula que só à volta de 40 mil, mais 10 ou menos 10 mil, tivessem poder político – isto é, fossem considerados cidadãos. Para tal, teriam de ser homens atenienses; o que excluía as mulheres, os estrangeiros e seus filhos, e os escravos. Será o equivalente, comparando o incomparável, ao número de eleitores da freguesia de Benfica em Lisboa. Para além do baixo número de cidadãos, também a cultura era muito mais simples e uniformizada do que a das democracias modernas, com o seu aumento incomensurável de informação e de paradigmas intelectuais e morais. Finalmente, os problemas de gestão nesta escala populacional, nesta tipologia étnica e nesta economia pré-industrial são completamente distintos, porque muito menos complexos, do que aqueles que enfrentamos na contemporaneidade. Por estas razões, uma das características mais radicais da democracia grega podia funcionar com plena eficácia: o sorteio como método de escolha de alguns governantes. O risco de assimetrias graves no desempenho era baixíssimo, dados os mínimos denominadores comuns quanto aos conhecimentos e aos valores. Em resultado, o conceito de democracia realizava-se de uma forma que para nós se tornou impossível. Na nossa época, dependemos de especialistas para a enorme maioria das funções governativas. Todavia, atribuímos o direito de voto a todo e qualquer indivíduo que tenha nacionalidade e maioridade reconhecidas. Quer dizer que basta ter 18 anos, mesmo que nem sequer se saiba o que é um parlamento, para ter literalmente voto em matéria de escolha de governantes. Isto é absurdo. Mas não é menos absurdo do que aceitar votos de alguém que pode ter 44 anos e ser um psicopata. Ou ter 81 e estar senil. Na urna, tal como o dinheiro romano das latrinas, os votos não têm cheiro nem autoria. São a expressão abstracta do colectivo concreto, para o melhor e para o pior. Esta caótica misturada de idades, experiências de vida, estados mentais, ignorâncias, ilusões, esperanças e sabedorias – em cujas mãos depositamos a legitimidade e o destino político da comunidade – precisa de algo mais do que retóricas partidárias e eleitorais: precisa de quem a ame."

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publicado por weber às 22:14
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