Sexta-feira, 9 de Dezembro de 2011

Nações, nacionalismos, crise

Tony Judt, Eric Hobsbawm (na foto) e Renè  Rémond são três dos maiores e melhores historiadores da nossa contemporaneidade

Judt, com um percurso singular e distinto dos outros dois, disse de Hobsbawm, membro do Partido Comunista Inglês, mas, antes do mais e acima de tudo...historiador "provavelmente o historiador com a maior soma de dados, informações e memória e capaz de lidar com ela, com o máximo dos rigores e eficiência narrativa."

A obra deste inglês singular, com quase cem anos, centra-se muito nas questões decorrentes do par Estado-Nação.

Nasceu em Junho de 1917, em Alexandria, ainda possessão inglesa.

A obra dele, publicada pela Terramar em 1998, "A Questão do Nacionalismo, nações e nacionalismo desde 1780" é de uma enorme actualidade e texto de referência para quem quiser abordar tão ingente, quanto actual temática.

Quase em guisa de síntese e  no final, sustenta o historiador, e citamos "Em resumo, na forma wilsoniana-leninista" (os dois grandes vencedores da 1.ª guerra mundial) o lema da autodeterminação, mesmo incluindo a separação como um programa geral, não  oferece qualquer  solução para o século XXI. Pode ser melhor compreendido como um sintoma da crise do conceito de «Estado-nação» do século XIX, apanhado entre aquilo a que The Economist chamou «supranacionalismo» e «infranacionalismo». Mas a crise do grande Estado-nação é também a crise dos pequenos, dos antigos e dos novos." 

E continua o nosso ancião, do alto da sua tranquila sabedoria:

"Portanto, hoje (finais do século XX) o nacionalismo reflecte apenas metade da crise da antiga ideologia e do programa wisoniano-leninista. Como vimos, até muitos movimentos nacionalistas antigos, fortes e determinados têm dúvidas acerca da verdadeira independência do estado, mesmo quando mantêm o objectivo de separação total dos Estados de que fazem actualmente parte (como o fazem os nacionalistas bascos e escoceses). A antiga «questão irlandes», ainda não adequadamente resolvida, ilustra esta incerteza."    

Depois, e o que é deveras importante para o tempo que dramaticamente vivemos, a relativização do Estado-nação em pleno século XXI.   

Eric Hobsbawm tem uma espécie de revelação, de epifania, em relação a este conceito em processo de desagregação.

O que está a ocorrer no seio da UE e do grupo de dezassete da zona Euro é sintomático deste fenómeno pressentido pelo historiador.

Ei-lo como se refere a tal processo: " Pelo contrário, terá de ser inevitavelmente escrita como a história de um mundo que não mais pode ser contido dentro dos limites de «nações» e «Estados-nações» da forma como estes eram definidos política, económica e culturalmente ou até linguisticamente. Será  grandemente supranacional  e infranacional, mas até mesmo a infranacionalidade, quer se revista de algum mininacionalismo ou não, irá reflectir o declínio do antigo Estado-nação como entidade operacional. Verá os «Estados-nações» e «nações», ou grupos étnicos/linguísticos, principalmente em retirada, a resistirem, a adaptarem-se, a serem absorvidos ou deslocados pela nova reestruturação supranacional do globo. As nações e o nacionalismo estarão presentes nesta história, mas com papéis subordinados e por vezes inferiores."    

E, finalmente, para remate de conversa, esta bela e impressiva frase: "Afinal, o próprio facto de os historiadores estarem já a começar a fazer algum progresso no estudo e na análise das nações e do nacionalismo sugere que o fenómeno, como tantas vezes acontece, já ultrapassou o seu auge. A coruja de Minerva que traz sabedoria, afirma Hegel, voa ao crepúsculo. É um bom sinal, ela estar agora a sobrevoar as nações e o nacionalismo." 

Esta análise é de uma impressionante actualidade e resiste, parecendo que não, à primeira vista, aos acontecimentos dos últimos dias, meses e anos, que têm ocorrido no espaço da UE e não só.

Pressente-se, neste texto de  Hobsbawm, uma enorme sabedoria e uma sagacidade analítica que surpreende os mais distraídos.

Onde alguns, pessimistas, registam a catástrofe, o historiador anuncia o tempo novo, que até pode ser exaltante.

Quem viver...verá.                           


publicado por weber às 17:22
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