Domingo, 22 de Julho de 2012

Poesia como memória

FUGA SOBRE A MORTE

 

Leite-breu d' aurora nós o bebemos à tarde
nós o bebemos ao meio-dia e de manhã nós o bebemos à noite
bebemos e bebemos
cavamos uma cova grande nos ares
Na casa mora um homem que brinca com as serpentes e
                                                                                 [escreve
ele escreve para a Alemanha quando escurece teus cabelos de
                                                                     [ouro Margarete
ele escreve e aparece em frente à casa e brilham as estrelas ele
                                               [assobia e chama seus mastins
ele assobia e chegam seus judeus manda cavar uma cova na terra
ordena-nos agora toquem para dançarmos
Leite-breu d'aurora nós te bebemos à noite
nós te bebemos de manhã e ao meio-dia nós te bebemos à tarde
bebemos e bebemos
Na casa mora um homem que brinca com as serpentes e
                                                                            [escreve
que escreve para a Alemanha quando escurece teus cabelos de
                                                                     [ouro Margarete
Teus cabelos de cinza Sulamita cavamos uma cova grande
                                            [nos ares onde não se deita ruim
Ele grita cavem mais até o fundo da terra vocês ai vocês ali
                                                            [cantem e toquem
ele pega o ferro na cintura balança-o seus olhos são
                                                                           [azuis
cavem mais fundo as pás vocês aí vocês ali continuem tocando
                                                                   [para dançarmos
Leite-breu d' aurora nós te bebemos à noite
nós te bebemos ao meio-dia e de manhã nós te bebemos à tardinha
bebemos e bebemos
Na casa mora um homem teus cabelos de ouro Margarete
teus cabelos de cinza Sulamita ele brinca com as serpentes
Ele grita toquem mais doce a morte a morte é uma mestra
                                                                  [d' Alemanha
Ele grita toquem mais escuro os violinos depois subam aos
                                                          [ares como fumaça
e terão uma cova grande nas nuvens onde não se deita ruim

Leite-breu d'aurora nós te bebemos à noite
nós te bebemos ao meio-dia a morte é uma mestra d' Alemanha
nós te bebemos à tarde e de manhã bebemos e bebemos
a morte é uma mestra d' Alemanha seu olho é azul
ela te atinge com bala de chumbo te atinge em cheio
na casa mora um homem teus cabelos de ouro Margarete
ele atiça seus mastins contra nós dá-nos uma cova no ar
ele brinca com as serpentes e sonha a morte é uma mestra
                                                                     [d' Alemanha
teus cabelos de ouro Margarete
teus cabelos de cinza Sulamita

 

Paul Celan


publicado por weber às 19:58
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