Terça-feira, 24 de Julho de 2012

Esta entrevista merecia um livro

José Miguel Júdice, pode-se não estar de acordo com ele, mas a sua frontalidade e clareza de afirmações recomendam-no a qualquer pessoa interessada na história de Portugal, no último quarto do século XX.

Li, fascinado, de cabo a rabo, a conversa que deu ao SOL.

O que diz do Pai, falecido tinha ele três anos, é um dos melhores testemunhos que conheço sobre o PCP e os seus processos de diabolização.

Simplesmente, imperdível e que pode saborear aqui.

«Ainda assim, nada apaga a morte de um pai. Tem memórias dele?

Lembro-me de uma figura grande, não me lembro da cara dele. Quando há momentos traumáticos grandes, há uma amnésia que ajuda a sobreviver. Mas a memória dele está perto de mim.

Foi essa recordação que o levou a decidir que era anticomunista logo aos quatro anos?

O meu pai é a grande figura da minha vida. Teve coragem de ser comunista no tempo do Salazar e teve coragem de abandonar o PCP, o que também era difícil. E mais, era um ateu que casou com uma rapariga de uma família ultracatólica. Foi atacado e injustiçado, ainda hoje dizem coisas horríveis dele, mas eu percebo, o PCP não podia permitir que os intelectuais abandonassem o partido e quem o fazia era vilipendiado. Tive acesso ao processo do meu pai na PIDE e o que se passou com ele passou-se com todos os outros. Não há nada de que se pudesse envergonhar. Só quem nunca esteve preso, e eu estive, é que pode lançar uma pedra se alguém fraquejar.

Os contornos da morte do seu pai ainda hoje lhe trazem dúvidas?

Cresci com a ideia de que o meu pai tinha sido assassinado pelo PCP. Havia um técnico que fez análises ao meu pai que diziam que ele estava óptimo, mas ele não parava de piorar. Quando se repetiram as análises já estava perdido. Anos depois descobriu-se que era do PCP. Não acredito, mas é evidente que o meu anticomunismo foi bebido como leite materno. Curiosamente, quando fui bastonário, o PCP foi um aliado na minha luta pelo Estado de direito. Mas quando a cidade de Coimbra me ofereceu a medalha de honra o membro do PCP que estava na vereação votou contra e quando me entregaram a medalha, saiu. Foi dos momentos mais gloriosos da minha vida. Foi a prova de que o meu pai foi um homem corajoso, pois 60 anos depois da sua morte ainda não está esquecido.»


publicado por weber às 17:42
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