Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

Camões

Roland Barthes era, foi, um compulsivo salta-pocinhas. Embrenhou-se em quase todos os territórios do saber.

Dissecou, se assim se pode dizer, a escrita de Michelet, um dos principes da historiografia francesa.

Num estudo que sobre ele fez, cita uma passagem, tirada de Histoire du XIX.e Siécle, Tome II, "Le Directoire", Preface:

"Falei algures do cargo que Camões ocupou na margem assassina da Índia: Administrador do bem  dos falecidos.

Sim, cada morto deixa um pequeno bem, a sua memória, e pede que se trate dela. Para aquele que não tem amigos, é preciso que o magistrado os substitua. Porque a lei, a justiça, é mais segura do que todas as nossas ternuras descuidadas, as nossas lágrimas tão depressa secas.

Esta magistratura, é a História. E os mortos são, para dizer como o Direito Romano, essas miserabiles personae com que o magistrado deve preocupar-se.

Nunca na minha carreira perdi de vista esse dever do Historiador.

Dei a muitos mortos demasiado esquecidos a assist
ência de que eu próprio precisarei.

Exumei-os para uma segunda vida. Vários não tinham nascido no momento que teria sido próprio. Outros nasceram na véspera de circunstâncias novas e comovedoras que vieram apagá-los, por assim dizer, abafar a sua memória (exemplo, os heróis protestantes mortos antes da brilhante e esquecida época do século XVIII, de Voltaire e de Montesquieu).

A história acolhe e renova estas glórias deserdadas; dá vida a estes mortos, ressuscita-os."

Texto notável, com Camões dentro dele.

Soberbo.

J.A.

PS-A nova historiografia francesa está a redescobrir Michelet.

Era bom que, os nossos literatos redescobrissem o nosso Luís Vaz de Camões.

Gravura de Jules Michelet.


publicado por weber às 17:36
link do post | comentar
| | partilhar
:
De Logros a 13 de Julho de 2009 às 18:48
Apetitosíssima, "La Sorcière" de Jules Michelet. Tudo sobre "sabats", "missas negras" nas clareiras dos bosques, na sua raíz cultural mais profunda. Tenho a edição francesa (nem sei se há tradução): foram (as "feiticeiras") queimadas aos milhares pelo Santo Ofício. Elas detinham o conhecimento das ervas medicinais, eram parteiras e curandeiras. Foram usurpadas pelos médicos :))))

I.

PS- JA, ponha lá coisas que eu não me apeteça comentar: futebol, Cavaco, Santana, lili Caneças...
Só me posta aqui iguarias!


De weber a 13 de Julho de 2009 às 19:07
Touché.
Grande texto.
Também não sei se existe a tradução em português. Creio que não.
Abraço,
J.A.

NB- Nem pense em tal coisa.
E, depois, com quem é que eu conversava?
Quem é que era assertivo, inteligente, pertinente, bondoso, questionador, como o é, sempre, a minha amiga?
A propósito: tem escrito?
Para quando aquele poema sobre o MUNDO?!


Comentar post


. ver perfil

. seguir perfil

. 8 seguidores

.pesquisar

 

.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. The End

.arquivos

.tags

. todas as tags

.últ. comentários

Chame-me Parvo….Pois é, Sr. Pedro Tadeu, é isso me...