Quinta-feira, 14 de Janeiro de 2010

O Haiti

“Quando você for convidado pra subir no adro
da Fundação Casa de Jorge Amado
pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos e outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(Que são quase todos pretos)
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos, quase pretos de tão pobres
são tratados.


E não importa se olhos do mundo inteiro
Possam estar por um momento voltados
para o largo
Onde os escravos eram castigados
E hoje um batuque, um batuque
Com a pureza de meninos uniformizados
de escola secundária em dia de parada
E a grandeza épica de um povo em formação
Nos atrai, nos deslumbra e estimula.


Não importa nada: nem o traço do sobrado
Nem a lente do Fantástico, nem o disco de Paul Simon.
Ninguém, ninguém é cidadão. 

Se você for ver a festa do Pelô,
e se você não for

Pense no Haiti, reze pelo Haiti.

O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui.

 

E na TV se você vir um deputado
em pânico mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo,
qualquer, qualquer
Plano de educação que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça da democratização
Do ensino de primeiro grau
E se esse mesmo deputado defender
a adoção da pena capital
E o venerável cardeal disser que vê
tanto espírito no feto
e nenhum no marginal.
  

E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual
Notar um homem mijando na esquina da rua
sobre um
saco de lixo brilhante do Leblon
E ao ouvir o silencio sorridente de São Paulo
Diante da chacina
111 presos indefesos, mas presos
são quase todos pretos
Ou quase pretos, ou quase brancos,
quase pretos de tão pobres.

 

E pobres são como podres
e todos sabem como se tratam os pretos

E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba

Pense no Haiti, reze pelo Haiti.
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui.”

Gilberto Gil e Caetano Veloso


publicado por weber às 11:50
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De logros a 14 de Janeiro de 2010 às 21:23
É obsceno haver um país no mundo, construído sobre uma falha tectónica, onde os FILHOS DA PUTA dos homens do poder, não providenciaram nunca, construções anti-sísmicas, planos de contingência, retro-escavadoras, etc. Mas deve haver Palácio, primeira-dama, contas bancárias...

Se isto fosse no Japão, outro galo cantaria...mesmo com a escala a 7.

Outra coisa aflitiva é ver o contraste da jmprensa ocidental, louraça e cheia de afã noticioso a mostrar-nos os mprtos, os feridos, os meio-engolidos pelos destroços. Hoje vi uma locutora tuga, penteada como quem vai a uma festa, a enquadrar essas imagena. Apetece dizer: prenda o cabelo, envergonhe-se de habitar este planeta.



I.


De weber a 14 de Janeiro de 2010 às 22:37
A sua indignação é a minha, também.
Tem toda a razão.
Aquele país foi espoliado pela família Duvalier e pelos tontons...policia politica de uma ferocidade únicas.
A magia vudu impera naquele reino de sombras e de morte.
Os jornalista que estão a mandar para lá é, exactamente, como você diz.
Vi uma reportagem da CNN, com um sénior, ajoelhado a falar com um ferido...toda a dimensão humana da tragédia ali estava. Ele falava, lentamente, quase com medo que as palavras ferissem: profissionais e eticamente irrepreensíveis!
JA


De logros a 14 de Janeiro de 2010 às 23:06
E por que será que Cuba, com tanto médico e militares, ali tão perto, não foi ajudar?
"Putílicas", não?

I.


De weber a 14 de Janeiro de 2010 às 23:14
Bingo!
Os cubanos, os internacionalista, não dão esmola nem praticam a caridade:
vendem cada médico a 2 500 Euros/mês. 2 000 para o estado e 500 para o senhor doutor.
Viva o internacionalismo proletário!
JA


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