Domingo, 26 de Junho de 2011

F.J.V., "O Conformista"

 

António Guerreiro, na sua crónica do Expresso, na revista Actual, assina texto a pretexto do novel SEC, Francisco José Viegas.

O texto é deveras interessante e tem um remate, quase in cipit, curioso: «Diga-se, sem reservas nem ironia: seria difícil encontrar um secretário de Estado da Cultura tão perfeitamente identificado com o mundo cultural como Francisco José Viegas. O seu currículo é o do perfeito agente cultural

O texto vale por si, mas por inteiro.

Não creio que esta síntese reverbere o descritivo da personagem, que percorre a crónica.

Mas, admito-o, posso ter mal entendido o critico, o melhor e mais substantivo, o mais corajoso, da actualidade, que é  jornalista do Expresso.

Eu não consigo linká-lo, mas aconselho-o, vivamente a quem o possa fazer.

Cuidadoso, António Guerreiro, não se enganaria em colocar, à luz da sua escrita, o secretário em caixa baixa...ou acham, que é distracção?

Entretanto, no "câmara corporativa", a instância do meu bom amigo Miguel Abrantes, fui lá sacar o texto quase todo:

«Diga-se, sem reservas nem ironia: seria difícil encontrar um secretário de Estado da Cultura tão perfeitamente identificado com o mundo cultural como Francisco José Viegas. O seu currículo é o do perfeito agente cultural: o indivíduo que tudo converte à linguagem da cultura e a amplifica nas suas saborosas astúcias. Escritor, o seu mundo é o da cultura literária; editor, a sua tarefa é a cultura editorial; diretor de uma revista literária, a cultura foi no entanto o seu verdadeiro sacerdócio; comentador de futebol, ele responde às exigências profanas da cultura futebolística; homem de gostos mundanos, sejam eles a gastronomia regional, os vinhos ou os charutos, ele inscreve-os na ordem dos requintados interesses culturais. Eis alguém que faz a síntese total com que sempre sonharam os espíritos iluminados pela chama da cultura. A sua vocação de agente cultural é um percurso de santidade: é uma capacidade pacificadora que consiste não apenas em conviver com tudo, mas em fazer com que tudo conviva com tudo, sem exclusões nem conflitos. Os ofícios sacerdotais da cultura, tal como FJV sempre os exerceu, são uma esponja que apaga rugosidades e anula asperezas: constroem o consenso, exaltam o conformismo, glorificam uma arte de viver que sabe aderir, em cada momento, à superfície lisa do tempo. A cultura — sabe muito bem este mestre dela, agora secretário de Estado — rege-se pelo princípio da conformidade. Com os seus mecanismos bem afinados, a cultura nada tem de irredutível, de resistente. É uma matéria plástica, pronta a ser moldada, convertida, traficada — tarefas que os mais dotados agentes culturais exercem com zelo. O poder da cultura é mimético e extensivo. Sem reservas nem ironia: quem agora acedeu a secretário de Estado da Cultura sabe, das argúcias culturais, tudo o que há a saber.»

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publicado por weber às 16:22
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De Jaime Santos a 26 de Junho de 2011 às 19:10
E isto é escrito sem qualquer Ironia? Se isso é verdade, o novo SEC é um verdadeiro camaleão cultural...


De weber a 26 de Junho de 2011 às 21:51
Eu creio, conhecendo a escrita do António Guerreiro, que ele está a ser sarcástico, emprestando uma "falsa"/ "verdadeira" seriedade ao texto.
Complicado?
Talvez.


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