Sábado, 25 de Abril de 2009

25 de Abril: pensar Portugal, hoje?

Faz tempo, noutras circunstâncias (que hoje sabemos a resposta e estão cumpridas:CGTP, presidência dos USA, etc), produzi esta reflexão, mas creio, que alterando-lhe só a data, os destinatários mantêm-se actuais e sem estrebuchar:

 

Por estes dias, meses, quiçá anos, a blogoesfera ganhou uma dimensão, uma qualidade e uma efervescência que condiciona costumes, pensamentos, comportamentos e ainda agendas...culturais, políticas, informativas e opinativas. Ultimamente, além da nossa, modesta, política portuguesa e aquela que é suposta estar sedeada no Governo, vidé Sócrates (Lei do tabaco, reformas na saúde e no ensino, remodelação governamental...), temos as Primárias nos USA (sobre as quais os bloguistas recorrem, profusamente, a textos e imagens oriundas, no original, dos USA, sem legendas nem dobragem...), temos as efemérides (regicídio, Vieira e etc...), temos o folhetim Carvalho da Silva (fica, ou não fica à frente da CGTP) e, nos últimos dias tivemos o folhetim da "censura" do Expresso em relação a um texto indigente, sobre o livro do MST/Equador, duma presunta colaboradora daquele Semanário - que ninguém conhece. Em tudo isto vemos emergir, como lama viscosa que se nos cola ao corpo, de modo impressivo, a nossa "alma" nacional, os nossos mitemas, os nossos traumas, as nossas misérias, os nossos sonhos, os "fumos das Índias", o sebastianismo, o Vº Império e quejandos. Creio que, nestes tempos de desconcerto, faz sentido recuperar o "emblema" do Abrupto do JPP, roubado ao Sá de Miranda "... M'espanto às vezes, outras m'avergonho...". Releia-se "As Farpas" e percebemos que o patriotismo criticista dos de 70 vale, hoje, o que valia naqueles idos finiseculares (talvez até mais, com a inflação!...): releiam e, depois, ponderem onde estamos como Povo, como comunidade!...Jorge de Sena (hoje, um mal amado, mas de obrigatória e sã leitura) disse uma coisa espantosa, daquelas mesmo de espantar!: "Camões soube transformar em obra d'arte o povo mais anárquico do mundo...". Do Padre Vieira, dizem os comentadores encartados que foi um enorme cultor da nossa língua ( e do latinório, já agora que aqui estamos), que foi travesso, que brigou nos brasís contra a Santa Inquisição e mais blá, blá e blá...Mas Vieira era, também, Jesuíta (Companhia que foi inventada para dar combate à Reforma de Martinho Lutero e para demandar os Orientes civilizados, e nasceu na nossa muito amada Espanha/Castela...), e era mestiço, e era cultor duma certa "doudice". Esta nossa mania de só dizer bem - dos defuntos! Este nosso jeito de pintar os defuntos às cores e, os vivos, sempre a P&B!  Disse Vieira: "Todos os que na matéria de Portugal se guiaram pelo discurso erraram e se perderam". Guilherme d'Oliveira Martins disse de Vieira (fora deste afã festeiro..):"A força argumentativa da razão (que tão bem cultivou) havia de se alcançar «com mistura de doudice»." Alguém disse (creio que é um aforismo popular):" Depois de mim virá quem bem de mim dirá". Nós, portugueses (dum modo geral...), temos um jeito muito peculiar para a intriga, para o maldizer, para a opinião gratuita (sem sustentação, nem argumentário, nem competência, nem informação que nos valha...) - só porque nos apetece, para cavalgarmos a onda, para, como a gaivota o faz com o bico, apontarmos, sempre, para onde sopram os ventos. Os anarquistas espanhóis, creio que ao tempo da República, nos anos 30 do século passado, tinham um dito, que era todo um programa: "Hay gobierno, soy contra!" Neste dito, a nossa costela desfuncional aí poderia estar plasmada. Somos, todos,assim?

Em demanda do Messias, à espera de D. Sebastião, maldizentes, invejosos, vaidosos, incompetentes, videirinhos, malandros, intriguistas, desconcertantes, desenrascados?...Claro que não. Há notáveis vultos, de antanho e coevos que tinham/têm um outro olhar sobre Portugal e os portugueses: D. Dinis, o Infante D.Pedro (filho de D.João I. Releiam a sua espantosa carta de Bruges...), D.João II, Afonso de Albuquerque, Damião de Góis, o Marquês de Pombal, Almeida Garrett, Alexandre Herculano, D. Pedro V, Oliveira Martins (quase toda a geração de 70)e, mais recentemente, José Mattoso e Eduardo Lourenço. Na ciência e na tecnologia actuais, temos gigantes (Sobrinho Simões, Professor Quintanilha, o neurocirurgião João Lobo Antunes, Ana e António Damásio, etc). Temos quase 60 investigadores no CERN, na Suiça. Tesmo tecnologia NOSSA nas aeronaves da NASA e no Programa GPS/Galileu da UE... Muitos mais NOMES, e situações, poderia listar, mas estes, poucos, servem só para ilustrar a minha "intenção"...

 Estamos bem, como País? Estamos mal, como Povo?

Depende, do que colocarmos antes, como pressupostos, destas perguntas. Estamos melhor que no tempo de Salazar? Estamos melhor do que antes de termos aderido à CEE? Sem sombra de dúvidas e em todos os itenes que utilizarmos. Então, ele há um que é mesmo um absoluto: a Liberdade! Eu sou daqueles que não discuto, nem negoceio, este bem impressivo, inquestionável e de valor inestimável! Estamos numa curva apertada do nosso devir como Povo e como Nação? Claro que sim. O que se está a fazer, em nosso nome, está bem feito? Não sei. O futuro (uma vez mais, o futuro...) no-lo dirá. A história nos há-de julgar (não só aos governantes, aos actores principais...) mas a TODOS.

Nestes tempos, em que o principio da incerteza, por todas as razões (e mais uma, que não estamos a ter em conta...a crise financeira que aí está a anunciar-se) domina todos os tabuleiros - da política até às belas-artes, mas, contudo, sustento e defendo com genuina crença: há razões para ter confiança e acreditarmos que, "amanhã" o mundo poderá ser melhor. Esta crença, paraliza-me?

Nem um pouco. Dá-me, outrossim, o ensejo e a vontade de ir a contra-corrente, de não me deixar enredar em sonhos por cumprir, ou em projectos oportunistas, ou em derivas de enriquecimento fácil, ou em carreiras políticas ou de poder, sempre coisa éfemera, para justificar escolhas de passado mal feitas, vencidas ou mal avaliadas.

Hoje, agora mesmo, quero tentar entender, quero saber, quero experimentar compreender, sem preconceitos, sem vendas para...para, singela ambição, SER MELHOR COMO HOMEM, e em cada dia que passa.

Quero procurar a VERDADE, em todas as  situações (coisa pequena!...) e a luz da razão que deverá iluminar e guiar os trilhos da humana Humanidade .

 

José Albergaria

 

NB-Não alterei as situações por que me parece que o texto é de mor actualidade e oportunismo. O quadro é de Henrique Pousão e ele chamou-lhe "Esperando o sucesso"!


publicado por weber às 00:07
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